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Máxima

Padrões de Beleza

Por que é que a moda não passa de moda?

Bastou Matthieu Blazy apresentar saias plissadas de cintura baixa no último desfile Chanel - uma réplica das originais lançadas por Mademoiselle 100 anos antes -, para (re)validar a tese de que a moda tem uma capacidade de se reinventar incomparável. 2026 pode ou não ser um revival de 1926. Ainda assim, vale a pena vestir de novo.

Hailey Bieber, Zoe Kravitz, Charli XCX e Rosé no desfile da Saint Laurent, com looks que podiam ter saido dos anos 80
Hailey Bieber, Zoe Kravitz, Charli XCX e Rosé no desfile da Saint Laurent, com looks que podiam ter saido dos anos 80 Foto: Getty Images
31 de março de 2026 às 18:04 Ana Murcho

A última vez que os anos 80 estiveram “na berra” foi no período pós-pandemia quando, depois de meses enclausurados, vários designers começaram, lentamente, a substituir as propostas minimalistas de activewear - até então essenciais numa passerelle universal que juntava os quatro eixos de todas as casas do planeta (quarto, casa de banho, cozinha, sala) - por sumptuosos vestidos de veludo, blazers de ombros imensamente estruturados, maravilhosos casacos de lantejoulas e estonteantes leggings de licra. No passado ficava o medo e a insegurança, o tédio e a incerteza, a tragédia e a dor, eternamente simbolizados no combo calças de fato de treino e hoodie de algodão. Os “novos tempos” pediam alegria, pediam excesso, pediam glamour. “Os novos tempos”, ainda que instáveis, eram uma espécie de começar de novo, de fazer tudo (bem) outra vez. Neste virar de página urgente e necessário, a moda assumiu o papel que sempre teve, o de precursora máxima do zeitgeist, e permitiu ajudar a sarar as feridas coletivas de uma sociedade já pouco habituada a reerguer-se das cinzas sem o outfit adequado. “Não se pode esperar que as roupas resolvam os problemas do mundo, mas pode-se esperar que elas não os agravem”, escrevia recentemente a edição francesa da Harper’s Bazaar, e foi precisamente isso que aconteceu. Os espalhafatosos anos 80, muitas vezes criticados pela sua criatividade em esteróides, foram uma das boias de salvação de todos e cada um de nós, mesmo sem dar por isso, fomos adotando os metalizados e as cores vibrantes como “tons neutros” do nosso guarda-roupa. E como a necessidade de hedonismo parecia não ter limites, também os anos 20 regressaram, e os anos 70, e até os anos 50. Não se tratava apenas de uma repetição, mas de uma reinvenção. Já se sabe que, na Moda, nada se perde e tudo se transforma.

“Está preparada para o regresso da carteira Phantom, da Celine?” Era assim que, em julho passado, uma revista feminina anunciava a chegada apoteótica do modelo lançado por Phoebe Philo em 2011. Um coro invisível de vozes gritou, éter adentro, “Claro que estamos!”, e fez disparar a procura por Phantoms em tudo o que era site de luxury resale, porque ninguém queria (podia?) esperar os meses da praxe até que as lojas, físicas e virtuais, recebessem a “reinterpretação moderna do adorado estilo” criado por Philo. Com uma silhueta oversize e um novo nome, New Luggage, foi a primeira peça-desejo com a assinatura de Michael Rider, o diretor criativo da marca francesa que se estreou precisamente com o desfile primavera/verão 2026, onde a Phantom, perdão, a New Luggage, emergiu como um dos acessórios mais cobiçados pelos convidados, ansiosos por investir milhares de euros em algo que fizesse disparar, ainda que por breves instantes, os seus níveis de dopamina. Meses depois, em janeiro, outro golpe de mestre com aroma a nostalgia capitalista: a Saint Laurent apresentava parte da sua campanha para a nova estação, onde saltava à vista uma foto pixelizada de Bella Hadid com uns calções de seda e renda, collants transparentes e sandálias de salto alto com tiras. Mas a estrela da imagem era, com permissão de Miss Hadid, a carteira que usava a tiracolo: a Mombasa, uma das mais famosas it bags do início do milénio, introduzida por Tom Ford na primavera/verão 2002, doze meses após o americano assumir os comandos da casa francesa. Durante anos, a Mombasa passeou-se por tudo o que era sala de reuniões, lounge de aeroporto e pista de dança; o seu estilo despojado, a sua silhueta folgada em pele, de acordo com o mood “laissez faire laissez passer" da altura, e a sua mui polémica alça de chifre - finalmente substituída por outra, de couro, mais de acordo com as noções de sustentabilidade que entretanto aprendemos - transformaram um modelo aparentemente pouco prático num must-have.

Hailey Bieber, Zoe Kravitz, Charli XCX e Rosé no desfile da Saint Laurent, com looks que podiam ter saido dos anos 80
Yves Saint Laurent Rive Gauche primavera/verão 2002 Foto: Getty Images
Hailey Bieber, Zoe Kravitz, Charli XCX e Rosé no desfile da Saint Laurent, com looks que podiam ter saido dos anos 80
Carteira Phantom, da Celine Foto: Getty Images

E assim, devagarinho, as marcas tradicionais começaram a vasculhar os seus arquivos. Ao combinar nostalgia e inovação, não estão apenas a replicar êxitos passados, mas a “reformulá-los para os consumidores modernos”. A, 22 anos depois de Regina George usar uma pochette Cherry Blossom cor-de-rosa (que as invejosas dizem ser falsa) em Giras e Terríveis (2004). Em 2024, a Balenciaga trouxe oficialmente de volta a icónica City, e Chemena Kamali aproveitou o seu début na Chloé para dar nova vida à Paddington, velha conhecida das fashionistas. A moda sempre teve uma relação com o passado, dir-se-á. É uma indústria feita de ciclos, que invariavelmente se repetem a cada X anos. Ainda assim, ultimamente essa “conexão” parece mais profunda, mais emocional - mais deliberada? Apostar em memórias passadas é apelar ao lado mais primordial do ser humano, e transformar uma opção estética numa opção sentimental. Ninguém entra na Fendi para comprar uma Baguette só porque sim; o modelo continua vivo porque as clientes pretendem alcançar a sensação inexplicável de ser Carrie Bradshaw em O Sexo e a Cidade. A carteira tornou-se maior que a lenda, e é essa percepção de pertença que o público procura; em 2026, quem decide investir numa Saddle (ex-libris da Dior por , relançada por Maria Grazia Chiuri em 2018) não o faz apenas por uma questão de estilo - ela é, também, uma das melhores apostas em termos de investimento no que diz respeito a objetos de luxo, dado o seu constante aumento de valor e procura, além de ser uma forma de ligação ao passado, uma forma de o resgatar e manter vivo - tanto ele como o conforto, a liberdade, a fantasia proporcionados pela sua ressonância emocional. Na iminência de um conflito mundial, com uma crise de valores galopante e uma economia mundial de rastos, olhar para trás parece mais seguro do que imaginar para a frente.

Hailey Bieber, Zoe Kravitz, Charli XCX e Rosé no desfile da Saint Laurent, com looks que podiam ter saido dos anos 80
Chloe Womenswear Fall/Winter 2025-2026 Foto: Getty Images
Hailey Bieber, Zoe Kravitz, Charli XCX e Rosé no desfile da Saint Laurent, com looks que podiam ter saido dos anos 80
Sarah Jessica Parker Foto: Getty Images

É a chamada “economia da nostalgia”, que chega a todo o lado, das montras à red carpet, onde Cate Blanchett e Viola Davis apostam em looks “reciclados”, algo impensável há pouco mais de uma década - se agora aplaudimos a sua perspicácia em reutilizar outfits de outros eventos, tempos houve em que as acusaríamos de falta de imaginação. O mesmo se passa com o vintage, que atualmente se associa a uma espécie de código secreto entre os (verdadeiros) amantes de moda, que parecem sussurrar entre si: “Este vestido não é Gucci. É um dos raríssimos vestidos Gucci desenhados por Tom Ford.” IYKYK. E esse cachet de (re)conhecimento, hoje, vale milhões - muito mais do que qualquer coisa que possa sair de uma. Em tempos de massificação, ter uma peça única, de coleções passadas, é um pequeno símbolo de luxo. Na passadeira vermelha, tal como nas ruas, o vintage assinala um desejo de exclusividade e de autenticidade, a procura por uma identidade que não se revê nas cópias. Se pensarmos bem, um casaco com quarenta anos tem uma história muito mais interessante do que um casaco que teve 40 mil likes numa rede social. E assim seguem as modas, entre um constante ir e vir, na esperança de conseguirem manter viva a surpresa e o espanto. Mas será que isso (ainda) é possível? Nesta última década, por exemplo, já “arranhámos” mais tendências do que em todas as anteriores. Pelo andar da carruagem, a representação visual dos anos 2020 será um dump de tudo o que ficou para trás. Algum dia tinha de acontecer.

Hailey Bieber, Zoe Kravitz, Charli XCX e Rosé no desfile da Saint Laurent, com looks que podiam ter saido dos anos 80
(E-D) Cate Blanchett nos Fragrance Foundation Awards (junho de 2023) e na 29.ª edição dos Screen Actors Guild Awards (fevereiro de 2023) Foto: Getty Images

Perguntamos a Filipe Carriço, stylist e art director, como analisa o estado atual da indústria. “Eu penso que em moda já tudo foi feito, com a exceção da pesquisa de novos produtos que derivarão em putativos tecidos usáveis pela sociedade, por todos nós. Claro que isso tem custos elevados, por ser um trabalho de laboratório que requer pesquisa, ensaios das matérias primas usadas até chegar aos tecidos - o que implicará um cuidado específico com a sustentabilidade, que por seu lado encarece o preço do vestuário a um nível tão elevado que o torna elitista… Mas a Alta-Costura também o é, certo?” Nesta “amálgama de ideias repetitivas do que já foi” há novos twists aqui e ali, “como os vestidos com as bolas laterais da primeira coleção de Jonathan Anderson para a Dior, que foram um ótimo exemplo de reintrepretação do vestuário de outros tempos.” Ou então “aquele momento da Coperni, com o vestido feito com spray [primavera/verão 2023].” Tirando isso, trata-se sobretudo de novas formas de fazer - e, principalmente, de pensar. Caroline Stevenson, diretora do programa de estudos culturais e históricos do London College of Fashion, disse à Elle inglesa algo semelhante. “Há um caos em termos de onde estão as tendências e onde está a moda neste momento. Mesmo nas casas de luxo, com a rotação de diretores criativos e designers, tudo parece muito descentrado. As tendências são impulsionadas pelas redes sociais; é aí que vemos as estéticas ganharem vida.[…] De momento existem muitas estéticas e ‘-cores’, mas eles não se alinham com nenhum conjunto de valores reais ou movimentos culturais.” Numa era onde a aprovação de um todo substitui a validação pessoal, a inovação acaba por dar lugar à reinvenção. É isso que relembra Carriço, habitual colaborador da Máxima: “Existem os criadores-raiz, como lhes chamo, dos anos 20 ao início dos anos 60, como Coco Chanel, Schiaparelli, Jean Patou, Vionnet, Jeanne Lanvin, Cristóbal Balenciaga, e os discípulos, como Christian Lacroix, Karl Lagerfeld, Valentino, Giorgio Armani. Depois surgiu uma mulher politicamente ativa (e disruptiva) neste mundo do luxo pautado pelo capitalismo, que partiu este fio condutor e o tornou vulnerável: Miuccia Prada. O seu ugly chic, traduzido numa dicotomia entre o belo e o feio, o minimal e o exagerado, o conceptual e o corriqueiro, o usável e o museológico” é o ato mais revolucionário, em termos de moda, do último quarto do século XX, “à semelhança das contribuições dos seis da Escola da Antuérpia e de criadores orientais como Yamamoto, Issey Miyake ou Comme des Garçons.” O resto, por muito que nos doa, é “vira o disco e toca o mesmo”, brinca Filipe, com nuances óbvias nas “interpretações próprias e eventuais apostas no upcycling.” Uma vez mais, tudo se transforma. “A moda hoje em dia é essencialmente política, como [quase tudo o resto] nos tempos que correm”, remata.

Hailey Bieber, Zoe Kravitz, Charli XCX e Rosé no desfile da Saint Laurent, com looks que podiam ter saido dos anos 80
Bella Hadid no desfile da Coperni Primavera-Verão 2023 Foto: Getty Images

A última vez que os anos 80 estiveram “na berra” foi… ontem? “Prepare-se para a ação. Depois de anos no fundo do armário, as cargo pants estão de volta.” Não sei quantas vezes, ao longo de mais de uma década, escrevi notas do género. “Agora é para andar na linha. As riscas voltam a apontar o rumo a seguir.” Num passado não muito distante, boa parte do meu tempo era dedicado a estes truques estilísticos, numa tentativa de explicar, de forma simples e catchy, as tendências da estação - essas modas que ciclicamente se repetem, como o Carnaval ou a Páscoa. “Está em todo o lado: o bordeaux é o novo preto.” Depois acrescentava qualquer informação sonante e/ou relevante, “Celine, Max Mara, Emporio Armani e Bottega Veneta foram algumas das marcas onde o workwear deu o ar da sua graça”, e assim provava como, efetivamente - e pela enésima vez desde que nos apropriámos, e bem, deste género mais associado ao sexo masculino - o dress code para o escritório tinha todo um novo significado. É precisamente esse “significado”, esse je ne sais quoi, que iria levar a leitora, e quiçá eu própria, a apostar num vestido estampado floral, que jurei nunca mais comprar porque detesto ver-me com estampados: a promessa de que, nessa qualquer temporada, os padrões impressionistas de certos designers possam ir ao encontro da nossa melancolia e talvez fazer-nos acreditar num romantismo que julgávamos perdido. Não vai acontecer. Pode acontecer, mas duvido muito. É irrelevante. A roupa, e por acréscimo a moda, não deve ter como primeira missão mudar o mundo. Ela pode ter como objetivo fazer-nos sentir melhor (no mundo), e melhorá-lo. E isso, esse propósito, ela cumpre bastante bem. Só precisa de, por vezes, não se levar tanto a sério, e assumir que as suas constantes reinvenções não são um símbolo de cansaço, mas de crescimento.

Hailey Bieber, Zoe Kravitz, Charli XCX e Rosé no desfile da Saint Laurent, com looks que podiam ter saido dos anos 80
Prada, Milan Fashion Week Fall 2026 Foto: Getty Images

Todas as tendências referidas no parágrafo anterior fazem parte da lista obrigatória num hipotético shopping para. Todas já foram testadas, vezes sem conta, anteriormente. Então porque é que insistimos, e validamos, este infindável déjà-vu? Vamos até Paris, mais concretamente a 1947, quando a cidade ainda vivia com os despojos daquele final de guerra semi-apocalíptico. A 12 de fevereiro, Christian Dior apresentou a sua primeira coleção perante uma ilustre plateia de compradores e jornalistas especializados. Como é do conhecimento geral, as reações a essa estreia ainda hoje se fazem sentir, nomeadamente a de Carmel Snow, diretora da Harper’s Bazaar americana: “É uma verdadeira revolução, querido Christian! Os seus vestidos têm um visual tão novo!” Esse “visual tão novo” (que ficaria conhecido como New Look) era uma silhueta feminina e opulenta que ia contra a indumentária rígida e sem formas dos anos de conflito; controverso, o New Look era excessivo, quase dramático, e obrigava a um elevado consumo de tecido, algo considerado um escândalo depois de uma era de austeridade e escassez. Contudo, foi precisamente o seu caráter vanguardista que Carmel Snow reconheceu e validou, transformando-o num dos momentos estilísticos mais marcantes do século XX. O glamour que parecia impossível de resgatar voltou a sentar-se nas Tuileries e Paris renasceu como capital da Alta-Costura. Esse instante não se repete. Foi um rasgo de génio, uma extraordinária lufada de ar fresco - foi, se quisermos, uma espécie de invenção da roda. Esse instante não se repete. O que se repete, quando se diz “O New Look está de volta” é a tentativa de trazer de volta o encantamento que Carmel Snow sentiu quando viu um Bar Jacket pela primeira vez. É isso que Matthieu Blazy tenta fazer agora, quando resgata as saias plissadas de cintura baixa que Coco Chanel introduziu há um século. “Precisamos de vestidos que rastejem e de vestidos que voem, porque a borboleta não vai ao mercado e a lagarta não vai ao baile”, terá dito Mademoiselle ao jornal francês Le Figaro. É isso que nos vai salvar, um guarda-roupa transversal a todos os géneros, a todos os estados de sítio e de espírito. E é precisamente isso que a moda tem de mais magnético e inexplicável: quase nada é suficientemente repetitivo ao ponto de não o querermos experimentar uma vez mais. Isso mesmo se lia na última edição da Harper’s Bazaar França: “Bagagem de mão, estojo para óculos, saco de pão, joias de família, pedido de resgate: deixe sempre que os outros se questionem o que poderá estar a transportar dentro dessas pochettes Prada de acabamento acetinado".

Hailey Bieber, Zoe Kravitz, Charli XCX e Rosé no desfile da Saint Laurent, com looks que podiam ter saido dos anos 80
Dior 1954 Foto: Getty Images
Hailey Bieber, Zoe Kravitz, Charli XCX e Rosé no desfile da Saint Laurent, com looks que podiam ter saido dos anos 80
Chanel Womenswear Fall/Winter 2026-2027 Foto: Getty Images
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