Histórias de Amor Moderno: "A Flora tinha 18 anos e ficou grávida do namorado da altura. Acabou por interromper a gravidez"

“Nessa altura, ainda ele não sabia da sua condição. Nem ele, nem ninguém. Uma pessoa só descobre que não pode ter filhos quando começa a tentar e a não conseguir. Até lá, tudo é possível.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

Flora engravida do namorado aos 18 anos e interrompe a gravidez, numa história de amor do século XXI Foto: IMDB
14 de fevereiro de 2026 às 09:00 Maria Olívia Sebastião

O Jacinto não pode ter filhos. O Jacinto é um dos meus melhores amigos. Nunca fiz uma lista de melhores amigos, mas, caso fizesse, o Jacinto estaria seguramente no meu top 3. Conhecemo-nos desde há muito, somos praticamente da mesma idade, crescemos na mesma aldeia, jogámos futebol juntos na equipa da terra. Sempre fomos da casa, eu na dele ou ele na minha, juntamente com mais dois ou três rapazes aqui da terra.

É uma terra pequena, onde todos se conhecem e onde as pessoas conhecem a vida umas das outras. Sabem o que se passa, quem somos, quem é a família, o que fazemos, esse tipo de coisas. No fundo, acontece aqui o que sucede em qualquer bairro de qualquer vila ou cidade. A diferença é que aqui não se trata de um bairro, mas de toda a terra, que tem pouco mais de 300 habitantes.

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Num sítio onde quase tudo se sabe, é importante manter a discrição em certos assuntos. Mais do que importante, diria que é fundamental. Num sítio de homens fortes e de trabalho nos campos, a infertilidade pode ser um problema difícil de assumir em público. Falo de uma aldeia onde nem os cães são castrados, pelo que a presença de um homem que não possa procriar, que não consiga reproduzir-se, pode ser vista como uma fragilidade comunitária, uma incapacidade que se espalha pelo lugar como uma doença, capaz de dar má fama ao sítio, “é a aldeia dos impotentes”, dirão os habitantes das povoações vizinhas, misturando tudo num caldo de assuntos em que a infertilidade corresponde à impotência, e em que essa talvez seja reveladora, para lá de qualquer dúvida, de uma orientação sexual divergente do que é a norma por aqui - pelo menos, às claras, porque (e aqui estas coisas também se sabem, mas só se dizem em surdina) há muito quem divirja em segredo, pela calada da noite e ao abrigo da escuridão.

O Jacinto casou-se com a Flora em 2014. Namoraram durante algum tempo, mas não foi um daqueles namoros que se arrastam até que, à beira da rutura, os namorados decidem salvar a relação ficando noivos e casando, mascarando a infelicidade e a insatisfação com uma festa pomposa e esquivando-se aos perigos de uma separação natural e inevitável assinando papéis que o Registo Civil e a conservadora tratam de oficializar com selo branco, umas assinaturas e o pagamento de emolumentos: e pronto, está feito, agora separar-se dá muito mais trabalho.

Não, não foi esse o caso da Flora e do Jacinto. A crise que tiveram veio mais tarde, já eles eram casados há algum tempo, precisamente depois de começarem a tentar ter um bebé. A Flora, de quem me tornei muito próximo, um verdadeiro amigo e por quem tenho grande estima, não estava muito convencida com a ideia de ser mãe, porém, para o Jacinto ser pai era um objetivo muito claro desde sempre. A sua vida não se cumpriria caso não tivesse um filho. Claro que, nessa altura, ainda ele não sabia da sua condição. Nem ele, nem ninguém. Uma pessoa só descobre que não pode ter filhos quando começa a tentar e a não conseguir. Até lá, tudo é possível.

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O Jacinto e a Flora não começaram a tentar logo a seguir ao casamento. O Jacinto não considerava, na altura, que ser pai fosse urgente - se acontecesse, acontecia. A Flora continuava a tomar as suas precauções, como sempre tomara ao longo do namoro e até antes disso, porque toda a gente tem um antes, esse anexo temporal atrelado a cada um com um letreiro a dizer “passado”. A Flora também tinha um e, embora não se saiba tudo sobre esse passado, porque, por sorte, ela não cresceu nesta aldeia, há algumas coisas que acabam por se saber, porque alguém viu, ouviu, desconfiou ou sequer imaginou, e é então que as palavras se espalham. Sobre a Flora, espalharam-se palavras dando conta de que tinha tido outros namorados antes de conhecer o Jacinto. E ainda a história de que a Flora chegou a engravidar de um desses namorados, mas que não quis ter o bebé.

O Jacinto confirmou-me esta história. Sim, era verdade. A Flora tinha, na época, 18 anos e ficou grávida do namorado da altura. Não tomou logo decisões, mas acabou por interromper a gravidez. Só depois de o fazer contou ao namorado, acrescentando que não estava feliz com ele e que tudo aquilo a abalara, concluindo que queria acabar a relação. O rapaz ter-se-á sentido afrontado e desrespeitado, contou a várias pessoas, pondo a história a circular, algures entre o rumor vago e o ouvi-dizer-de-fonte-segura.

Acredito que a urgência do Jacinto em ser pai foi crescendo quando se apercebeu de que a história da gravidez prévia da Flora tinha chegado à nossa terra. Obviamente, ninguém o confrontou, ninguém lhe perguntou nada, mas estas coisas quase dão para pressentir no ar das conversas, um homem entra no café central, no centro de saúde, na casa do povo, na mercearia, e percebe que por trás daqueles sorrisos de bom dia e boa tarde, para lá daqueles olhos que nos olham, mas vagamente, estão pensamentos sobre aquilo que não lhes diz respeito, avaliações, julgamentos, considerações que ninguém pediu.

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Na cabeça do Jacinto, a forma mais eficaz de evitar este tipo de desconforto seria ter um filho. Um bebé faria esquecer o passado da Flora e em especial esse episódio mais triste da sua juventude. Além disso, devolveria ao Jacinto o estatuto másculo de que outrora usufruíra. Então, Jacinto, com mais convicção, Flora, movida mais pela conveniência de fazer o jeito ao marido, começaram a tentar engravidar. Se nos primeiros meses não geraram nada, nos seguintes geraram desconforto a eles mesmos.

Segundo as revelações que o Jacinto me fez, as tentativas não eram propriamente românticas nem feitas de sexo quente e apaixonado. Pelo contrário, tudo foi transformado num plano altamente funcional, com manobras de precisão, timings anotados e desempenhos que se aproximavam muito mais de dois colegas operários numa linha de montagem do que de um casal de pessoas apaixonadas.

Ao fim de cerca de um ano de tentativas frustradas, a Flora foi ao médico para saber o que se passava com ela, que problema tinha. A médica perguntou-lhe “é a sua primeira gravidez?” e ela, incomodada mas zelosa, respondeu que não, que já tivera uma gravidez - mas indesejada e que não levara até ao fim. “Então, em princípio o problema não é seu, a não ser que tenha feito algum disparate que me esteja a ocultar.” A Flora fez sinal que não com a cabeça.

O Jacinto ligou-me nesse dia. Precisava de falar com alguém, desabafou comigo. Ele estava receoso, mas também moralmente desfeito. Era tudo muito pesado. O diálogo que tivemos em seguida seria digno de um filme de Hollywood. Eu disse-lhe “descansa, meu amigo, eu vou-te ajudar, vamos resolver o assunto”. Ele virou-se para mim, muito sério, e disse “eu queria mesmo falar contigo sobre isso - estou desesperado, preciso de uma solução, seja ela qual for”. No momento, não percebi ao que se referia e só mais tarde vim a descobrir que estávamos a falar de possibilidades distintas e paralelas. Eu disse-lhe “ok, claro, mas é para isso que estou aqui, não é apenas para te dar um ombro amigo: eu quero ajudar na prática”. E foi então que ele exclamou: “Farias isso por mim? Mesmo? És o meu melhor amigo, Miguel.”

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Nesse momento, fiquei um pouco apreensivo, uma vez que a reação dele me pareceu um pouco exagerada para aquilo que eu estava a imaginar e me dispunha a fazer. Mesmo assim, respondi que sim, claro, que nada seria um problema sem solução. “E como é que fazemos?” A pergunta do Jacinto obrigou-me a explicar: “então, ligamos para este meu amigo”, e expliquei-lhe onde ficava a clínica e, tanto quanto sei, quais são os passos a seguir para a realização da inseminação a partir de um dador desconhecido.

O Jacinto ficou a olhar para mim com um ar surpreendido e desapontado. Perguntei-lhe o que se passava. “Pensei que querias ser tu o pai do meu filho.” Fiquei sem palavras. E estarrecido. Não consegui sequer conceber plenamente a ideia. “Eu queria que fosses tu o dador”, reforçou. “Eu deixo-te aqui o cartão desse meu amigo, diz que vais da minha parte. Fala com ele.” Deixei o cartão e fui-me embora.

Demorámos algum tempo a recuperar a nossa amizade, e acredito que nunca voltámos a ser aquilo que fôramos antes. Acrescentou-se um desconforto. Estar com ele, falar com ele faz-me regressar a esse momento, à memória de eu me imaginar a ser pai do filho de um grande amigo meu. E há qualquer coisa que falha, que não consigo conceber nem processar nessa ideia, e que fez com que eu percebesse que estou num plano diferente do do Jacinto.

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Entretanto, a Flora acabou por engravidar. Acredito que tenham usado o contacto privilegiado que lhe facultei para a clínica. Mas, na verdade, nunca mais toquei no assunto. A bebé vai chamar-se Raquel e o estatuto masculino do Jacinto aqui na terra parece recuperado e intacto. Porém, a Flora olha para mim como se eu tivesse feito alguma coisa errada. E eu não sei bem como interpretar essa sua expressão.

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