Vitória, vitória, repete-se a História. Como o poder patriarcal lucra com as inseguranças das mulheres
Enquanto ocupam a sua mente com obsessão estética pelo padrão de beleza vigente, as mulheres não lutam pelos seus direitos.
Durante muito tempo, fui aquela amiga que quase nunca publicava nada online. E, quando o fazia, era quase sempre um story: uma forma rápida de mostrar algo que achava bonito, estético ou interessante, mas sem grande compromisso. Talvez me sentisse mais confortável nesse formato precisamente por vir da era do Snapchat - uma altura em que partilhar era mais espontâneo, mais efémero, menos pensado. Na altura, isso quase ia contra a norma. Cresci enquanto membro da Geração Z, rodeada por redes sociais, num período em que os millennials dominavam o Instagram com publicações cuidadosamente curadas: fotografias editadas, filtros do Vasco, molduras brancas e uma preocupação evidente com a estética do feed.
Mais tarde, já nos meus 20 e poucos anos, comecei finalmente a publicar. Mas publiquei de forma controlada. Os posts eram uma maneira de mostrar pequenos fragmentos da minha vida a amigos com quem tinha perdido contacto físico, mas que, de alguma forma, ainda queria manter por perto. Eram quase sempre carrosséis. Talvez porque um carrossel me fizesse sentir mais protegida, menos exposta, como se a atenção se distribuísse por várias imagens em vez de recair sobre "a" fotografia perfeita. Porque a pressão de escolher essa única imagem - aquela que supostamente resume um momento, uma viagem, uma fase da vida ou até uma versão de nós próprios - tornou-se demasiado grande. E talvez seja aqui que começa o problema.
"Depois de duas décadas a partilhar cada vez mais online, parece que decidimos partilhar menos." É assim que começa um artigo da BBC sobre a pergunta: porque é que os nossos amigos deixaram de publicar nas redes sociais? O texto refere que uma nova sondagem mostra que quase um terço dos utilizadores de redes sociais publica menos do que há um ano, uma tendência particularmente visível entre adultos da Gen Z.
Esta mudança não passou despercebida. As pessoas estão a publicar menos, afastando-se daquilo que, em teoria, estava no centro da criação do Instagram: uma forma simples de partilhar fotografias bonitas, editadas e visualmente apelativas com os nossos amigos. Mas porque é que publicamos menos hoje? Se tivesse de responder apenas a partir da minha experiência, diria que a pressão para construir uma imagem perfeita nunca foi tão grande. O Instagram tornou-se, de certa forma, o nosso portefólio pessoal. Um espaço onde mostramos as melhores versões de nós mesmos, os melhores momentos, os melhores lugares, os melhores ângulos. Mas, ao reduzir a nossa presença online a uma seleção permanente do que há de mais bonito, mais interessante ou mais bem composto, afastámo-nos da dimensão mais simples e social das redes.
Kyle Chayka, autor de Filterworld: How Algorithms Flattened Culture e colaborador do The New Yorker, descreve bem esta sensação em entrevista à BBC: as redes sociais tornaram-se menos sociais. Já não servem apenas para ver o que se passa à nossa volta ou para acompanhar a vida dos nossos amigos e família; tornaram-se espaços de consumo, aspiração, performance e conteúdo altamente formatado.
Com a profissionalização do Instagram - e com o crescimento dos criadores de conteúdo, influenciadores e marcas pessoais - começou também a instalar-se a ideia de que já não se pode simplesmente publicar por publicar. Tudo parece ter de justificar a existência: a fotografia tem de ser boa, a legenda tem de ser inteligente, o momento tem de parecer relevante, o post tem de "fazer sentido" dentro da identidade que construímos online. E, quando utilizadores comuns começam a comparar-se com pessoas que usam o Instagram como trabalho, publicar deixa de ser casual. Passa a parecer uma tentativa falhada de competir num jogo que nunca quisemos jogar.
No ensaio para The New Yorker, Chayka chama a este fenómeno "posting ennui" - uma espécie de cansaço existencial associado ao ato de publicar. No mesmo texto, antecipa a possibilidade de caminharmos para um ponto de "Posting Zero", em que as pessoas comuns - não profissionalizadas, não transformadas em marca, não otimizadas para o algoritmo - simplesmente deixam de partilhar coisas nas redes sociais.
É impossível separar este afastamento da forma como passámos a usar as redes. O Instagram já não é apenas um lugar no qual vemos fotografias de amigos. É também um espaço em que consumimos notícias, opiniões, tendências e publicidade. Um estudo publicado na Sage Journal nota precisamente que o Instagram e o TikTok estão entre as plataformas de crescimento mais rápido para consumo de notícias, e que as redes sociais ultrapassaram o acesso direto a sites ou aplicações de notícias como principal forma de encontrar informação online.
Isso muda a forma como nos comportamos dentro da própria aplicação. Como é que se publica uma fotografia de um jantar, uma viagem ou uma selfie quando, no post anterior, alguém está a falar de uma guerra, de uma crise humanitária ou de uma injustiça social? Como é que se volta à leveza quando o feed nos lembra constantemente da gravidade do mundo?
Nos últimos anos, tornámo-nos mais conscientes - e isso é, em muitos aspetos, positivo. Mas essa consciência trouxe também uma espécie de bloqueio. Publicar durante momentos difíceis pode parecer inadequado. Ficar em silêncio também pode ser interpretado como uma escolha. E publicar algo que não esteja relacionado com o tema dominante do momento pode parecer superficial, desligado ou até insensível. Chayka dá o exemplo dos protestos do Black Lives Matter, em 2020, quando muitos utilizadores e marcas hesitaram em publicar conteúdos que não estivessem ligados ao ativismo. O mesmo sentimento voltou a surgir em contextos recentes, como a guerra em Gaza. Ali Moran, fundadora de uma agência de comunicação, descreve esta tensão como um "choque emocional" entre a crise global e a atualização pessoal: parece não haver um movimento certo. Publicar comunica algo. Não publicar também.
E é precisamente aí que muitas pessoas da minha geração parecem estar: num limbo estranho entre querer estar informadas, conscientes e moralmente atentas, como também querer usar as redes sociais para aquilo que elas, em teoria, sempre prometeram ser - um espaço de partilha, ligação e expressão pessoal. Ao mesmo tempo, existe uma pressão quase absurda para publicar "um bom dump". A expressão pode parecer superficial, mas diz muito sobre a forma como o Instagram funciona hoje. Até a espontaneidade tem de parecer bem editada. Até o caos tem de ser bonito. Até o "despreocupado" é, muitas vezes, cuidadosamente escolhido.
Há também uma outra camada: a própria tecnologia deixou de favorecer a partilha casual. Os feeds algorítmicos dão prioridade a contas populares, conteúdos que geram reação, vídeos pensados para prender a atenção, opiniões fortes, auto-promoção e publicações frequentes. Os momentos banais - aqueles que antes tornavam as redes sociais íntimas e humanas - perderam espaço. Antes, abríamos o Instagram e víamos pequenos fragmentos da vida das pessoas que conhecíamos: uma praia, um café, uma festa, um cão, uma fotografia desfocada mas querida. Agora, muitas vezes, somos recebidos por publicidade, recomendações, criadores profissionais, notícias, polémicas e conteúdos que parecem ter sido desenhados para nos manter dentro da aplicação, não necessariamente para nos aproximar uns dos outros.
E, se nem sequer temos a certeza de que os nossos amigos vão ver aquilo que publicamos, qual é o incentivo para continuar? Publicar passou a implicar uma consciência constante do algoritmo. Perguntamo-nos se a fotografia vai ter alcance, se o post vai parecer deslocado, se a legenda está demasiado séria ou demasiado vaga, se estamos a mostrar demais ou de menos. Aquilo que antes era um gesto simples tornou-se uma decisão carregada de pequenas ansiedades.
Talvez por isso tantos de nós tenhamos deixado de publicar. Não porque já não tenhamos nada para mostrar, mas porque mostrar se tornou complicado. Porque a intimidade parece deslocada num espaço cada vez mais público. Porque a espontaneidade parece ingénua num ambiente cada vez mais profissionalizado. Porque a leveza parece suspeita num mundo constantemente em crise. E talvez o silêncio seja, para muitos, a única forma de recuperar algum controlo.
Ainda assim, não sei se isto significa que deixámos de querer partilhar. Talvez apenas já não queiramos fazê-lo da mesma forma. Talvez a partilha se tenha deslocado para grupos privados, mensagens diretas, Close Friends, álbuns partilhados, conversas pequenas e espaços em que não precisamos de performar tanto. Talvez não tenhamos deixado de ser sociais; talvez apenas nos tenhamos cansado de o ser perante uma audiência invisível.