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A miúda debaixo da mesa

"Nos sonhos tudo é espelho, tudo aquilo que vemos somos nós, por isso, sonhar com um dos filhos em perigo é tentar salvar a nossa criança."

Mara Wilson no filme, 'Matilda, a espalha brasas' (1996).
Mara Wilson no filme, 'Matilda, a espalha brasas' (1996). Foto: D.R
01 de outubro de 2021 | Cláudia Lucas Chéu

Quando se vive com medo e triste, os dias são infindáveis e as noites um autêntico pesadelo. Ou não se dorme, porque a insónia ataca como uma grande e implacável histérica, ou dorme-se pouco e a prestações curtas e miseráveis. Sonhar com crianças costuma ser um pesadelo recorrente dos adultos. Ver no sonho algum filho ou filha em perigo é um pesadelo ainda mais corriqueiro para qualquer progenitor. Também é comum sonhar com colegas dos filhos e outros miúdos e miúdas a quem se inventa um nome e um rosto. Amiúde, surgem pesadelos que se esticam até fermentar suor no peito do adulto adormecido.

Um psicanalista explicou-me que sonhar com crianças, sejam ou não filhos ou parentes, significa sonhar com a «nossa criança», o nosso eu na infância. Nos sonhos tudo é espelho, tudo aquilo que vemos somos nós, por isso, sonhar com um dos filhos em perigo é tentar salvar a nossa criança. Sonho muitas vezes que a minha filha está em perigo, quase sempre envolve água ou penhascos assustadores. São sonhos vívidos e que permanecem na minha cabeça durante o dia, por vezes dias. Acredito que talvez surjam com regularidade porque há bastante tempo que me debato com voltar a entrar em contacto com a miúda que fui. Perdi-lhe o rasto há uns anos. Sei que somos melhores se nos mantivermos em contacto com essa pessoa pequenina que éramos, porque estava lá tudo. E eu quero ser melhor e entrar em contacto com a minha verdadeira natureza. Olho para trás, por esse monóculo que permite regredir no tempo, e gosto muito do que vejo. Sinto um carinho genuíno por aquela miúda. E penso que ainda nos vamos voltar a unir. Porque a miúda continua cá dentro, ainda que escondida debaixo de uma mesa. Os miúdos e as miúdas escondem-se quando têm medo. Porém, sei que, mais tarde ou mais cedo, vai voltar a revelar-se. Tenho de assegurar que nunca mais se vai esconder. Somos parte do mesmo e as duas juntas perfazemos uma outra pessoa, nova, melhor. Tenho a certeza de que, nessa altura, os pesadelos com crianças vão desaparecer. Talvez haja, então, espaço para sonhar com crianças contentes e protegidas por pessoas crescidas. Crianças no seu esplendor da liberdade, parvoíce e leveza, como devem ser.

*A cronista escreve de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990. 

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