Histórias de Amor Moderno: "Esgueirámo-nos para um dos confessionários. Sentei-me ao colo do Manuel e começámos aos beijos. As nossas mãos foram ganhando entusiasmo."
“Manuel, beija-me. Leva-me para um canto desta pequena floresta." Obedeceu. Deitámo-nos no meio das árvores, sobre folhas e ervas." Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.
Eu tinha indicações precisas: levar um alfinete de dama, dos maiores, e um frasquinho com álcool, para desinfetar a agulha. Como sabia que o Manuel era um bocadinho paranoico com germes e higiene, usaria ainda o isqueiro para queimar a ponta do alfinete. Naquele tempo, todos fumávamos, toda a gente levava isqueiro no bolso, essa parte não era preciso programar. Devia ainda levar, numa garrafa daquelas miniatura, água benzida. Não seria exatamente água benta, à maneira das igrejas. Era antes água que eu tivesse recolhido do meu banho no dia anterior e que tivesse deixado, dentro da pequena garrafa, exposta ao sol e, depois de o sol se pôr, aos rigores da noite e da madrugada.
O objetivo era simples e ingénuo: eu e o Manuel, apaixonadíssimos de fresco, miúdos - ele tinha 17 anos e eu 18 -, íamos casar. Não de uma maneira oficial ou religiosa, que essas eram formas feias de encarar a união entre duas pessoas ingénuas que se amavam. Esta seria uma espécie de casamento-promessa: cada um continuaria a morar com a respetiva família, até que a idade e a vida nos permitissem, de facto, casar como os adultos se casam. Seria uma cerimónia pagã, espiritual, romântica e privada, que serviria para jurarmos amor e fidelidade um ao outro, para todo o sempre, ou para o resto da vida. Ou para seis ou sete meses, como acabou por se verificar. Mas isso pouco importa: o amor era tudo naquele momento, e cada momento conta nesta vida. Aquele contou e foi assim.
De manhã, apanhei o autocarro em Lisboa com destino à terra onde o Manuel vivia. Era mais fácil realizar todo o ritual e, com sorte e imaginação, consumar o casamento fora da cidade, onde os recantos abundam e o ambiente bucólico convida à exploração do espaço envolvente e dos corpos que se descobrem.
Quando desci na paragem, lá estava ele, sorridente e tímido, e bonito, como sempre foi e, tanto quanto sei, continua a ser. Desci, abraçámo-nos, ele beijou-me ali mesmo, diante de toda a gente. "Então, menino, essa timidez, que foi feito dela?" Sorriu, meio envergonhado. Continuo a não ter dúvidas quando penso no que me levou a apaixonar-me pelo Manuel: aquela doçura cândida, aquela bondade quase reguila, a mistura equilibrada entre a serenidade e a energia. “Trouxeste tudo?” Respondi que sim.
Levou-me para um grande jardim público, belíssimo, cheio de árvores frondosas, algumas com mais de 30 metros de altura. Antiquíssimas, presumi e comentei. “Certos exemplares têm mais de 300 anos”, explicou-me. O Manuel tinha este bónus: sabia imensas coisas e explicava-as, sem se esforçar para o fazer, com uma linguagem muito escorreita, muito madura, quase professoral, mas sem intenção de dar lições. Simplesmente, gostava de partilhar com os outros coisas que, por alguma inusitada razão, sabia e tinha na ponta da língua. As árvores centenárias do jardim eram só mais uma dessas informações. “Esta é uma árvore da borracha.” Ainda hoje sei o que é. “As pessoas costumam tê-las em vasos, em casa. Mas, em condições ideais, podem atingir estas dimensões e idades” - interrompi-o. "Manuel, beija-me. Leva-me para um canto desta pequena floresta". Obedeceu.
Deitámo-nos no meio das árvores, sobre folhas e ervas. Naquela zona do jardim, a vegetação era tão densa que o sol chegava até nós só depois de atravessar múltiplas camadas de filtros, entre folhas e ramos. Estávamos abrigados do mundo. Nem Deus, olhando lá de cima, conseguiria ver-nos. Mas a timidez do Manuel foi mais forte do que o isolamento concedido por aquele pedaço do Éden: os passos de uma pessoa de passagem, lá ao fundo, interromperam o momento e fizeram-no hesitar. “Não consigo”, disse ele. "Não faz mal", descansei-o.
Depois de aguardarmos um pouco em silêncio, tirei da sacola o que trouxera comigo para aquilo que pretendíamos fazer. O frasco com álcool, o alfinete de dama, água do meu banho benzida pelas horas do dia anterior e, por fim, o isqueiro que tirei do bolso. “Aqui não se pode fazer lume”, alertou-me. Revirei-lhe os olhos, "é para desinfetar o alfinete, Manuel". “Ah.”
Ele tirou uma carta do bolso que escrevera para me ler em voz alta - ou em voz tão alta quanto a sua timidez permitisse. Era muito bonito o que ele me escreveu. Guardei a carta até hoje. Depois, eu desdobrei o papel onde escrevera o que lhe queria dizer e li. Pediu-me que lesse mais baixo, e eu assim fiz. Comoveu-se. Prometemos amar-nos para sempre, jurámos ser felizes juntos até ao fim dos dias. Fomos felizes, pelo menos, até ao fim daquele dia, isso é certo. Felizes como talvez eu não tenha voltado a ser.
Em seguida, molhámos as mãos com a água benzida e, com o alfinete desinfetado, picámos o indicador direito um ao outro. Juntámos as pequenas gotas de sangue que saíam de ambos. Casámo-nos assim, como crianças. Disse-lhe que devíamos consumar o casamento ali mesmo, torná-lo físico, unir os corpos. Estremeceu. “E se alguém passa e vê?” Concordámos que podia ficar para mais tarde e decidimos ir almoçar.
Lembro-me de todos os detalhes desse dia. Fomos a um restaurante chinês, eu escolhi pelos dois, porque ele desconhecia por completo a comida chinesa. Também nunca tinha comido com pauzinhos, e eu expliquei-lhe como fazer. Não se saiu mal com o chop suey de porco. Bebemos Coca-Colas. Pedimos café. Dividimos a conta. Saímos e demos uma volta pelo centro da pequena vila. Parámos num café que tinha máquinas de jogos, como os salões de jogos de outros tempos. Trocámos dinheiro para ficarmos com moedas, jogámos Mortal Kombat, jogámos flippers. Depois, jogámos snooker. Bebemos uma cerveja cada um.
A tarde continuou. Perguntei-lhe se não me queria levar para casa. Respondeu-me que preferia não fazê-lo. Que a mãe devia estar quase a chegar e seria uma situação chata e difícil de explicar. Não insisti. Passeámos mais. Parámos diante de uma grande igreja e beijámo-nos sob as suas arcadas. Afinal, éramos casados de fresco. Enquanto nos beijávamos, um homem todo vestido de preto passou por nós e insultou-nos: “porcos, vão para casa”. Eu perguntei-lhe o que se passava. “Vêm fazer poucas-vergonhas para a casa de Deus”, respondeu. “Fora daqui”, gritou. E voltou a chamar-nos porcos antes de entrar na igreja, benzendo-se. O Manuel queria ir atrás dele, pedir-lhe satisfações. Mas eu tinha uma ideia melhor.
Esperámos um momento, aguardámos que o homem estúpido entrasse. Aproveitámos para acalmar os nossos corações doces e apaixonados. Respirar fundo, contar lentamente até dez, respirar fundo, sorrir. Espreitei pela porta. Vi que, ao fundo, na primeira fila, junto ao altar, o homem estava de joelhos, com as mãos juntas, em oração. Não havia mais ninguém na igreja.
Peguei na mão do Manuel e puxei-o atrás de mim. Fomos pé ante pé e sem fazer barulho, esgueirámo-nos para um dos confessionários. O homem não deu por nada. Sentei-me ao colo do Manuel e começámos aos beijos. As nossas mãos foram ganhando entusiasmo e começaram a percorrer territórios até então desconhecidos. O Manuel ia desbravando como um expedicionário no meio da selva, ocasionalmente tropeçando, mas seguindo em frente, com coragem. Às vezes, parava, olhava para mim e ria em silêncio, com uma expressão de vitória. A sua aventura continuou até que encontrou o que queria. E foi então que os seus dedos ingénuos começaram a fazer magia como só as almas inocentes são capazes: com curiosidade e intuição. E eu fui sustendo a respiração por momentos, tanto quanto pude. Até ao fim. Até não poder mais e, sem conseguir conter-me, soltar um gemido que decerto ecoou pelas capelas e galerias.
“Quem está aí?” gritou o homem, repentinamente despertado do torpor da oração. “O que é que estão a fazer?” Eu disse ao Manuel “vamos, foge” e saímos a correr. Ninguém nos apanhou. Mas o homem viu-nos fugir. Só parámos já longe da igreja. Cansados e sorridentes, ainda incrédulos do que acontecera.
Regressei a Lisboa ao fim dessa tarde. Cheguei a casa feliz e sonhadora. O namoro com o Manuel não duraria mais do que alguns meses, mas eu então ainda não sabia que seria tão curta a nossa relação. Não sabia nada, a vida ainda era uma selva por desbravar também para mim. Porém, aquela recordação ficou para sempre e é muito mais valiosa do que a primeira vez em que efetivamente fizemos amor. Porque foi assim que consumámos o nosso casamento pueril, com os dedos do Manuel dentro de um confessionário.
Histórias de Amor Moderno: “Onde é que já se viu, em pleno século XXI, ter um homem a pedir a mão da sua amada ao pai desta?”
“Admirara em especial o esforço daquele Colin Firth, em piloto automático e versão de venda natalícia, para aprender português.” Hoje, excecionalmente, apresentamos uma história completamente fictícia - embora pudesse ser verdadeira. De resto, todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.