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Djed Spence e o aperto de mão que não aconteceu: o que muda quando eles quebram o 'código de silêncio'?

Porque a violência contra as mulheres também é um problema dos homens.

O momento em que Djed Spence se recusa a cumprimentar Thomas Partey
O momento em que Djed Spence se recusa a cumprimentar Thomas Partey Foto: Getty Images
29 de junho de 2026 às 15:59 Patrícia Domingues Adicione como fonte preferencial no Google

Um aperto de mão antes do apito inicial é um dos gestos mais automáticos do futebol. Faz parte do ritual, da etiqueta, da ideia de respeito entre adversários. Por isso mesmo chamou tanta atenção quando Djed Spence,  jogador do Tottenham e da seleção inglesa, optou por não cumprimentar Thomas Partey, vice-capitão da seleção do Gana, antes de um jogo do Mundial. O momento foi breve, mas rapidamente se tornou notícia e gerou debate. Não apenas porque envolvia dois jogadores de alto nível, mas porque Partey enfrenta alegações de violência sexual, que nega, num processo que continua a seguir o seu curso legal (e que irá a julgamento em Inglaterra em novembro).

É importante separar desde logo os planos. A culpa criminal só pode ser determinada pelos tribunais. A presunção de inocência é um princípio fundamental do Estado de direito e não deixa de o ser porque um caso ganha enorme visibilidade mediática. Mas isso não significa que a sociedade tenha de suspender qualquer reflexão ética ou social até existir uma decisão judicial. Nem que as pessoas sejam obrigadas a agir como se nada estivesse a acontecer. Foi precisamente essa tensão que o gesto de Spence tornou visível.

Mais do que um julgamento sobre um colega, o que aquele momento expôs foi uma questão mais ampla: o que acontece quando um homem decide marcar publicamente distância perante outro homem acusado de violência sexual? E porque continua esse tipo de gesto a ser tão raro, sobretudo em ambientes profundamente marcados pela cultura masculina, como o futebol?

Para Fernando Mesquita, psicólogo clínico e sexólogo, estes gestos podem ter um peso simbólico importante porque ajudam a definir aquilo que um grupo considera aceitável. "Quando um homem demonstra, de forma clara, que a violência sexual ou de género não é aceitável, transmite a ideia de que esses comportamentos não fazem parte daquilo que a sociedade espera de um homem", explica à Máxima. Esse impacto torna-se ainda maior quando parte de figuras públicas, cujas atitudes são observadas e replicadas por milhões de pessoas.

O efeito não se limita aos homens. Para vítimas de violência sexual ou de género, ver figuras públicas recusarem normalizar determinadas situações pode contribuir para um sentimento de validação. É uma mensagem de que aquilo que viveram é levado a sério e de que não estão sozinhas. Embora um gesto isolado não altere essa realidade, pode ajudar a quebrar a sensação de isolamento que tantas vítimas descrevem.

O debate, aliás, está longe de ser exclusivo do futebol. Há alguns dias, Jimmy Fallon foi criticado por receber Conor McGregor no programa The Tonight Show sem fazer qualquer referência ao processo civil em que o antigo campeão de artes marciais mistas foi considerado responsável pela violação de Nikita Hand. A entrevista decorreu como uma conversa promocional sobre os projetos de McGregor e gerou críticas de espectadores e comentadores que acusaram o apresentador de contribuir para a normalização da imagem pública de uma figura envolvida num caso de violência sexual.

A atriz Christina Ricci foi uma das que se pronunciou publicamente, republicando um story no Instagram que dizia: "Conor McGregor violou uma mulher de forma tão brutal que os técnicos de emergência médica que a assistiu comentou a gravidade dos hematomas que ela apresentava. O tampão que ela estava a usar quando foi violada teve de ser removido cirurgicamente, porque tinha sido empurrado tão profundamente para o interior do corpo. Como é que este absoluto pedaço de lixo humano está a receber uma plataforma no programa do Jimmy Fallon? Que vergonha, Jimmy. Temos de deixar de fingir que a violação é aceitável. Homens, que raio estamos nós a fazer?"

À primeira vista, os dois episódios parecem opostos. Num caso, um jogador opta por marcar distância; no outro, um apresentador recebe um convidado sem abordar a controvérsia que o envolve. Mas, do ponto de vista das normas sociais, ambos levantam a mesma questão: as figuras públicas comunicam não apenas através das palavras, como também através dos gestos e das escolhas que fazem. Um aperto de mão, um convite para um programa ou a decisão de ignorar determinado contexto podem parecer detalhes. Ainda assim, ajudam a definir aquilo que uma comunidade considera normal, aceitável ou merecedor de reprovação.

A pergunta seguinte é talvez mais desconfortável: se estes gestos têm potencial para influenciar normas sociais, porque continuam a ser tão pouco frequentes? A psicologia social, como explica Fernando Mesquita, dá algumas respostas. Uma delas é a racionalização. Perante situações moralmente difíceis, é comum recorrer a justificações que aliviam o desconforto: "não sabemos a história toda", "não me quero envolver", "ele sempre foi impecável comigo". Estas explicações não resolvem o dilema; tornam-no simplesmente mais fácil de ignorar.

Outra explicação é o chamado efeito do espectador. Quanto maior for o grupo, maior tende a ser a probabilidade de cada indivíduo assumir que será outra pessoa a agir. Quando ninguém diz nada, o silêncio acaba por ser interpretado como a norma. E, em contextos altamente competitivos e assentes na lealdade ao grupo, como o desporto profissional, romper esse silêncio pode ter custos sociais elevados.

É precisamente aqui que ganha importância outro conceito destacado por Fernando Mesquita: o dos chamados "aliados masculinos". A investigação mostra que as normas transmitidas por membros do próprio grupo tendem a ser mais influentes do que mensagens vindas de fora. "Quando um homem desafia comentários sexistas, recusa banalizar a violência ou promove relações baseadas no respeito, está a contribuir para redefinir aquilo que significa ser homem", afirma.

Isto não significa que todos os homens tenham de agir da mesma forma perante situações semelhantes. Nem que exista uma obrigação moral de repetir o gesto de Spence. Significa apenas reconhecer que as atitudes públicas comunicam valores. E que, goste-se ou não, também ajudam a construir normas sociais.

É por isso que o futebol merece uma reflexão particular. Durante décadas, este foi um espaço onde a masculinidade foi frequentemente associada à dureza, ao silêncio emocional, à proteção dos pares e à ideia de que determinados assuntos deveriam permanecer dentro do balneário. Essa cultura está longe de ser exclusiva do futebol, mas nele tornou-se especialmente visível. Quando alguém rompe esse código, o gesto ganha inevitavelmente um significado que ultrapassa o momento em si.

Como reforça, aliás, a jornalista desportiva Cerys Jones, do The Athletic, "sempre que surgem alegações deste tipo, o padrão tende a repetir-se: a pessoa acusada nega qualquer irregularidade; treinadores, clubes ou entidades responsáveis recusam comentar, invocando razões legais; e, quando o processo termina - ou simplesmente deixa de ocupar espaço na agenda mediática -, o debate mais amplo desaparece."

Ao mesmo tempo, convém resistir à tentação de transformar qualquer gesto simbólico numa solução para um problema estrutural. Como sublinha o psicólogo, "por si só, este tipo de gestos não resolvem o problema". A mudança depende também de educação, de políticas institucionais, de responsabilização e de transformações culturais mais profundas. Mas isso não significa que os símbolos sejam irrelevantes.

As mudanças nas normas sociais raramente começam por grandes reformas. Muitas vezes começam por pequenos momentos que tornam visível aquilo que antes parecia impensável. Um comentário que deixa de provocar risos. Um colega que decide intervir. Um amigo que recusa desculpabilizar determinado comportamento. Ou um jogador que escolhe não estender a mão. Nenhum destes gestos substitui a justiça. Nenhum determina a culpa de ninguém. Mas todos contribuem para responder a uma pergunta diferente: que comportamentos estamos, enquanto sociedade, dispostos a normalizar? É nessa resposta coletiva que reside o verdadeiro significado deste episódio.

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