Histórias de Amor Moderno: “Perdi a virgindade aos 13 anos com um rapaz 4 anos mais velho. Não foi bom nem mau, foi o possível"
“Há uma coisa de que não se fala quando falamos de violência em casa, mas que eu sinto e acredito que aconteça com outras pessoas: parece que sou incapaz de me sentir feliz. Há sempre uma tormenta qualquer, indizível e invisível, um tolhimento no estômago, uma impossibilidade de desfrutar.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.
A minha mãe dizia “cuidado com a tempestade” e eu sabia o que ela queria dizer: o meu pai entrara em casa e vinha com os copos. A minha mãe dizia-o a sorrir, como se tivesse alguma graça - ou como se ela encontrasse uma certa piada naquela tragédia bruta, em que o seu marido entrava casa adentro com o humor profundamente adulterado. Umas vezes, chegava eufórico, a achar-se hilariante, mas a ser muitíssimo inconveniente, indelicado, malcriado. Outras, vinha frustrado, irritado, irado. Tudo dependia de como fora o dia e de como lhe caíra a bebida. Em qualquer dos casos, sempre que chegava depois de ter bebido muito, era bruto. Era um animal. E isto acontecia todas as semanas, às vezes duas, três vezes numa semana.
O que acontecia a seguir, quando a tensão que semeava atingia o limite - eu e a minha mãe entrávamos em pânico, os sorrisos nervosos, os termos gentis, as tentativas vãs de não o melindrar, tudo a culminar na inevitável ordem delicada da minha mãe, “é melhor ires para o quarto, filha”, com um sorriso triste e uma lágrima a escapar -, era tão previsível quanto violento. Os objetos começavam a voar, eram arremessados contra paredes, contra outros objetos ou simplesmente para o chão. Depois, contra a minha mãe. E contra mim, caso eu não seguisse a ordem bondosa da mãe e ficasse para ver o que acontecia.
Tinha 9 anos quando o meu pai nos deixou, mas foram 9 anos com muitas marcas, algumas delas físicas, sobretudo na minha mãe - e nas paredes, nos armários, na mobília (mas também em mim, no lado esquerdo do queixo, onde ainda hoje tenho a cicatriz do corte que fiz quando voei desamparada até à quina da mesinha da sala - foi ele que me atirou, “sai-me da frente, imbecil”) -, e também das outras, daquelas que não estão à vista. Tenho muitas marcas por dentro. Não me refiro ao ressentimento nem à tristeza, que cicatrizes dessas podemos consegui-las de muitas maneiras. Falo das outras, dos medos, da hesitações, das inseguranças, dos traumas.
Há uma coisa de que não se fala quando falamos de violência em casa, mas que eu sinto e acredito que aconteça com outras pessoas: parece que sou incapaz de me sentir feliz. A felicidade nunca existe, em momento algum. Há sempre uma tormenta qualquer, indizível e invisível, um tolhimento no estômago, uma impossibilidade de desfrutar, um receio perpétuo de um mal latente que não sabemos onde está (mas ele está à espreita), nem sequer se existe. É por isso que hoje sou capaz de olhar para alguém e perceber se são vítimas. Nós, as vítimas, adquirimos um olhar particular, uma expressão muito específica, semelhante àquela que a minha mãe tinha quando me pedia que fosse para o quarto, quando me dizia “vem aí tempestade”: uma tristeza conformada e sorridente, mas com um sorriso que esconde uma derrocada por dentro.
O meu pai fugiu para o estrangeiro. Ao início, não sabíamos dele nem o que lhe tinha acontecido. Certa tarde, não voltou do trabalho. Só isso. Achámos que ia chegar tarde e bêbado. Tememos por tudo o que aconteceria a seguir. Que loiças partiria, qual de nós ameaçaria atirar da janela do segundo andar, quanto tempo duraria a tempestade, algum vizinho chamaria a polícia, alguém bateria à nossa porta para saber o que se passava? Porém, nada aconteceu. Simplesmente, não voltou para casa.
A minha mãe procurou por ele nos dias seguintes, telefonou para os hospitais, para a polícia, para alguns amigos dele que ela conhecia, para o local de trabalho. Nada. Ninguém sabia dizer-nos o que quer que fosse. Só meses mais tarde uma ex-colega dele, que encontrou a minha mãe na rua, deixou a sugestão: ele não terá ido para fora com a mestiça? “Mas qual mestiça?”, perguntou a minha mãe. A outra olhou-a com espanto e com pena.
Nesse dia, a minha mãe ficou a saber que o meu pai andava metido com uma boliviana chamada Andrea. Uma mulher robusta, de cabelos louros e raízes escuras, unhas compridas e trajes reduzidos. “Uma alternadeira, é o que é”, desabafou a antiga colega do meu pai. Para a minha mãe tanto se lhe fazia quem ela era ou o que fazia. Custou-lhe, doeu-lhe, desiludiu-a. A minha mãe amava o meu pai, de verdade. “Nem eu sei como nem porquê”, diz-me, de vez em quando. Mas lá que gostava, gostava.
A partir dessa informação, a minha mãe conseguiu encontrar o fio à meada e, seguindo esse fio, encontrou o paradeiro do marido: vivia no Sul de Espanha com a sua boliviana. Descobriu o endereço e o número de telefone. Perguntou-me se eu queria contactá-lo. Eu disse-lhe que não. Ela também não o fez. Desde então, de vez em quando lembrava-se dele - nos aniversários, nossos ou dele, no Natal - e perguntava-me “de certeza que não lhe queres ligar?” Eu nunca quis. O meu, pai se algum dia for um homenzinho remotamente decente, há de pegar ele próprio num telefone e ligar para casa. Se quiser. Se não quiser, não tenho nada para lhe dizer. Nunca mais.
Claro que, ao fim de alguns anos e com as feridas a começarem a sarar, a minha mãe encontrou um novo companheiro. O Dinis, 8 anos mais novo do que ela, 12 anos mais do velho do que eu. E eu, na época, estava a passar da puberdade à adolescência, naquela altura em que as meninas passam a ganhar formas e curvas de contornos frescos e firmes.
Esta não é uma história clássica em que passo a vida a ser abusada ou violentada. Há nuances. O Dinis nunca me fez mal. Agora, não digo que não tenha tentado ter alguma coisa comigo. Não à base da força, não à custa da chantagem, mas com sedução. Com delicadeza. Com festas no limite do que é apropriado. Com beijinhos na orelha e no pescoço e segredos ditos ao ouvido de forma demasiado lânguida. Até que um dia, a sorrir, eu lhe disse “és patético e, se não parares com isso, vou contar à minha mãe”.
Nunca mais repetiu. Mas a relação dele com a mãe nunca mais foi a mesma. Acho que perdeu entusiasmo. Talvez eu fosse o seu principal motivo de interesse. Desconfio que era. Acabaram tudo passados alguns meses. A minha mãe não voltou a ter um companheiro. Não sei se tem ou teve namoros ou flirts ou one night stands. Espero que os tenha tido, coitada. Que não se tenha remetido ao celibato conformado.
Eu tive vários companheiros na vida. Comecei a namorar muito cedo. Aliás, acredito que o Dinis ficasse muito desapontado comigo caso tivesse consumado os seus desejos: aquilo que ele queria eu já não tinha para lhe dar. Perdi a virgindade aos 13 anos com um rapaz 4 anos mais velho. Não foi bom nem mau, foi o possível numa tarde de inverno em que não sabíamos o que fazer e em que os beijos e toques nos levaram longe demais. No dia seguinte, não nos falávamos - não sei se por vergonha ou por ressentimento. Se calhar, por ambos.
À medida que fui crescendo, senti sempre dificuldade em ligar-me de uma maneira estável e verdadeira a alguém, mesmo quando gostava realmente da pessoa com quem estava. Sim, vivia estados de paixão, era capaz de o fazer. Contudo, quando a relação parecia avançar, encaminhar-se para qualquer coisa estável ou séria ou mais profunda - não sei como classificar -, sentia uma espécie de repulsa, uma pulsão indomável para me afastar, para quebrar, romper, rasgar, fugir dali. Ignorar o que vivera e o que faltava viver com quem quer que eu estivesse.
Foram precisos anos e anos de reflexão, de autoanálise e de alguns conselhos - uns melhores do que outros - de pessoas que me foram sendo próximas, mas nunca íntimas. A intimidade é uma dimensão que mantenho reservada, um território praticamente armadilhado. Mesmo a nível emocional e sentimental, só concedo o privilégio da proximidade à minha mãe, minha companheira de sempre e a quem serei leal e com quem serei absolutamente franca enquanto estivermos as duas à face da Terra.
A minha relação mais recente acabou e deixou-me triste. Ao fim de todos estes anos a batalhar contra as minhas limitações e barreiras, dei por mim a baixar finalmente a guarda. Permiti-lhe que se aproximasse. Dei-lhe autorização para que fôssemos mais longe do que apenas a coisa física de nos termos mutuamente. Partilhámos casa, quarta e cama, dividimos mesa e sofá. Eventualmente, começámos a sair juntos. Não me lembro de alguma vez ter sucedido eu apresentar-me em público com um companheiro, um namorado. Tudo foi sempre sigiloso na minha vida sentimental, romântica e sexual, nunca quis ser associada a homem algum. Com o David cedi. Permiti-me ser mais normal, mais semelhante às outras pessoas. Só que ele desiludiu-me. Foi precisamente em público que ele começou a revelar uma faceta que me assustou e acabou por repelir.
Sempre que saíamos, o David tornava-se estranhamente possessivo. Como se quisesse mostrar que eu era a companheira dele. Mas fazia-o de uma maneira não natural, demasiado ostensiva. Senti-me desconfortável desde que começou a agir assim, mas fiz um esforço para não estragar tudo. Na minha cabeça, tinha cautelas, pois tentava não exagerar. Eu talvez tenha exagerado no passado, com outras pessoas, noutras relações, ou o que quer que fossem - bastava que quisessem levar a intimidade para outro patamar e eu automaticamente retraía-me. Pois, desta vez, com o David, esforcei-me para não cometer esse tipo de erros. Fui deixando acontecer.
Até que chegou a um ponto em que soaram alarmes e alertas. Eu já tinha visto aquele tipo de comportamento antes. No meu pai, quando saíamos em família: a maneira como agarrava a minha mãe, como se pretendesse exibi-la e mostrar a todos que a controlava, a forma como lhe falava, demasiado assertiva, a falta de delicadeza mesmo quando pretendia parecer gentil - sempre ríspido, exigente, mandão. Não, não era isso que eu queria para mim. Não outra vez nesta vida.
Quando disse ao David que não suportava a sua maneira de ser comigo, ele pareceu-me surpreendido. Não entendia onde podia estar o erro, o seu exagero ou as suas más maneiras. E eu não tinha como dar-lhe exemplos concretos do que estava errado no comportamento e na postura dele. Soube apenas dizer-lhe que já tinha visto, noutros tempos, alguém comportar-se assim e que o desfecho da história fora bastante infeliz.
Não sei se estou a fazer bem ao afastar-me dele. Gosto do David. Tenho medo, mas também tenho raiva de passar a vida a sentir medo.
Histórias de Amor Moderno: “Uma mulher que dá muito nas vistas também dá problemas.”
“Um dia, apareceu-nos em casa com aquela mulher de cabelos encaracolados e compridos, mais parecia uma leoa com a sua juba selvagem, de calças e blusão de ganga e um top bastante decotado, vários brincos em cada orelha, uma tatuagem em cada pulso.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.
Histórias de Amor Moderno: “Passados uns meses de nos termos separado, ele engravidou a namoradinha nova.”
“Há pessoas com quem estabelecemos uma ligação imediata, quase como se já estivéssemos ligados a priori. Foi o nosso caso. Coincidimos, conhecemo-nos sem ter de explicar muito.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.
Histórias de Amor Moderno: “E então ele pegou-me ao colo, enfiou-me no quarto e começou a despir-me."
“Então o Gaspar o sugeriu: e se perdesses o avião? Respondi-lhe que seria muito difícil. A não ser que surgisse um grande, grande imprevisto ou um motivo de força muito maior.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.