Catarina Pires: "António Filipe não trata os direitos das mulheres como conquistas adquiridas que já não precisam de defesa ativa"

"Vejo em António Filipe uma posição de respeito profundo pela igualdade.” Apesar dos poderes limitados do Presidente da República, a sua influência é clara. Há diferenças entre as candidaturas ou a igualdade de género não pesa na escolha dos eleitores? Ouvimos mulheres que apoiam as várias opções.

Catarina Pires aborda a defesa ativa dos direitos das mulheres, citando António Filipe Foto: DR
13 de janeiro de 2026 às 14:59 Maria Afonso

Catarina Pires, jornalista 

"Mesmo com poderes limitados, penso que a eleição de António Filipe como Presidente da República fará a diferença na vida das mulheres portuguesas, garantindo antes de mais que esta não mude para muito pior, que é o cenário que se desenha com a direita e a extrema-direita no poder. Sei que António Filipe defenderá firmemente a Constituição da República Portuguesa, aprovada há 50 anos, que enterrou a anterior – da ditadura fascista de que tantos parecem ter agora saudades – que dizia que todos os cidadãos eram iguais perante a lei, «salvas, quanto à mulher, as diferenças resultantes da sua natureza e do bem da família». 

PUB

É fundamental lembrar que o Código Civil anterior à revolução de 25 de Abril de 1974 determinava que os homens eram os chefes de família, cabendo às mulheres o governo doméstico. Eles estavam habilitados a dispor do salário delas, a proibi-las de trabalhar fora de casa ou a rescindir-lhes o contrato. Elas tinham legalmente o domicílio do marido e eram obrigadas a residir com ele, que tinha o direito de abrir a correspondência delas. E se elas fossem apanhadas em flagrante adultério, sentenciava o Código Penal que, se eles as matassem, a pena não ultrapassaria um desterro de seis meses na comarca vizinha. As mulheres não podiam viajar para o estrangeiro sem autorização do marido, o planeamento familiar era proibido e o aborto era punido em qualquer circunstância, com pena de prisão de dois a oito anos. 

Os últimos 51 anos têm sido feitos de lutas e conquistas de direitos para as mulheres, respaldadas na Constituição da República saída da Revolução de Abril. A igualdade na lei ainda não tem total correspondência na vida, mas muito já foi conquistado. E neste momento está em risco. Além da ameaça de uma revisão constitucional, que é real, estamos já a sofrer graves retrocessos. Dois exemplos concretos: o trabalho e a saúde. 

O pacote laboral apresentado pelo atual governo, além de liberalizar os despedimentos e aumentar a precariedade, medidas que sabemos que afetam mais as mulheres que os homens, limita ou elimina em particular direitos das mulheres-mães-trabalhadoras. O progressivo desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde, que afeta todos os portugueses, prejudica particularmente as mulheres, com o encerramento de maternidades e urgências de obstetrícia, que tem empurrado muitas mulheres para os privados (as que podem pagar ou têm seguros de saúde) e dado origem a uma nova tendência: os partos em ambulâncias ou na beira da estrada. 

Na sua declaração de candidatura, António Filipe afirmou de forma clara e contundente a defesa incansável dos direitos dos trabalhadores, dos direitos das mulheres e do Serviço Nacional de Saúde. Não é de agora esta afirmação, é de sempre e tem pautado a ação e intervenção política do meu candidato. Vejo em António Filipe uma posição de respeito profundo pela igualdade, pelos direitos sociais e pela Constituição. A diferença face a outros candidatos está precisamente aí: não instrumentaliza os direitos das mulheres, não os subalterniza relativamente a outras agendas e não os trata como “conquistas adquiridas” que já não precisam de defesa ativa. "

PUB

Este testemunho faz parte do artigo ""com entrevistas a apoiantes de diferentes candidatos.

PUB
PUB