Teresa Violante, jurista
"O Presidente não é decorativo; tem poderes reais. E a forma como os exerce, pode fazer a diferença. Gouveia e Melo já afirmou publicamente que usará o veto político a legislação que precarize o trabalho. A precarização laboral em Portugal tem rosto: contratos a prazo, trabalho parcial involuntário, falsos recibos verdes. São sobretudo rostos de mulheres. Um Presidente disposto a vetar sem custos partidários – porque não deve nada a aparelhos – é uma proteção institucional concreta.?Há depois a magistratura de influência. Gouveia e Melo não se limitou a lamentar o colapso na saúde ou a apelar a mais um anódino pacto de regime. Disse que “Portugal fica mais Portugal quando as grávidas não tiverem de parir na rua ou nas ambulâncias.” Criticou um Governo que dá prioridade a debates mediáticos enquanto os serviços públicos falham. Isto mostra como a pressão institucional pode ser exercida de modo substancial.
Não apoio Gouveia e Melo por ter um “programa para mulheres”. Desconfio de quem segmenta o eleitorado em categorias e promete a cada uma o que quer ouvir. Apoio-o porque a sua agenda – saúde pública funcional, travão à precarização, independência face a interesses partidários e económicos – beneficia quem está em posição mais vulnerável. E as mulheres estão sobrerrepresentadas nessa vulnerabilidade: são a maioria dos profissionais de saúde em burnout, a maioria dos trabalhadores precários, a maioria de quem depende de serviços públicos que funcionem.
Gouveia e Melo tem na coesão social o cerne do seu posicionamento político. Só com tal coesão social garantiremos as condições materiais que permitem às mulheres não terem de escolher entre carreira e família, entre emprego e dignidade.?
Mas o peso decisivo na minha escolha foi outro: vivemos um momento em que a ordem internacional está à beira do colapso. Neste contexto, que candidato oferece preparação real para liderar o país num cenário de quase-guerra? A verdade é que só Gouveia e Melo reúne condições mínimas para se apresentar como um líder credível na arena internacional e multilateral. Tem experiência operacional, é respeitado internacionalmente, compreende as dinâmicas de segurança e defesa que estão a assumir o papel mais central das últimas décadas. Não se trata de escolher o melhor, e sim o único com perfil essencial para navegar estes tempos, os mais desafiantes desde a Segunda Guerra Mundial."
Este testemunho faz parte do artigo "Eleições. Quão feministas são, afinal, os candidatos à Presidência da República?", com entrevistas a apoiantes de diferentes candidatos.