Histórias de Amor Moderno: “‘Oh, mon amour, mas eu quero levar-te para o quarto.’ Disse isto e beijou-me”

“Sou uma espécie de escravo com benefícios? Sim. Mas levo uma vida de sonho. E, de caminho, sou muito apaixonado por esta mulher maravilhosa, oito anos mais nova do que eu, que me sustenta e me anima e coordena o meu destino.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

lebristol-5885500g.webp Foto: DR
20 de junho de 2026 às 10:00 Maria Olívia Sebastião

Estamos na esplanada de um dos hotéis mais chiques e luxuosos da Madeira, junto a uma das piscinas. A Clementine vai fazendo poses para o telefone, assente num tripé - ora no chão, ora em cima da mesa, ora sobre a espreguiçadeira. Às vezes, pede-me que a filme durante alguns segundos. Ou que lhe tire uma foto, porque precisa de um enquadramento assim enquanto faz uma expressão assado, e a combinação entre ambas torna impossível fotografar-se em modo selfie. Quando me pede, nunca digo que não: paro tudo o que estou a fazer, levanto-me, sorrio docilmente e, obediente, executo a tarefa com diligência e uma expressão de gratidão no rosto. Tenho a melhor vida que um homem pode imaginar, com um nível de preocupações que ascende aproximadamente a zero.

Conheci a Clementine numa viagem de trabalho. Na época, eu tinha um trabalho: mal pago, cansativo, aborrecido e exasperante. Era assistente de um consultor de materiais técnicos para sistemas de segurança em estabelecimentos de vários tipos. Dessa vez, por sorte, a viagem era até uma marina na região de Marselha. Enquanto eu caminhava demasiado vestido, com um fato que nem sequer me caía bem, atrás do meu chefe, com um bloco de notas e três telefones na mão, tentando acompanhar o passo do líder, reparei numa rapariga absurdamente bonita, com um vestido muito elegante e exótico, a fazer poses diante do telefone. Abrandei e fiquei a observá-la. Ela notou a minha presença e sorriu para mim. O meu chefe gritou-me lá do fundo, “Emanuel, anda daí”. Acenei-lhe um adeus discreto e deslumbrado. Ela atirou-me um beijo imaginário soprado - como num filme.

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Passei o resto do dia incrédulo e agitado, desconcentrado, distraído. Só pensava naquela rapariga lindíssima a notar a minha presença e a sorrir-me e a mandar-me beijos. O meu chefe discutiu comigo, chamou-me imprestável, perguntou-me se não sabia o que andava a fazer, se andava a gozar com a cara dele. Respondi-lhe que não me sentia bem, mas o sorriso nos meus olhos, e possivelmente nos meus lábios, não me deixava mentir. “Tenho de me recolher ao quarto e descansar um bocado, não me leve a mal.” Fui embora. Precisava de me isolar para poder pensar no assunto em paz. Alguma coisa mexera demasiado comigo naquele evento breve e efémero.

Quando ia em direção ao quarto, que ficava num hotel próximo da marina, ouvi um assobio. Não liguei. Mas o assobio persistiu, repetiu-se. Acabei por ceder e olhar para trás. Era ela, a rapariga lindíssima que me sorrira horas antes. Vinha de novo sorridente e caminhava na minha direção. Tive vontade de me beliscar para ter a certeza de que aquilo estava mesmo a acontecer - tudo parecia meio surreal.

Chegou perto de mim, estendeu-me a mão e disse “bonjour, je suis Clementine”, ao que respondi com um “bonjour” demasiado esforçado, talvez, revelando de imediato que não era francês. “Ah, és português”, disse-me, em português correto e com uma pronúncia adorável (parecia saída da série Alô, Alô) - pouco mais tarde, fiquei a saber que o pai dela era português, de Trás-os-Montes, e que em casa dela sempre se falou português, até à morte dele, três anos atrás. Clementine e o irmão ainda falavam português entre eles, de modo a preservar a memória do pai e a prática da língua portuguesa.

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Para minha enorme surpresa, Clementine perguntou-me: “O que é que um rapaz tão giro e moderno - ela usou mesmo o termo 'moderno', não sei se intencional ou inadvertidamente - anda a fazer atrás de engravatados sebosos, como se fosse um criado?” Ri-me, um pouco envergonhado, expliquei-lhe que precisava de trabalhar, de ganhar dinheiro. “Sabes tirar fotografias?” Disse-lhe que sim. “Sabes escrever?” Os meus olhos brilharam. Claro que sim, o meu sonho era viver da escrita. “Então, porque não vens trabalhar comigo?”

A princípio, não percebi que tipo de proposta era aquela. Estava confuso. Primeiro, achei que ela estava interessada em mim; depois, do nada, faz-me uma espécie de oferta estranha de trabalho? O que é que se passava ali? Fui sincero com ela. Disse-lhe que a tinha achado belíssima desde o primeiro momento e que fora esse o motivo pelo qual fiquei a observá-la quando ela reparou em mim. E que, em seguida, tinha ficado com a sensação de que ela também me achara, sei lá, giro, ou atraente, ou interessante. E que acreditara que fosse esse motivo para ela me abordar, não uma proposta de trabalho.

“Oh, mon amour, mas eu quero levar-te para o quarto.” Disse isto e beijou-me. “Estas coisas não são incompatíveis”, acrescentou no fim do beijo, enquanto me pegava na mão. Fomos para o quarto.

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Quando, finalmente, descansámos e nos recostámos na cama, ela disse “precisamos de conversar”, e eu ri-me, porque, enfim, o peso de uma frase dessas não se adequava ao momento que estávamos a viver. “Não te rias: quero que trabalhes comigo.” Explicou-me o que pretendia: um namorado - sim, a Clementine pôs as coisas nestes termos: quero que sejas o meu namorado - que a acompanhasse sempre, em todas as viagens, que a filmasse e fotografasse quando fosse necessário, que a ajudasse a compor os textos nas redes sociais, “e é basicamente só isto”. “E também preciso que faças amor comigo, muitas vezes”, acrescentou. “Porque gosto e é bom”, concluiu.

Eu não sabia o que é que ela fazia, então perguntei. “Sou influencer, como se diz”, e fez um sorriso propositadamente forçado. Tem cerca de 3 milhões de seguidores. Os hotéis, resorts e restaurantes, entre outros negócios e meios relacionados com turismo e lifestyle, convidam-na e contratam-na para promover os seus lugares. Não sei detalhes sobre honorários, só sei que nunca tive de pegar um cêntimo por nada do que usufruí desde que estamos juntos. E, além disso, ainda me dá uma espécie de mesada, bastante generosa, por sinal, pela minha colaboração e companhia, “e também porque fazes amor comigo muito bem” - ela gosta de sublinhar estas coisas, e eu não consigo não achar encantador.

Entretanto, vamos viajando pelo mundo, especialmente pelo Sul da Europa, e eu só tenho de estar atento e fazer-lhe companhia. Estar disponível para ela, para as suas necessidades, sejam elas clicar no botão da máquina analógica ou dar-lhe uma massagem à medida dos seus desejos. Sou uma espécie de escravo com benefícios? Sim. Mas levo uma vida de sonho. E, de caminho, sou muito apaixonado por esta mulher maravilhosa, oito anos mais nova do que eu, que me sustenta e me anima e coordena o meu destino. E não lamento nem por um segundo o momento em que, em Marselha, me despedi da empresa de consultoria para aceitar este mundo de aventuras meio inusitado.

“Emanuel, preciso que me ajudes” - de volta ao cenário madeirense, ela chama-me do outro lado da piscina, enquanto arruma as suas ferramentas na pequena mochila. Como está a guardar tudo, presumo que precisa da minha ajuda no quarto. Chego perto dela, e então diz-me, com uma expressão muito séria e assertiva, “hoje ainda não fizemos amor e isso não está certo”.

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“Na cabeça dele, eu, encolhida, sem jeito, meio embaraçada pelas minhas observações tontas e desconfianças, pedir-lhe-ia muitas desculpas pelo atrevimento. Mas isso era só na cabeça dele. Na minha, não havia desculpas a pedir.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

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