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Padrões de Beleza

Vitória, vitória, repete-se a História. Como o poder patriarcal lucra com as inseguranças das mulheres

Enquanto ocupam a sua mente com obsessão estética pelo padrão de beleza vigente, as mulheres não lutam pelos seus direitos.

Homem maquilha mulher: poder patriarcal e inseguranças femininas em foco
Homem maquilha mulher: poder patriarcal e inseguranças femininas em foco Foto: Getty Images
28 de abril de 2026 às 10:58 Clara Não

Em relação ao mau e ao péssimo, a História tem uma especial tendência em repetir-se. Tendo presente a realidade bélica a que assistimos no mundo na atualidade, recordemos a Segunda Guerra Mundial - que, por incrível que pareça, tem uma forte ligação com os padrões de beleza que impõe todos os dias, a toda a hora, às mulheres.

Quando os homens das famílias foram enviados para a guerra na Segunda Guerra Mundial, era preciso mão-de-obra fabril. Assim sendo, as mulheres brancas foram chamadas para o desafio, não como resultado da sua luta por esse direito, mas sim por uma necessidade da sociedade patriarcal (lembremo-nos do famoso cartaz “We Can Do It!”, criado por J. Howard Miller, para a Westinghouse Electric). Neste ponto da História, as mulheres negras trabalhavam há muito, pouco ou nada recebendo como salário. 

Homem maquilha mulher: poder patriarcal e inseguranças femininas em foco
“We Can Do It!”, criado por J. Howard Miller Foto: Getty Images

Por consequência, as mulheres perceberam que eram capazes de executar empregos atribuídos como natos ao sexo masculino - felizmente, assim o espero, hoje em dia, uma considerável parte das pessoas consegue perceber que os empregos não se categorizam pelo género, mas sim pelas aptidões necessárias para executar as tarefas do dito emprego.

Quando a guerra acabou, os homens sobreviventes voltaram a ocupar os seus postos de trabalho. O que fazer às mulheres operárias fabris? Idealmente, segundo o sistema patriarcal, as mulheres deveriam voltar para o seu estereotipado padrão de género, centrando o seu quotidiano à volta da lida da casa e ao cuidado familiar. As publicidades da época pretendiam potenciar enclausurar as mulheres no lar, querendo deixar a descoberta feminina de capacidades laborais no passado. No entanto, depois de experienciar o mercado de trabalho fora dos limites físicos, sociais e culturais do lar, as mulheres queriam mais. E, assim, o mercado patriarcal adaptou-se, criando um boom na produção e redistribuição de eletrodomésticos: ‘as mulheres querem trabalhar com máquinas? Nós levamos-lhes as máquinas para dentro das suas casas focando o seu intuito para o cuidado familiar.’ Que bem jogado, não é? O esforço, que teve tanto de engenhoso como de problemático, não chegava para extinguir a sede de independência de muitas mulheres.

Desta forma, o engenho patriarcal que tinha como intuito controlá-las, a sua presença social, o seu envolvimento na sociedade e retirar o seu lugar de atividade na esfera política, não conseguiu limitar a vontade de muitas mulheres, como é referido no clássico feminista The Beauty Mystique de Betty Friedan. Então, como poderia o poder patriarcal controlar as mulheres? .

As publicidades que estranhamente correlacionavam liberdade com o controlo da aparência estética começaram a aparecer em massa. A título de exemplo, observemos o seguinte cartaz, de uma publicidade a cintas, de 1954:

Homem maquilha mulher: poder patriarcal e inseguranças femininas em foco
Anúncio de Skippies da Formfit: liberdade e conforto para a mulher moderna. Foto: DR

Reparemos bem no copy desta publicidade: “For the woman who says: ‘Freedom is a must!’ the new girdle for a new day.” Ora aqui está uma retórica bem contorcida: ‘queres liberdade? Usa uma cinta’. Desta forma, não só os homens fizeram com que uma das grandes preocupações a inundar as mentes das mulheres fosse a aparência, como garantiram que lucrariam com as suas inseguranças. Aliás, esta correlação entre controlo físico e o mercado de oferta de produtos ligados a beleza é algo extremamente atual: os grandes detentores de marcas focadas em beleza, direcionadas maioritariamente para o público feminino são homens.

Enquanto ocupam a sua mente com obsessão estética pelo padrão de beleza vigente, não lutam pelos seus direitos. De uma forma ou de outra, quem lucra é o homem e o sistema patriarcal. É partindo deste ponto que surge o grande livro The Beauty Myth de Naomi Wolf.

Sendo que a beleza é uma grande fonte de rendimento - especialmente para homens, mas não somente - há dois movimentos económico-sociais capitalistas que sucedem.

O mais óbvio é que convém ao mercado que os padrões de beleza estejam em constante mudança, porque cria constantemente uma aparente necessidade de um novo produto ou tratamento estético. O que o ser humano mais procura é a sensação de pertença: ‘se antes não gostavas de sobrancelhas grossas, agora vais passar a gostar e vais ter de comprar séruns e fazer transplantes capilares para corresponder a este padrão de beleza.’

Num segundo plano, como refere Jameela Jamil, quem consegue corresponder rapidamente aos padrões de beleza é a elite económica, especialmente a branca. BBLs on demand, tratamentos estéticos, acesso a tratamentos rápidos e dispendiosos como . No entanto, como o mercado nos ensina, quanto mais procura houver, mais oferta existirá, ou seja, o preço tornar-se-á mais acessível e, portanto, menos exclusivo. Ora, nenhuma elite quer deixar de ter acesso a tratamentos exclusivos. E é aqui que os padrões de género tendem a mudar. A elite move o mercado - não é por acaso que são raras as marcas que incluem tons de base e concealer para peles negras -, e o mercado acompanha a elite: alimentam-se mutuamente à custa das inseguranças da população.

Considerando a atual recessão a nível económico e nos direitos humanos, ainda se admiram que estejamos a assistir a uma mudança tão drástica de padrão de beleza que, para lhe corresponder, é preciso ter acesso a recursos exclusivos às elites?

Vitória, Vitória, repete-se a História.

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