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Aprender a nadar na era das braçadeiras

Foto: A Amiga Genial
01 de julho de 2021 | Cláudia Lucas Chéu

O título é inspirado num dos livros de que mais gosto do Gonçalo M. Tavares, Aprender a Rezar na Era da Técnica, mas nada tem que ver com o dito texto. Até ao final da adolescência, o mês de Julho era o mês que me auspiciava mais felicidade. Aguardava o ano inteiro pela alegria prometida pelas férias no Algarve, marcadas no calendário, que quase nunca desiludiam, mostrando-se Julho luminoso e vibrante, mais do que qualquer outro mês.

Não sei se me lembro realmente, ou se as memórias me chegam através das fotografias, de andar com o baldinho e a pá à beira-mar, curvada de rabo para o sol, a fazer buracos na areia. Lembro-me de que o mundo inteiro existia só ali, tudo era simples e a única contrariedade consistia na tanga para ir ao banho, aos quadradinhos, que me ficava demasiado larga e que caía, deixando-me algumas vezes com o rabo à mostra. Tinha de andar sempre a puxá-la para cima. Há fotografias em que estou a segurar a tanga com uma mão e a escavar a areia com a outra. Não que me importasse de mostrar o rabo, foi muito antes de saber o que era a vergonha ou o pudor, mas porque me lembro do desconforto que aquilo me causava.

Por outro lado, uma das memórias mais felizes e de conforto que tenho na vida também é na praia, a comer pão com manteiga sentada na toalha, a bater os dentes e a agitar o tronco de frio, depois de ter estado de molho durante horas, até os dedos mirrarem e os lábios ficarem cor de ameixa e me obrigarem a sair do mar. Se fosse eu a decidir, ficava dentro de água até à hipotermia. Nessa altura, os meus pais chamavam-me «pata». «Olha para ti, pareces uma pata sempre dentro de água.»  Estar no mar, mais do que nadar, dava-me prazer, e ainda hoje é igual. Aprendi a boiar muito cedo e tinha a sensação de ser livre, de não ter peso e de ficar tudo calmo no corpo e na cabeça. Aprendi a nadar e a boiar com o meu pai. Nunca fui a aulas de natação, o dinheiro não chegava para tudo. Por isso, nadar sempre foi uma actividade de desenrascanço.

No mar ou na piscina, sou como um animal (e não estou a ser metafórica): nado à sapo ou à cão, ou de bruços como se fosse um golfinho com uma deficiência. Aprendi o mínimo para não me afogar. O meu pai aprendeu em criança, por si mesmo, a sobreviver. Contou-me que, quando era miúdo, os amigos da rua o atiraram de um pontão ao rio Tejo para ver se sabia nadar. Se não estivesse um pescador atento a assistir à cena, o meu pai não teria sobrevivido. Os miúdos que o empurraram espantaram-se de não ter conseguido nadar. Julgavam que uma pessoa aprendia a nadar sozinha em caso de sobrevivência. Quando viram o pescador ir buscar o meu pai e trazê-lo para a margem, ficaram chocados, nunca mais tornaram a empurrar ninguém para o rio. Para o meu pai, que não devia ter mais de nove anos, foi um susto que nunca esqueceu.

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Quis então aprender a nadar para nunca mais passar por isso. Começou a treinar sozinho nas margens do rio, nas zonas baixas onde tinha pé, todos os dias desse Verão. Aprendeu a nadar e ensinou-me o pouco que sabe. Tive mais sorte do que ele, que teve de fazê-lo sozinho e com a memória de um momento de aflição.

O meu pai ensinou-me a nadar com braçadeiras no Algarve. Por isso, sem ondas e com as duas bóias nos braços, íamos para fora de pé. Só eu, ele não, porque felizmente não é pai que arrisque. Nunca tive medo, sentia-me segura com ele. Nessa altura ainda não sabia que ele nada conhecia sobre natação. As braçadeiras também davam segurança. A técnica, portanto. Também ensinei a minha filha a nadar com as braçadeiras postas. Hoje já não precisa delas. Quando a ensinei a nadar lembrei-me do Algarve e das manhãs de natação com o meu pai. Sempre cedinho, quando a praia cheirava a maresia e felicidade em doses idênticas, e o único problema que eu tinha na vida era a tanga do banho demasiado larga.

*A cronista escreve de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990. 

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