O centro de Málaga tem uma característica curiosa: o chão. Não sei como é no resto das cidades do sul de Espanha, não conheço bem a Andaluzia, mas ali é assim em quase todas as praças e ruas do centro histórico: laje de pedra lisa faz de pavimento. No inverno, com a chuva, pode produzir um efeito perigoso, por ser escorregadio. Isto, deduzo eu, a partir do que observei e acabei por experimentar, porque estive lá na primavera. Mas essa história fica mais para o fim.
A minha amiga Luísa foi a primeira de todas a casar. A Luísa casou muito nova. E foi ela que inaugurou a tradição das despedidas de solteira em Espanha. Semanas antes do casamento, voámos todas para Barcelona para desfrutar daquela que seria a última oportunidade de estarmos todas juntas, num ambiente de festa e de liberdade, o nosso último episódio de adolescência sem regras, muito álcool e, quem sabe, alguns rapazes.
Isto era, pelo menos, o que tínhamos em mente, porque na prática não foi bem isso que aconteceu. Era janeiro, choveu todos os dias, a cidade parecia uma feira popular com metade das atrações fechadas. Os rapazes com quem nos cruzámos nas saídas à noite eram ou turistas muito bêbados ou espanhóis muito arruaceiros e broncos. Quanto ao casamento da Luísa, durou dois anos. Depois dessa, casou-se mais duas vezes. O terceiro casamento está a resistir ao tempo e às mudanças de humor da minha amiga.
Enfim, só acrescento estes detalhes para que se perceba que uma despedida de solteira, por muito simbólica que seja, por muito que se pretenda que assinale qualquer coisa, na verdade não tem assim tanta importância. É um ritual de transição com um significado manifestamente exagerado. Contudo, não deixa de ser um bom pretexto para reunir amigas e celebrar - quanto mais não seja, celebrar a vida e a amizade.
Depois da Luísa - na verdade, alguns anos mais tarde -, foi a vez da Camila. Queria voltar a Barcelona para que fizéssemos a festa prometida e que ficara por fazer anos antes, quando a Luísa escolheu o destino, mas todas nos opusemos. Queríamos outro sítio. Mandou a lógica que, depois de Barcelona, voássemos para Madrid. Eu nem conhecia Madrid decentemente. Tinha apanhado lá um voo alguns anos antes, e era tudo.
Essa despedida de solteira foi diferente. Éramos um pouco mais maduras, já tínhamos uma experiência prévia, que nem sequer decorrera como esperávamos, e decidimos aproveitar um bocadinho mais o que a cidade tinha para oferecer. E a capital do reino tem, realmente, muito que visitar e o que aproveitar. Às tantas, eu já não sabia se estava numa despedida de solteira ou numa visita de estudo, tal foi a quantidade de museus e galerias que visitámos. O excesso de atividade cultural foi, no entanto, generosamente compensado pelas inúmeras paragens para comer e beber ao longo dos dias.
Houve ainda os episódios noturnos, que recordaremos para sempre como pontos altos da nossa amizade longa e louca, mas que não podemos contar, pois fizemos um pacto de silêncio. O que acontece na Chueca, fica na Chueca. A aventura de Madrid é a prova de que as expectativas funcionam muito melhor se forem baixas à partida. Memorável será um adjetivo bom para começar a descrever o que aconteceu por lá.
As minhas amigas foram casando, com maior ou menor sucesso - a Matilde divorciou-se ao fim de 7 meses, a Joana ainda hoje é casada e tem três filhos; a Leonor casou-se com outra mulher (não vou dizer que a aventura na Chueca, anos antes, tenha sido determinante na descoberta da sua sexualidade, já que fizemos um pacto e estou proibida de comentar), a Sara deu o nó há pouco mais de dois anos, pelo que é impossível adivinhar o que está para vir.
Cada uma foi escolhendo uma cidade espanhola para lá fazer a despedida de solteira. Depois de Barcelona e de Madrid, celebrámos em Gijón (e adorámos), em Salamanca, em Toledo (onde juntámos a nossa festa a uma passagem de ano absolutamente surreal, com toda a gente muito bêbeda a comer e a beber nas ruas da cidade desde a uma da tarde) e em Palma de Maiorca (no fim do verão, foi a viagem que fizemos que mais se pareceu com umas mini-férias - repetia, sem hesitação).
E, por fim, chegou a minha vez de casar. Para a tradicional festa de despedida, dividíamo-nos entre a Andaluzia e o País Basco. Por um lado, agora que estávamos mais maduras e a exigência já não se limitava a “beber copos e ver gajos”, a possibilidade de vaguear por San Sebastián a experimentar restaurantes afigurava-se muito apelativa. Mas, por outro, a viagem até ao sul de Espanha era mais fácil, mais barata e, no fundo, que mal tem beber copos e ver gajos? Málaga, aí vamos nós.
Eram os últimos dias de primavera e tudo corria maravilhosamente. A cidade fervilhava, havia um espírito festivo muito agradável e, quanto a nós, as amigas de sempre, gozámos de uma certa felicidade tranquila. Gostávamos de estar ali, todas juntas, uma vez mais - quiçá, pela última vez neste tipo de contexto. Málaga é uma pequena delícia, com os seus barzinhos do centro, as suas ruas de labirinto e os seus monumentos vistosos, à beira-mar.
Durante três dias, saímos, bailámos e ouvimos flamenco, bebemos, celebrámos. E nem sequer tivemos grandes interações com rapazes. Pelo menos, até à última noite.
A partir da tarde do nosso último dia em Málaga, começou a chover, o que estragou um bocadinho o mood para o que restava da festa e acabou por nos limitar um pouco a mobilidade. Como a chuva não parava e já estávamos fartas de apanhar molhas - a primeira tem graça, porque até está calor e tal, mas ao fim de umas quantas deixa de ser novidade e passa a ser só desagradável -, tivemos de tomar decisões. Como estávamos perto do bar de cocktails de que mais gostámos, um sítio que é o ZAS, decidimos entrar e ir ficando até a chuva permitir que saíssemos. Como a chuva não permitia, nós íamos continuando no nosso ritmo de despedida de solteira, que ia aumentando à medida que íamos ingerindo cocktails.
Quando saímos do ZAS, já bastante tarde, todas tínhamos bebido um bocadinho mais do que a conta. Talvez o álcool tenha sido o principal ingrediente para o incidente, mas acredito que não tenha sido o único. Basicamente, uns rapazes engraçadinhos fizeram de nós pinos de bowling. As minhas amigas tiveram destreza física e mental (e sorte!) suficiente para se desviarem, mas eu, que sou mais distraída (ok, eu tinha bebido mais shots, mas a culpa é delas) não dei por nada e fui derrubada… por um dos tipos mais queridos que conheci na vida. Um palerma delicioso que decidiu aproveitar o chão liso de Málaga que, molhado, permite deslizar - bêbado, claro, atirou-se a deslizar de peito no chão, direito a nós (segundo o próprio, a ideia era fazer strike - ele depois pediu “muitas desculpas”).
O rapaz chama-se Manuel. Estava com o grupo de amigos, a fazer, imagine-se, a sua despedida de solteiro. Estavam todos muito pior do que nós estávamos. Só assim se percebe, aliás, que alguém se tenha lembrado de deslizar de peito no chão na tentativa de derrubar um grupo de mulheres embriagadas e com t-shirts ensopadas a dizer “adeus Teresa, até sempre”, aludindo à minha despedida de solteira.
O Manuel não fez strike. Derrubou um só pino, que era eu. O noivo acertou em cheio na noiva. Eu caí para cima dele. Foi embaraçoso. Foi insólito. Foi chato. Foi louco. Foi muito divertido. Ficámos os dois no chão com ar de parvos, sem saber muito bem o que tinha acontecido (mesmo ele não percebeu muito bem como é que conseguiu ser palerma de uma forma tão bem sucedida), com toda a gente a rir até às lágrimas, tanto do lado das meninas como dos rapazes. Sem saber como reagir, ri-me também.
Em busca de absolvição, o Manuel fez questão de nos pagar copos, e então fomos todos, os dois grupos juntos, de volta para o ZAS beber shots e cocktails. Eu e o Manuel aproveitámos para nos conhecermos melhor, depois de sabermos que ambos nos estávamos ali para nos despedirmos da vida de solteiro. Apesar do excesso de copos, deu para perceber que era um bom rapaz, muito interessante - e giro! Lembro-me de me ter sentido profundamente atraída por ele, como se sentisse um último frémito, um derradeiro estremecer do coração antes de me entregar em definitivo ao meu futuro marido. Sei que o o Manuel sentiu o mesmo. Confirmei-o quando me beijou com delicadeza e apetite, mesmo ali ao balcão - o que acontece em Málaga, fica em Málaga, nunca ninguém falou disso. Quando o beijo acabou, perguntei-lhe de forma meiga se ele queria mesmo estragar tudo. Sorriu - ele era tão bonito - e disse que não. Prometemos nunca mais dizer nada um ao outro. Prometemos nunca nos seguirmos nas redes sociais. Prometemos e cumprimos.