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Agora a sério, por que ficamos obcecados por casais de celebridades?

Às vezes, basta um duo bonito - como Shawn Mendes e Bruna Marquezine - para nos lembrar o quanto gostamos de espreitar o amor dos outros.

Shawn Mendes e Bruna Marquezine
Shawn Mendes e Bruna Marquezine Foto: Getty Images / Collage: Safiya Ayoob
09 de janeiro de 2026 às 14:51 Safiya Ayoob

Quando Justin Bieber publicou aquela fotografia da Passagem de Ano de 2016, em St. Barths, a beijar Hailey Bieber (então Baldwin), os fãs entraram em combustão. Muitos não conseguiam acreditar que ele estivesse com ela - alguém que não tinham “escolhido” nem aprendido a amar. Hailey foi arrastada pela lama por quem se dizia fã de Justin. Uma parte significativa acreditava que Selena Gomez era quem ele “devia” amar, e o mesmo acontecia do lado dos fãs de Selena. Quando a narrativa que tinham imaginado para o futuro dele não se concretizou, revoltaram-se contra quem consideraram responsável: Mrs. Bieber. Mas por que razão acharam que tinham direito a opinar sobre com quem Justin namora ou casa? De onde vem este comportamento parassocial? Não é algo novo, nem começou com Bieber, mas continua a ser um fenómeno que nos deixa desconfortáveis.

Nathan Heflick, professor catedrático de Psicologia e colaborador da plataforma Psychology Today , chama a isto o halo effect. É quando alguém que percebemos como extraordinário numa área (como Justin na música) acaba por beneficiar dessa aura noutras dimensões da vida. Transferimos a admiração para além do talento: para a personalidade, para as escolhas, para a moral. E quando essa figura que colocámos num pedestal faz algo que contraria a história que “escrevemos” para ela, o encanto quebra-se. O resultado? Fãs frustrados, irritados e muitas vezes agressivos.

Para quem não vive mergulhado na cultura pop, tudo isto pode soar a exagero. Mas existe e denomina-se amor parassocial. Com redes sociais, nunca houve tantas formas de nos fixarmos em celebridades e nos seus parceiros. O que nos leva à inevitável pergunta: porquê? Não temos coisas melhores para fazer? Este comportamento obsessivo em torno de casais famosos reapareceu recentemente, por exemplo, com . Como lembrava um artigo da Glamour, nós - o público - tendemos a apaixonar-nos não pela pessoa real, mas pelo personagem; pela ideia. Não é verdadeiramente quem eles são, mas a parte que escolhem mostrar ao mundo.

Shawn Mendes e Bruna Marquezine
Taylor Swift e Travis Kelce Foto: Getty Images

E é aqui que entra o fascínio pelo romance - porque o amor, nas celebridades, torna-se uma extensão do espetáculo. Um novo casal não é apenas duas pessoas a conhecerem-se; é uma narrativa pronta a ser consumida, analisada e julgada. Projetamos ali as nossas expectativas, frustrações e desejos: o final feliz que queremos, o par “ideal” que confirma aquilo em que acreditamos sobre amor, sucesso e até identidade. O problema é que, quando transformamos pessoas em personagens, esquecemo-nos de que não nos devem coerência narrativa.

O caso recente de Shawn Mendes e Bruna Marquezine é um exemplo perfeito. Assim que surgiram juntos, a internet começou a trabalhar: teorias, "provas", comparações com relações anteriores, previsões sobre quanto tempo iria durar. Para alguns fãs, a relação foi recebida com entusiasmo romântico; para outros, com desconfiança, como se fosse necessário validar se aquela combinação “fazia sentido”. Como se r canadiano e de uma atriz brasileira precisasse da nossa aprovação coletiva para ser legítima. O mais curioso é que Shawn Mendes sempre foi tratado como o “rapaz sensível”, o artista introspetivo que canta vulnerabilidade. Bruna Marquezine, por sua vez, carrega uma imagem pública de independência e força. Ao juntarmos estas duas figuras, o público não vê apenas duas pessoas - vê símbolos. Ele representa uma certa ideia de romantismo emocional; ela, uma ideia de autonomia feminina e sucesso global. A relação passa a ser lida como um enredo: o encontro de dois arquétipos.

Mas há também outra camada: vivemos numa era em que a intimidade é moeda. As redes sociais ensinaram-nos a acompanhar a vida dos outros em tempo real, a medir felicidade em fotografias, a traduzir relações em legendas. Quando celebridades entram em relações, esperamos - quase exigimos - acesso: queremos sinais, gestos, confirmações. Não porque conheçamos aquelas pessoas, mas porque estamos habituados a consumir intimidade como conteúdo. A fronteira entre curiosidade e invasão torna-se difusa.

No fundo, talvez queiramos saber tanto sobre os relacionamentos das celebridades porque eles funcionam como um espelho confortável. É mais fácil discutir o amor dos outros do que encarar o nosso. Ao comentar Shawn e Bruna, Justin e Hailey, Taylor e Travis, falamos de expetativas, de idealizações, de ciúme, de medo de perder, de esperança. Falamos, sem o admitir, de nós próprios. As histórias deles dão-nos uma linguagem para as nossas emoções - com a vantagem de não termos de nos expor.

Ainda assim, convém lembrar: não estamos a acompanhar uma série. São pessoas reais, com conflitos reais, com dias bons e maus que não cabem num post ou numa fotografia. O amor parassocial pode ser inofensivo enquanto curiosidade, mas torna-se problemático quando se transforma em julgamento, posse ou ataque. Quando passamos a acreditar que temos direito às escolhas de alguém só porque admiramos o seu trabalho.

Talvez a pergunta certa não seja apenas “por que queremos saber tanto?”, mas “o que estamos a procurar?”. Romance? Representação? Um conto de fadas moderno? Ou apenas uma distração elegante para não lidarmos com as nossas próprias histórias? Shawn Mendes e Bruna Marquezine vão viver a relação deles - longe ou perto dos holofotes. A nós resta decidir se queremos ser espetadores atentos… ou se é tempo de fechar o ecrã e voltar às nossas próprias narrativas. Menos perfeitas, mas verdadeiramente nossas.

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