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Mande na sua vida!

Ter controlo sobre as nossas próprias vidas é deter o supremo poder. Pessoal e intransmissível. Mas, às vezes, sem saber como entregamo-lo de bandeja. E deixamos que nos humilhem.

Foto: Semina Psichogiopoulou / Unsplash
02 de julho de 2020 | Isabel Stilwell
O verdadeiro poder é aquele que detemos sobre a nossa própria vida. É ter a certeza de que pelo menos a maioria das nossas escolhas, as importantes, as que nos definem, resultam da nossa vontade e não nos são impostas nem pelos outros, nem pelas circunstâncias. É claro que tudo na vida exige bom senso e equilíbrio, e é por isso que cedemos tantas vezes, mas recebendo uma contrapartida equilibrada, num jogo de poder em que ninguém ganha sempre, nem perde a maioria das vezes. É um jogo que vamos aprendendo a jogar desde o berço, em braços-de-ferro com os nossos próprios pais, em desafios de adolescentes que não medem ainda até onde podem ir, em negociações de adultos que nem sempre correm como esperamos, mas que nos vão permitindo aprender a arte do ataque, mas também da defesa.

Mas há quem não aprenda, por falta de bons professores, cresça com uma autoestima demasiado frágil, ou simplesmente seja apanhado na curva, e quando dá por isso entregou de bandeja o poder sobre si mesmo, e tudo lhe escapa, até a dignidade. "Ela humilhou-o de tal maneira que corámos todos de vergonha." É assim que o neurocientista e escritor Ian Robertson começa a contar a história de uma mulher que, numa festa, humilha o marido à frente de toda a gente, chamando-lhe inútil, bêbado e o que mais lhe veio à cabeça, num tom de desprezo que cortava ainda mais do que as palavras ditas. Enquanto os convivas, envergonhados, não sabiam o que dizer, a vítima sorria, bebendo mais uns goles do copo de whisky que o acompanhava desde que tinha entrado na sala. Como é que aquele homem fica naquela relação, pergunta-se Robertson. O neurocientista conclui que quando alguém entrega a outro o poder sobre si mesmo, começa a ser visto por ele como um objeto e a ser tratado em conformidade. "Afinal, os objetos não têm vontade própria, não tomam decisões. E, sobretudo, não suscitam empatia – que empatia temos por um objeto?", refere.

Daí ao desprezo é um passo, e Robertson explica as manobras de que o nosso cérebro é capaz para justificar os comportamentos que temos. Se perguntassem àquela mulher, que até era, diz ele, inteligente e simpática, como consegue ser tão cruel para o marido, provavelmente ela responderia qualquer coisa como: "Ele estava a pedi-las." E a verdade é que mesmo o espectador, depois de um momento de indignação, começa a pensar o mesmo: que palhaço é aquele para continuar ali? Sendo um homem a vítima, pior ainda, porque da mulher o preconceito continua a tolerar a submissão. Robertson vem em socorro do pobre homem: o processo de desvalorização própria é real e traduz-se em alterações químicas e até do funcionamento cerebral que a certa altura impedem a reação. A vítima vai progressivamente entregando os pontos, vai-se deprimindo, ficando mais passiva, perde a iniciativa, deprime-se e tem medo. E quanto mais inútil se sente, mais grata fica que alguém lhe dê atenção, nem que seja para a maltratar.

Relações de trabalho podem ser território minado. Mas não imagine que estas relações minadas existem apenas nas relações amorosas porque podem acontecer em todas as relações de poder, como são aquelas entre pais e filhos ou patrões e empregados. Robin Stern, psicanalista e autora de um livro sobre como é fácil sermos manipulados, conta a história de Melanie, que se atreve a perguntar a um chefe autoritário porque é que ele lhe tem dado apenas as tarefas mais chatas para fazer. O chefe olha-a de alto a baixo e responde que ela é uma stressada e sensível demais. Melanie, em lugar de responder que mesmo que fosse, não vinha ao caso, adota uma atitude defensiva.

É-lhe insuportável que alguém pense que é uma pieguinhas, apoderada pelos nervos. A discussão passa a centrar-se nesse tópico: o chefe deliciado por ter encontrado um ponto fraco, e ela determinada a provar-lhe que não é frágil, aceitando todo o trabalho sem refilar. É claro que a história acaba com uma depressão, explica Robin Stern. Mas Melanie podia ser qualquer um de nós e, prepare-se, o chefe também. Estudos e mais estudos demonstram que, ao contrário do que imaginamos, as circunstâncias contam muito, podendo transformar o soldado mais afável no mais cruel dos torturadores. O poder corrompe e muito poder corrompe muito. É por isso que a responsabilidade de o deter é tão grande. 

*Texto originalmente publicado em novembro de 2014 [edição 314]
Saiba mais Comportamento, Autonomia, Liderança, Crescimento Pessoal, Mande na sua vida, Ian Robertson, Robin Stern, Melanie
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