Paco Rabanne já tinha escolhido Olivier Rousteing - há 60 anos
Muito antes de a diversidade ocupar o centro do debate na moda, Paco Rabanne já desafiava os preconceitos da indústria. A nomeação de Olivier Rousteing para a direção criativa da marca mostra que esse legado continua vivo.
Paco Rabanne e modelo, em 1975
Foto: Getty Images15 de julho de 2026 às 17:00 Patrícia Domingues
"A moda é para nós, pessoas brancas." Foi esta a frase que Paco Rabanne ouviu nos bastidores de um desfile em Paris, em meados da década de 60, depois de ter colocado uma modelo negra na passerelle vestida de branco - uma noiva símbolo de um futuro que parecia impossível para muitos dos presentes. Como refere Barbara Summer no livro Skin Deep: Inside the World of Black Fashion Models in America and Abroad, o próprio designer conta como jornalistas da Vogue e da Harper's Bazaar norte-americanas confrontaram-no indignadas: "Porque fizeste isso?". Num momento que o marcou profundamente, conta que chegaram mesmo a cuspir-lhe na cara.
É uma história quase ausente das retrospetivas sobre Paco Rabanne. Recorda-se o metal, os vestidos feitos de discos, a estética espacial, Barbarella, Jane Fonda. Fala-se do visionário que transformou alumínio, plástico e malha metálica em alta-costura. Mas raramente se conta que a sua ideia de futuro não passava apenas pelos materiais: passava também pelos corpos que escolhia colocar em palco.
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Na Paris dos anos 60, onde a alta-costura ainda era um espaço homogéneo, Rabanne decidiu incluir modelos negras nos seus desfiles. Não como gesto simbólico, nem como exceção "exótica", mas como parte natural da sua visão. Era um gesto radical precisamente porque recusava a ser apresentado como tal.
Sandi Collins no desfile de Paco Rabanne, em Outubro de 1969 em Paris
Foto: Getty Images
A modelo norte-americana Sandi Collins, uma das primeiras mulheres negras a desfilar para Rabanne, recordaria décadas depois que, sempre que entrava na passerelle, havia fotógrafos da imprensa americana que viravam as câmaras para o lado. Não a fotografavam. Collins descreve Rabanne como um homem "intensamente calmo" e lembra-se dele como alguém cuja criatividade vinha acompanhada de uma enorme humanidade.
É precisamente por isso que a chegada deOlivier Rousteing à direção criativa da Rabanne parece tão carregada de significado. À primeira vista, a escolha pode ser lida através da linguagem habitual da indústria: um designer mediático, capaz de gerar desejo global, depois de transformar a Balmain numa potência cultural. Mas limitar a leitura a uma decisão de negócio é ignorar uma continuidade histórica. Rousteing não herda apenas uma estética, mas uma ideia de moda como instrumento de mudança.
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Olivier Rousteing
Foto: Getty Images
Quando assumiu a Balmain, em 2011, tinha apenas 25 anos, tornando-se um dos mais jovensdiretores criativos de uma grande maison francesa e o primeiro diretor criativo negro de uma grande casa de moda francesa. Muitos questionaram a sua idade; outros, de forma menos explícita, questionaram se um homem negro podia representar o luxo parisiense tradicional. Rousteing respondeu da mesma forma que Rabanne sempre respondera às críticas: através do trabalho.
Duas modelos no desfile de Paco Rabanne em Paris, Novembro de 1968
Foto: Getty Images
Durante catorze anos, transformou a marca. Antes de muitas outras perceberem o impacto das redes sociais, Rousteing fez do Instagram uma extensão da passerelle. Criou o Balmain Army, reunindo modelos, músicos, atletas e artistas de diferentes origens, e tornou a diversidade uma característica estrutural da identidade da marca. A colaboração com a H&M redefiniu também a forma como o luxo podia dialogar com uma audiência global sem perder relevância. E fez mais: recusou separar o criador da pessoa. Usou o seu spotlight para abrir caminho (e um que devolveu o estatuto de estrela a muitos dos criadores modernos).
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Falou publicamente sobre a sua adoção, sobre a procura das suas origens biológicas, sobre racismo, identidade e pertença, temas que durante décadas permaneceram praticamente ausentes do discurso dos grandes diretores criativos (e da moda, no geral). Depois do grave acidente doméstico que lhe provocou queimaduras extensas em 2020, mostrou ao mundo as cicatrizes que durante meses escondera, transformando a vulnerabilidade num ato de força numa indústria obcecada pela perfeição.
Bailarina durante uma apresentação da marca, em 1968
Foto: Getty Images
É difícil não reconhecer um paralelo. Paco Rabanne desafiou a ideia de quem podia vestir alta-costura. Rousteing desafiou a ideia de quem podia liderá-la. Ambos recusaram aceitar as fronteiras que a moda lhes apresentava como naturais.
Quando a Rabanne anunciou, ontem, a nomeação de Rousteing, o próprio designer resumiu a razão da sua escolha dizendo que a etiqueta francesa sempre foi um lugar que "desafia convenções" e transforma "ideias ousadas" em peças que mudam a história da moda. A declaração podia referir-se tanto ao futuro como ao passado.
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Durante décadas, Paco Rabanne foi lembrado como o homem que levou o metal para a passerelle. Também foi muitas vezes descrito como um vidente - ainda que as suas previsões mais polémicas tenham acertado mais no futuro da moda do que no do mundo - e como um metalúrgico. Mas talvez o seu gesto mais visionário não tenha sido desenhar os figurinos de Barbarella. Para mim, talvez tenha sido este: numa época em que muitos ainda acreditavam que "a moda era para pessoas brancas", colocou uma mulher negra no centro do desfile. A ferros.
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