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Sexualidade

“Podemos amar profundamente alguém e, ainda assim, sentir atração sexual ou romântica por outra pessoa”

Conversámos com as médicas Inês Santos Silva e Catarina Lucas sobre um dos temas que começa a intrigar as gerações mais novas. É mesmo mais forte do que nós, trair, ou poderá haver alterações químicas no cérebro que nos tornem mais propensos para a multiplicidade de parceiros e, nalguns casos, para a infidelidade?

O "gene da infidelidade"
O "gene da infidelidade" Foto: Getty Images
04 de agosto de 2026 às 10:00 Rita Silva Avelar Adicione como fonte preferencial no Google

Relações abertas, friends with benefits, acordos matrimoniais, LAT (living apart together), situationship (relação pouco promissora) - you name it. O mundo está cheio de diversidade no que toca às relações e sobretudo a Gen Z parece ter encontrado diferentes formas de abordar o amor. A verdade é que o modo de vida das gerações atuais evoluiu para formatos menos convencionais que podem influenciar este tipo de relacionamentos (o facto de ser difícil sair da casa dos pais é um bom exemplo para justificar, por exemplo o LAT, uma relação amorosa estável e saudável em que o casal vive bem com a distância, preservando a independência e o desgaste por vezes advindo da vida em comum). Recentemente uma amiga tentava debater os conceitos de poligamia e de monogamia e o timing não podia ser mais curioso, já que há poucos dias tinha lido num estudo sobre o assunto que há um “gene da infidelidade” que torna, eventualmente, alguns de nós, mais “propensos a trair”.

No artigo do The Guardian: “” ("Estamos geneticamente programados para a infidelidade?") do biólogo e investigador na área da sexualidade Justin Garcia, aborda-se o tema. Que gene é este? E já agora, como espécie, evoluímos para a monogamia, para escolher uma relação, ou continuamos a ter um instinto de sobrevivência que nos programa para a descoberta de vários parceiros? O tema é polémico e rende horas de conversa (ainda devo à minha amiga um debate à altura sobre o assunto). Inês Santos Silva médica especialista em Medicina Sexual no Hospital CUF Tejo, Lisboa, começa precisamente por referir que, segundo Garcia afirma, “a biologia não é o nosso destino” e que, “embora atue como fator predisponente, é fundamental entender que a genética não é o único determinante dos nossos comportamentos”. Não estamos fadados para a traição, portanto. Catarina Lucas, psicóloga clínica e terapeuta de casal com especialização avançada em sexologia, confirma: “é importante fazer uma distinção: predisposição não significa destino. Nenhum gene causa uma traição.” Fomos diretas às perguntas.

O estudo citado por Justin Garcia neste artigo indica que pessoas com genes que otimizam o funcionamento das células recetoras de dopamina no cérebro, têm mais propensão para a infidelidade (e também para a dependência de álcool, drogas e jogo). Isto porque os níveis de dopamina altos estão associados a excitação e mais tendência para arriscar. O que pensa sobre isto? Há realmente pessoas biologicamente mais propensas à traição que outras?

Inês Santos Silva: A infidelidade é um fenómeno complexo que resulta da interação de múltiplos fatores: biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Há pessoas que podem ter uma maior tendência para procurar novidade, excitação ou risco, e isso pode estar relacionado com determinados mecanismos neurobiológicos, mas isso não significa que estejam condenadas a trair. Aquilo que vemos é que a infidelidade raramente acontece por uma única razão. Muitas vezes surge como uma forma de expressão de algo que a pessoa não consegue viver ou comunicar dentro da própria relação, e usam a infidelidade como uma tentativa de lidar com desejos pessoais, necessidades não verbalizadas, conflitos internos ou dificuldades na relação. Portanto, sim, podemos dizer que algumas pessoas podem ter uma base biológica que facilita a busca por excitação e o risco. Mas o facto de trair ou não depende também da personalidade, da qualidade da relação, dos limites de cada pessoa, dos valores do casal e das oportunidades contextuais. A biologia pode influenciar, mas não decide por nós.

Catarina Lucas: A investigação nesta área é muito interessante e mostra-nos que a biologia pode influenciar alguns traços da personalidade, como a procura por novidade, a impulsividade ou a tendência para assumir riscos. É possível que algumas pessoas tenham uma predisposição biológica para procurar experiências mais estimulantes, e isso pode refletir-se em diferentes áreas da vida, incluindo a sexualidade. A infidelidade é um comportamento complexo, influenciado por fatores biológicos, psicológicos, relacionais, culturais e contextuais. A forma como gerimos os nossos impulsos, os nossos valores, a qualidade da relação, a comunicação e a capacidade de autorregulação têm um peso muito superior à existência de uma determinada variante genética. Reduzir a infidelidade a uma explicação biológica seria demasiado simplista. A ciência mostra-nos probabilidades, não determinações. 

Evoluímos, enquanto espécie, mais para a monogamia ou para a poligamia? E porque é que tanto temos tão presente o impulso para uma relação romântica forte e vinculante como para a novidade sexual?

ISS: A monogamia, tal como a vivemos hoje, é muito influenciada por fatores sociais e culturais. Continua a ser vista como uma característica central das relações românticas, essencial para a confiança, segurança e estabilidade na relação. Mas a verdade é que o desejo de vinculação e o desejo de novidade sexual não são incompatíveis. Podemos querer uma relação amorosa forte, segura e duradoura e, ao mesmo tempo, sentir curiosidade, desejo ou atração por outras pessoas e isso não significa, por si só, que a relação esteja mal, significa que somos humanos. O que me parece mais importante é que cada casal possa decidir, de forma consciente, que tipo de relacionamento quer construir. E gosto muito de reforçar esta ideia em consulta: quanto mais seguro e próximo o casal estiver, mais confortável se sente para falar com o parceiro sobre aquilo que gostaria de introduzir na relação. Falar sobre fantasias, por exemplo, é algo ainda pouco frequente entre os casais, e eu compreendo porquê: no geral, fomos habituados a falar pouco sobre sexo, mesmo dentro dos relacionamentos, e falar de fantasias sexuais pode significar entrar em áreas muito íntimas da vida de cada pessoa. Também não acredito que os casais devem ser livros abertos e partilhar absolutamente tudo. Mas se existe uma fantasia, uma curiosidade ou uma vontade que a pessoa gostava de explorar dentro da relação, porque não falar sobre isso? O outro elemento pode até estar interessado em experimentar. E, quando não está, esta conversa também pode ser uma oportunidade de conhecer melhor os limites, desejos e vulnerabilidade de cada um.

CL: A resposta mais honesta é que o ser humano parece ter evoluído para uma grande flexibilidade relacional. Há evidências de que desenvolvemos mecanismos que favorecem a vinculação estável, fundamentais para a cooperação, a parentalidade e a sobrevivência da espécie, mas também mecanismos que promovem a procura de novidade, associados ao desejo, à exploração e à diversidade genética. Por isso, não somos exclusivamente monogâmicos nem naturalmente poligâmicos. Temos capacidade para ambos os impulsos. A questão está na forma como cada pessoa e cada casal escolhem viver essa realidade. É precisamente aqui que reside um dos maiores desafios das relações atuais: queremos segurança emocional, intimidade e estabilidade, mas também desejamos novidade, surpresa e erotismo. Estes desejos não são incompatíveis, mas exigem consciência, comunicação e investimento contínuo na relação.

A autora Esther Perel questiona com frequência estas questões. Será que a infidelidade pode existir de modo saudável num relacionamento amoroso? Ou essa condição é completamente incompatível?

ISS: Depende muito do que estamos a chamar de infidelidade. Se estamos a falar de uma relação baseada num acordo de exclusividade, então a infidelidade implica uma violação da confiança e dos compromissos assumidos e, nesse sentido, é incompatível com a saúde e estabilidade da relação, porque existe uma quebra de confiança. Mas acho importante separarmos duas coisas: sentir atração por outras pessoas e trair. Desde cedo, é-nos transmitida uma ideia muito romantizada de alma gémea, como se encontrar alguém para a vida significasse deixar de sentir desejo, atração ou curiosidade por outras pessoas. E isso não é realista. Podemos amar profundamente alguém e, ainda assim, sentir atração sexual ou romântica por outra pessoa, isso é o mais normativo que existe. A questão essencial é o que fazemos com isso. A monogamia é, ou pelo menos devia ser, uma escolha consciente entre os dois elementos do casal. E, como tal, devia implicar uma conversa clara sobre os limites da relação: O que é aceitável? O que não é? O que cada um considera uma traição? Onde começa a quebra de confiança? Mas, normalmente, os casais não têm esta conversa. Partimos do princípio de que ambos têm exatamente a mesma definição de infidelidade mas muitas vezes não têm. Para algumas pessoas, pode envolver pensamentos sexuais ou românticos por outra pessoa. Para outras, ver pornografia às escondidas, trocar mensagens, dançar de forma ínma, beijar, marcar encontros ou ter relações sexuais fora da relação. Por isso, a questão não é normalizar a infidelidade, mas sim normalizar as conversas sobre este assunto.

CL: A Esther Perel trouxe um contributo muito importante ao convidar-nos a compreender a infidelidade para além da condenação moral. Compreender, contudo, não significa justificar. Na minha perspetiva, numa relação em que existe um acordo explícito de exclusividade, a infidelidade representa uma quebra de confiança e, por isso, dificilmente pode ser considerada “saudável”. O impacto emocional costuma ser profundo porque aquilo que é colocado em causa não é apenas a exclusividade sexual, mas também a segurança, a previsibilidade e o sentimento de confiança na relação. Por outro lado, existem modelos relacionais consensuais, como as relações abertas ou a não monogamia ética, em que a exclusividade sexual não faz parte do acordo. Nestes casos, não falamos de infidelidade, porque existe consentimento, transparência e negociação entre ambas as partes.

Será que o ser humano vai evoluir para uma normalização da infidelidade, ou cresce-se em direção contrária? Qual a sua opinião?

ISS: Não acredito que a infidelidade venha a ser normalizada. A traição está associada a uma rutura, a uma quebra de confiança e, muitas vezes, a um sofrimento emocional muito significativo que para algumas pessoas pode mesmo deixar traumas profundos. Por isso não me parece desejável nem saudável normalizar a infidelidade como se fosse algo sem impacto. O que acho que pode, e deve, ser normalizado é a conversa sobre a complexidade das relações. Apesar da expectativa social da monogamia, sabemos que a infidelidade é muito prevalente. Tendo isto em consideração, podemos viver relações mais saudáveis se falarmos mais sobre elas. Se definirmos melhor o nosso acordo dentro da relação, deixando claro o que significa fidelidade para cada um e normalizar que vai haver momentos de atração por outras pessoas, sem que isso tenha de significar automaticamente uma ameaça à relação.

Por fim, trair é sempre uma associação negativa. As traições quase sempre ditam o fim das relações?

ISS: A traição tem, inevitavelmente, uma associação negativa, sim. Há uma quebra importante na confiança no parceiro e na própria relação, e uma ameaça aos alicerces sobre os quais o relacionamento deveria prosperar - a confiança, a segurança e a confiança mútua. Agora, nem sempre dita o fim da relação. A traição pode funcionar como uma chamada de atenção de que a relação precisa de uma intervenção urgente. Não estou com isto a dizer que a traição é necessária ou positiva, mas sim que, quando acontece, pode abrir uma oportunidade de trabalho sobre a relação e até crescimento nesse processo. Ao mesmo tempo que é um dos principais motivos de separação, a infidelidade é também uma das razões frequentes pelas quais os casais procuram terapia. A intervenção pode ajudar o casal a compreender a rutura, a decidir se quer ou não continuar, e, quando essa é a vontade de ambos, a restaurar a qualidade do compromisso e da relação.

CL: Quanto ao futuro, acredito que caminhamos menos para uma normalização da infidelidade e mais para uma maior diversidade na forma de viver os relacionamentos. As pessoas tendem a questionar mais os modelos tradicionais e a construir relações mais alinhadas com os seus valores. Independentemente do modelo escolhido, aquilo que continuará a ser essencial é o respeito pelos acordos estabelecidos, a honestidade e a comunicação. Não é a monogamia ou a não monogamia que determinam a saúde de uma relação, mas sim a forma ética como essa relação é vivida.

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