Patrícia Gonçalves, psicóloga: “A baixa autoestima não afeta só a forma como a pessoa se vê. Afeta as escolhas que faz e a vida que constrói"
No seu livro “O Poder da Autoestima” a autora apresenta histórias reais de pessoas com baixa autoestima, com as quais o leitor se pode identificar, e exercícios que ajudam a desenvolver uma autoestima mais saudável. Em entrevista à Máxima, a psicóloga fala da importância de cada mulher ser a sua própria melhor amiga.
Padrões de beleza vs autoestima – eis um verdadeiro confronto de titãs. Com imagens de mulheres com pele perfeita, cabelo perfeito, corpo perfeito, vida perfeita, que nos entram pelos olhos adentro à velocidade mais vertiginosa de sempre (até agora), é difícil não nos sentirmos inferiorizadas, esmagadas pelo peso de uma beleza inatingível e, em muitos casos, irreal. Entram em campo a comparação, a autocrítica e a falta de amor próprio, e a autoestima recebe golpe atrás de golpe até ficar estendida no chão.
No seu recém-publicado livro, O Poder da Autoestima, a autora e psicóloga clínica Patrícia Gonçalves recorda-nos que, não obstante os ataques de que é alvo na idade adulta, é na infância que a autoestima começa a construir-se. Um processo que pode ser minado por castigos, abusos ou negligências, bem como por falta de afecto, elogios ou amor. À medida que crescemos, esse edifício mal construído vai mostrando fragilidades cada vez maiores, com autocrítica negativa, perfeccionismo paralisador, comparação obsessiva, necessidade de validação externa, autossabotagem, etc. Tudo isto faz com que a pessoa viva uma vida menos satisfatória, com problemas no trabalho, na família, nas amizades e nas relações amorosas. E, acima de tudo, problemas consigo própria.
Estes últimos são, talvez, os mais dramáticos. Afinal, a relação que temos connosco próprias é a mais duradoura que alguma vez teremos. Razão pela qual nenhuma validação externa é tão importante quanto a validação interna, isto é, as palavras de encorajamento que dizemos a nós próprias. E ter uma relação saudável com o eu significa sabermos, sem sombra de dúvida, que nunca estamos sozinhas e que podemos sempre contar connosco para atravessar qualquer adversidade.
Em entrevista à Máxima, Patrícia Gonçalves explica como podemos desenvolver uma autoestima mais saudável, com confiança, alegria, propósito e respeito pelos nossos próprios limites.
Vivemos numa cultura muito centrada na imagem. A autoestima das mulheres está hoje mais fragilizada do que há algumas décadas ou apenas mais exposta?
Acredito que um pouco dos dois. Por um lado, a autoestima sempre foi uma questão sensível nas mulheres, muito influenciada por fatores culturais, sociais e até familiares. Mas, por outro lado, aquilo que mudou foi a intensidade e a frequência com que somos expostas a padrões e comparações através das redes sociais. Atualmente, estamos constantemente em contacto com diversas versões de vida das outras pessoas que muitas vezes são irreais. E isso cria um ambiente onde a comparação deixa de ser pontual e passa a ser constante.
Na sua opinião, até que ponto os padrões de beleza influenciam a forma como as mulheres constroem a sua autoestima?
Influenciam bastante, sobretudo quando a autoestima fica muito centrada na autoimagem. Ou seja, quando uma mulher cresce a ouvir, direta ou indiretamente, que o seu valor está ligado à forma como se apresenta, é natural que comece a usar esses critérios para se avaliar a si própria.
O problema não está em querer cuidar da sua imagem, mas sim em depender dela para se sentir suficiente. Quando os padrões de beleza se tornam o principal fator, a autoestima torna-se muito instável, porque está sempre dependente de algo externo, comparável e, muitas vezes, inatingível.
É possível ter uma boa autoestima num mundo que está constantemente a dizer às mulheres que têm de ser mais novas, mais bonitas, mais magras, mais bem vestidas?
É possível, mas exige consciência e algum trabalho interno. A realidade em que vivemos exerce sobre nós uma pressão constante de querer ser “mais” e apesar de não ser realista ignorá-la, é possível trabalhar com esta pressão.
Uma autoestima saudável não significa deixar de sentir inseguranças ou deixar de querer melhorar algo, mas sim, não fazer disso o único critério de valor pessoal. A forma como lidamos com esta pressão da sociedade e a interpretação que lhe atribuímos, é um trabalho muito frequente em terapia.
A baixa autoestima manifesta-se sempre da mesma maneira? Imagino que haja sintomas gritantes, mas também sinais mais discretos. Quais são?
Não, a baixa autoestima pode manifestar-se de diferentes maneiras e nem sempre é visível à primeira vista. Há sinais mais evidentes, como a insegurança constante, autocrítica excessiva ou dificuldade em reconhecer as suas qualidades. Mas há também sinais mais subtis, que muitas vezes passam despercebidos, como a dificuldade em dizer “não”, a necessidade constante da validação externa, o perfeccionismo, o medo de falhar com os outros.
Ninguém nasce com baixa autoestima. Assim sendo, como é que esta surge? É algo que começa a desenvolver-se na infância? Ou pode surgir só na idade adulta?
A autoestima começa, de facto, a desenvolver-se muito cedo, sobretudo na infância, através das relações que estabelecemos, com os nossos cuidadores, professores e pares. Mas isso não significa que fique “definida” nessa fase. Ela continua a ser moldada ao longo da vida, através de experiências, relações, contextos e até momentos mais desafiantes, como términos de relações, mudanças profissionais ou fases de maior vulnerabilidade. Por isso, pode ter origem na infância, mas também pode ser significativamente afetada, quer para melhor ou para pior, na idade adulta.
Que impacto tem a baixa autoestima na vida de uma mulher? Enfrenta maiores desafios no trabalho, nas relações de amizade, nos relacionamentos amorosos? Sujeita-se a situações a que outra mulher com uma autoestima saudável não se sujeitaria?
Tem um impacto muito transversal, não só na vida das mulheres como também dos homens. A baixa autoestima não afeta só a forma como a pessoa se vê. Afeta as escolhas que faz e, consequentemente, a vida que constrói.
Ao nível profissional, uma baixa autoestima pode traduzir-se em dificuldade em expor ideias, em pedir reconhecimento ou em arriscar novas oportunidades. Nas relações, pode levar a uma maior dificuldade em estabelecer limites, a um elevado medo de rejeição ou a uma tendência para se colocar em último lugar. O que muitas vezes leva a que as pessoas se mantenham em situações que não são saudáveis, por acreditarem que não merecem mais ou que não serão capazes de conseguir algo diferente.
Tudo isto acaba por tornar a pessoa com baixa autoestima mais vulnerável a desenvolver outros problemas de saúde mental e por isso ela precisa de ser olhada com seriedade.
Há práticas e rotinas que ajudam uma pessoa a desenvolver uma autoestima saudável? Quais recomenda?
Sim, existem práticas simples que devemos incluir no nosso dia-a-dia de forma consistente. Como por exemplo: transformar o discurso autocrítico num discurso mais autocompassivo; aprender a estabelecer limites para estar mais alinhada com os seus valores; investir em autoconhecimento e compreender de onde surgiram as suas crenças; cultivar relações onde se sinta valorizada e limitar relações que lhe drenam a energia; e cuidar de si, nas mais diversas formas de autocuidado.
Nos últimos anos tem-se falado muito sobre este tema. É porque estamos a viver uma crise de autoestima? Ou simplesmente a falar mais sobre o assunto?
Diria que estamos a ganhar mais consciência sobre o assunto e sobre o impacto que ele pode ter na vida das pessoas. E isso é positivo. Hoje há mais abertura para falar sobre saúde mental, muito também porque existe uma maior exposição a fatores que a desafiam, como é o caso das redes sociais. Ao mesmo tempo, começamos a perceber que a autoestima não é apenas uma questão individual ou superficial, mas algo que influencia diretamente a forma como pensamos, sentimos e nos relacionamos.
O seu livro tem diversos exemplos práticos e exercícios para ajudar as pessoas a terem mais confiança nelas mesmas e a aumentar a autoestima. Se pudesse dar às leitoras apenas um conselho, aquele que mais as ajudasse, qual seria e porquê?
Diria para olharem para si próprias como olhariam para a relação mais importante da sua vida e perguntarem-se, com honestidade: estariam orgulhosas dessa relação?
Porque, muitas vezes, somos compreensivas, pacientes e até cuidadoras com os outros, mas extremamente exigentes, críticas e duras connosco. A forma como nos tratamos no dia-a-dia constrói a base da nossa autoestima. Se essa relação for marcada por crítica constante, comparação ou desvalorização, é muito difícil sentir segurança ou confiança.
Por isso, mais do que tentar “aumentar a autoestima” de forma abstrata, faz mais sentido começar por refletir de que forma se relacionam consigo próprias. Porque esta é, inevitavelmente, a relação que vai estar presente em todas as outras.
Devolvo-lhe o título do seu livro em forma de pergunta: qual é o poder da autoestima?
Para mim, o poder da autoestima está em sentir que, de todas as pessoas do mundo, há uma com quem posso mesmo contar: eu própria. E isso traz uma sensação de segurança e confiança muito grande, porque deixa de depender tanto do que está fora, da validação, da aprovação ou das circunstâncias e passa a estar mais assente numa base interna. Não significa que não haja dúvidas ou inseguranças, mas significa que, mesmo nesses momentos, existe uma relação de suporte comigo mesma. E, no fundo, é isso que eu acredito que a autoestima permite: não uma vida perfeita, mas uma forma mais estável e confiante de viver tudo aquilo que vai surgindo.
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