Solteira, sem filhos e com um namorado 15 anos mais novo. O perfil de Delcy Rodríguez
Desde 2018 que está ligada ao governo de Maduro como vice-presidente. Apelidada como "La Tigresa", é atualmente a figura central de poder na Venezuela.
Quando os Estados Unidos avançaram com uma operação encoberta na Venezuela para capturar o presidente Nicolás Maduro, na tarde de sábado, 3 de janeiro, o mundo susteve a respiração. As reações foram ambíguas. Por um lado, a liderança de Maduro tem sido amplamente criticada no Ocidente, tanto pelo seu pendor autoritário como pela contestação em torno das eleições do ano anterior. Por outro, a intervenção norte-americana gerou um cepticismo imediato, sobretudo num país que detém algumas das maiores reservas de petróleo do mundo.
Após a detenção do presidente, o poder transitou de imediato para a vice-presidente, Delcy Rodríguez, como determina a lei venezuelana.
Foi nesse mesmo dia que o mundo voltou os olhos para Caracas. Na conferência de imprensa realizada horas depois da captura de Maduro, surgiu Delcy Rodríguez, 56 anos - uma figura firme, de discurso controlado, conhecida nos corredores do poder pelo apelido de 'La Tigresa'. Para muitos observadores internacionais, aquele foi o primeiro contacto próximo com uma das mulheres mais influentes e menos conhecidas do regime venezuelano.
A ligação de Delcy Rodríguez à política não começou na idade adulta; faz parte da sua história desde a infância. Natural de Caracas, é filha de Jorge Antonio Rodríguez, combatente rebelde de esquerda e fundador do partido Liga Socialista nos anos 1970. Como descreveu o The New York Times, o pai foi um guerrilheiro marxista que ganhou notoriedade ao sequestrar um empresário norte-americano e que acabou por morrer sob tortura, enquanto se encontrava sob custódia policial, em 1976. O episódio marcou profundamente a esquerda venezuelana da época - incluindo um jovem Nicolás Maduro. Rodríguez tinha apenas sete anos quando perdeu o pai.
Formada em Direito pela Universidade Central da Venezuela, Rodríguez começou a ganhar projeção política após a morte de Hugo Chávez, fundador do movimento bolivariano, em 2013. Maduro, seu sucessor, chamou-a para integrar o governo, primeiro como ministra da Comunicação e Informação e, mais tarde, como ministra das Relações Exteriores - tornando-se a primeira mulher a ocupar esse cargo na história do país.
Ao lado do irmão, Jorge Rodríguez, Delcy consolidou-se como uma das figuras centrais do chavismo. Entre 2014 e 2017, enquanto ministra das Relações Exteriores, foi uma das principais vozes na defesa do governo de Maduro perante a comunidade internacional, terminando acusações de erosão democrática e violações sistemáticas dos direitos humanos.
Representou a Venezuela em fóruns como as Nações Unidas, onde acusou repetidamente outros governos de tentarem desestabilizar o país. Em 2017, assumiu a presidência da Assembleia Nacional Constituinte, um órgão criado após a oposição vencer as eleições legislativas de 2015 e que, na prática, reforçou os poderes do Executivo. Em 2018, Maduro nomeou-a vice-presidente para o seu segundo mandato. O cargo manteve-se no terceiro mandato presidencial, iniciado a 10 de janeiro de 2025, na sequência das controversas eleições de 28 de julho de 2024. Até à captura de Maduro, Delcy Rodríguez acumulava ainda as funções de principal autoridade económica do país e ministra do Petróleo.
Sobre a vida pessoal de Delcy Rodríguez, sabe-se pouco, mas o que se sabe baralha as figuras estereótipadas associadas ao feminino no poder. A referência a aspetos pessoais surge, em muitos casos, mais como reflexo de ideais associados às mulheres na política do que por qualquer relevância objetiva para a sua carreira. O jornal El Debate, por exemplo, destaca que nunca se casou nem teve filhos. O nome foi associado a dois relacionamentos conhecidos. O primeiro, com o ator venezuelano Fernando Carrillo, terminou em 2007. O romance terá durado cerca de três anos, numa altura em que Carrillo era já um rosto consagrado das telenovelas e Rodríguez dava os primeiros passos na alta política.
Mais recentemente, mantém uma relação com Yussef Abou Nassif Smaili, 40 anos, um empresário de origem libanesa, apontado como o companheiro desde 2017 e presença discreta em algumas viagens oficiais. Apesar de preferir a distância dos holofotes, várias investigações jornalísticas indicam que Smaili terá sido um dos empresários que mais enriqueceu nos bastidores do governo Maduro, com ganhos estimados em cerca de 500 milhões de euros.
Delcy Rodríguez construiu também uma imagem pública cuidada. É conhecida pelo gosto por moda e por roupas de marca, um traço que, segundo relatos da imprensa venezuelana, chegou a gerar tensão dentro do próprio círculo do poder. Terá sido repreendida por Cilia Flores, mulher de Maduro, por usar peças consideradas "demasiado caras" para o discurso oficial do regime.
Hoje, solteira, sem filhos e no centro do poder venezuelano, Delcy Rodríguez continua a ser uma figura tão influente quanto controversa: moldada por uma herança política marcada pela violência, consolidada pela lealdade ao chavismo e observada com atenção crescente por um mundo que, por fim, voltou os olhos para a Venezuela.
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