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Celebridades

Tânia Laranjo entrevistada pela filha: "Quando comecei disseram-me que nunca faria televisão, porque era mais gorda e mais velha"

Depois da tempestade, a bonança: com quase 30 anos de carreira, o reconhecimento. A repórter do povo, a que está onde mais ninguém quer estar, a que não se importa de estragar o penteado em direto. Hoje, pela primeira vez em muito tempo, parámo-la para lhe dar folga. Sentámo-la no lugar que raramente é o dela, com maquilhagem e enquadramento perfeitos. Hoje, não foi ela a correr atrás da história - foi a história que correu atrás dela.

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Tânia Laranjo x Máxima
27 de fevereiro de 2026 às 12:41 Francisca Laranjo

Mãe, tens uma longa carreira, são 30 anos de profissão. Nos últimos dias, depois do mau tempo, recebeste uma grande onda de amor. É uma vitória que demorou, mas chegou?

É um reconhecimento de algum público que demorou e chegou. Não é tanto uma vitória, porque não é muito diferente do que fiz ao longo destes 30 anos. Obviamente, a projeção da CMTV é cada vez maior. É uma vitória no sentido de, por exemplo, reconhecerem a proximidade que nós temos das pessoas, e que nós quase fazemos serviço público. Isso é, de facto, uma vitória: dizer-se que a CMTV faz serviço público.

Qual é que foi a mensagem que mais te impactou, de tantas que recebeste?

A da Mega Hits, porque foi feita por um público jovem, muito jovem. Tiveram a capacidade de reconhecer que muitas vezes só se brinca com os erros. Não vejo nenhum mal em brincar com os erros, eu própria também me rio, como sabes. E usaram ali dois momentos: o momento da onda e o momento em que ia sendo picada por uma abelha durante um direto. Mas foi na mesma essa mensagem de serviço público, foi de 'brincámos contigo, mas agora temos que te dizer obrigado'.

E jovens sobre os quais até há aquela ideia de que não veem televisão.

Exatamente. É um público completamente diferente do nosso público médio, o espectador comum da CMTV, que tem mais idade, são normalmente mulheres, andam ali já acima dos 50 anos. E, de facto, nós tínhamos aqui miúdos, da tua idade, com vinte e poucos anos, a reconhecerem esse serviço público. Foi das coisas mais especiais.

Entrevista completa no dia 28, no NOW, às 10h30.
Foto: Ricardo Santos / Máxima

Há aqui outro ponto, que poucos sabem, mas se calhar muitos vão percebendo daquilo que vão vendo na televisão: não és nada dada à maquilhagem, não és nada dada aos cabelos. É essa a parte mais chata de fazer televisão, aquela obsessão que temos quase todos com a imagem?

É, isso para mim é, de facto, o mais difícil. O passar horas a fio - aliás, eu não passo horas a fio, a bem da verdade. Eu maquilho-me e penteio-me em 15 minutos, com tudo ao mesmo tempo. Acho que é um bocadinho de tempo perdido e não é a minha praia, não me sinto confortável.

Alguma vez sentiste que tinhas quase a obrigação de mudar a imagem para fazer televisão? Ser mais cuidada?

Quando comecei, houve pessoas que me disseram que eu nunca faria televisão, porque já tinha 40 anos, porque era mais gorda que as mais magras, porque era mais velha. E acho que foi importante desconstruir isso, porque durante muitos anos a televisão era só boneco e o conteúdo não contava. Neste momento, nós demonstramos - e eu também demonstrei - que o conteúdo é muito mais importante do que o boneco.

Hoje as redações já são redações - e a nossa é um exemplo disso - cheias de mulheres, com muitas mulheres, mas quando começaste estava bem longe disso e já falaste disso comigo.

Sim, era uma redação de homens. 

Trabalhaste mais e provaste mais por isso?

Sim, muito mais. Trabalhei mais, provei mais, eram redações muito mais difíceis. As mulheres tinham que provar muito mais, eram muito mais sexualizadas, até no trabalho, era muito mais difícil singrar do que é hoje. Hoje eu acho que, mesmo assim, podemos ainda não estar num plano ideal, mas já caminhamos muito mais para uma igualdade que não existia quando comecei. Eu fiz 21 anos no Jornal de Notícias e era uma redação profundamente masculina, em muitos momentos machista. Eramos três ou quatro raparigas, não havia mais - e miúdas, eu era uma criança quando lá entrei.

Entrevista completa no dia 28, no NOW, às 10h30.
Foto: Ricardo Santos / Máxima

Apercebeste-te que se calhar o homem que estava ao teu lado não era tão qualificado, mas que era mais valorizado ou mais levado a sério do que tu?

Sim, era mais levado a sério do que eu e era quase normal haver algum assédio e alguma pressão sexual.

Nem se falava no assédio, não era isso?

Não, nem se falava. Normalizava-se, tudo era normalizado.

Quase desde sempre que sabes que eu queria ser jornalista, mas quando realmente decidi, 'ok mãe, vou para o jornalismo', tiveste medo?

Tive medo porque acho que é uma profissão um bocadinho ingrata. Quando se gosta muito, tem que se abdicar de muita coisa. E acho que, nessa perspetiva, é uma profissão ingrata. E, aliás, tu sabes, é uma profissão que ocupa demasiado tempo. Perdes muito da vida própria. Era um risco.

Disseste à Joana Marques que não tinhas medos, mas tens. Quais é que são?

Só não há solução para a morte. E esse é o único medo que tenho. Não tanto a minha, mas das pessoas que me são próximas. E depois tenho medos no sentido... tenho receios. O medo faz parte, acho que o medo nos trava. Gosto de ter medo - aliás, costumo dizer que eu não gosto de trabalhar com pessoas que não têm medo. Por exemplo, não gosto de ir para incêndios com pessoas que estão demasiado entusiasmadas com o incêndio e que querem estar em cima das chamas. Não, nós temos que respeitar o que está ao nosso lado. E, de facto, o medo faz-nos bem, o medo trava-nos.

Entrevista completa no dia 28, no NOW, às 10h30.
Foto: Ricardo Santos / Máxima

Já tens uma longa carreira, quais é que foram os principais momentos? Se agora olhasses para trás, sobre o que é que dizias: 'Isto marcou-me mesmo'?

Foram essencialmente histórias de crianças. Hoje acho que já me envolvo menos ou, pelo menos, já tenho a capacidade de me distanciar das coisas, já não as trago para casa. Quando era mais nova, e designadamente quando tu eras muito pequena, e havia uma idade muito parecida entre ti e algumas das crianças, por exemplo, que eram assassinadas pelos pais. Essas foram histórias mais marcantes porque havia proximidade de idades, uma jovem mãe revê ali a filha, o perigo, o que é que pode acontecer. E é muito difícil de perceber, é a única coisa que eu até hoje não consigo perceber. Tento normalmente enquadrar tudo, mesmo sobre os piores dos criminosos tento olhar para eles, para as histórias deles. Porque se nós nos pusermos nos sapatos dos outros, se calhar faríamos também, ou podíamos também dar passos errados. A única coisa que eu não consigo perceber é como é que um pai mata um filho. E essa minha incapacidade - porque acho que já estamos a um nível que não é humano, que é de maldade pura, que é contra o animal que protege a cria. Foram os casos que mais me marcaram.

És uma grande profissional, uma quase viciada no trabalho, mas tens esse lado muito maternal e acho que poucos sabem realmente a mãe que está por trás dessa imagem. Sentes-te orgulhosa do trabalho que fazes - agora já não tanto - mas que fizeste comigo?

Sinto, sinto. Nós costumávamos brincar nas redações, e tu sabes, a dizer que tinhas tudo para dar errado. (risos) Porque eu trabalhava muito, mas como te lembras, sempre fui uma mãe muito presente. Porque isso também é uma mentira: uma mãe que trabalha muito não é uma mãe ausente. E eu era uma mãe que trabalhava muito.

E que, mesmo assim, me ligava 20 vezes por dia.

E podia estar 15 dias fora, mas aqueles dois dias que estava em casa eram vividos intensamente. Íamos a todos os sítios. Íamos ao teatro, ao parque, à piscina. E ia eu e tu. Ou mais alguma criança.

Sempre com mais alguma criança.

O  tempo mede-se em qualidade, não é em quantidade. É de qualidade.

Há um bocadinho aquela ideia de que, se aquela mãe trabalha muito, de certeza que não liga muito ao filho.

'De certeza que não tem tempo para os filhos.' Tem, tem tempo para os filhos, porque o tempo não se mede...

Não se diz isso dos pais.

Os tempos não se podem medir pela quantidade. Todos nós conhecemos pais que estão muitas horas com os filhos, mas não estão em qualidade com os filhos. E depois tu também cresceste um bocadinho nas redações. Portanto, mesmo quando eu estava a trabalhar, tu estavas ali e estiveste sempre próxima.

E era fascinante porque havia muitos computadores.

Era um mundo fascinante para uma criança, porque era um mundo de adultos.

Entrevista completa no dia 28, no NOW, às 10h30.
Foto: Ricardo Santos / Máxima

O que é uma mulher Máxima para ti?

É a que segue o seu coração. Há pessoas que são mais felizes a projetarem a sua vida, por exemplo, para o lado pessoal, outras para o lado profissional. O meu modelo não é o certo. Nós temos na nossa família, por exemplo, quem não seja assim e que é imensamente feliz.  Portanto, uma mulher Máxima para mim é aquela que...

Que é feliz, não é?

É que está onde quer estar. E que é estupidamente feliz.

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Créditos:

Fotografia: Ricardo Santos

Realização: Joyce Doret

Cabelos e Maquilhagem: Sandra Alves 

Set Design: Marta Cruz

Agradecimentos: Gleba, Mango e Taberna Londrina 

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