Paula Cosme Pinto, consultora de comunicação
“Celebram-se este ano 50 anos desde as primeiras eleições presidenciais por sufrágio direto e universal: até ao momento, apenas cinco mulheres conseguiram candidatar-se ao cargo - e nem todas tiverem sequer apoios partidários. Isto diz muito sobre o caminho que temos a fazer quando à credibilidade e representatividade feminina na política que, embora tenha vindo a crescer, principalmente desde a Lei da Paridade, está muito longe de ser efetivamente paritária quando pensamos no tipo de cargos e respetivo poder que exercem dentro do universo político. Uma mulher que chegue à Presidência é um sinal claro de mudança deste paradigma, quebra estereótipos e abre-nos caminho a todas nós - não só na política, mas nas demais esferas de liderança.
Por outro lado, pergunto-me muitas vezes: será que se tivéssemos mais mulheres de esquerda, com uma visão humanista e progressista, na liderança do país, os problemas históricos inerentes à vida no feminino manter-se-iam estruturalmente tão constantes quanto continuam a estar? Será que o direito à autonomia das mulheres quanto aos seus próprios corpos entraria de outra forma na agenda política? Assim como o combate sério e concertado à violência doméstica, que é o crime que mais continua a matar mulheres no nosso país? Será que temas como, por exemplo, a violência obstétrica, a violência sexual, a disparidade salarial ou, até mesmo, a inexistência de uma rede alargada de cuidados e cuidadores, não poderiam ser questões prioritárias, já que afetam desproporcionalmente a vida de uma elevadíssima percentagem de metade da população do país, a feminina?
Uma Presidente não legisla, mas lança debates, centra a discussão governamental no que realmente são os interesses do país e da população. Uma mulher da Presidência, com as competências, valores, conhecimento do país e experiência que Catarina Martins tem, fará a diferença no que toca a trazer as fragilidades e obstáculos específicos das vidas das mulheres para o centro da discussão política. Não voto nesta candidata apenas por ser mulher. Mas voto também por ser mulher, com provas dadas para este cargo e uma noção bastante clara do caminho longo que ainda há para percorrer em Portugal no que à paridade diz respeito. Num mundo onde ganham liderança e notoriedade cada vez mais homens que, assumidamente, não só desprezam mulheres, como incitam à violência machista, votar numa mulher de esquerda, que promete não largar a mão de ninguém, nem de homens, nem de mulheres, é um farol de esperança para quem acredita num mundo humanista e democrático. Com um Governo à direita, parece-me também essencial uma Presidência à esquerda, ajudando à pluralidade de visões sobre a vida e o futuro do país."
Este testemunho faz parte do artigo "Eleições. Quão feministas são, afinal, os candidatos à Presidência da República?", com entrevistas a apoiantes de diferentes candidatos.