Uma série para ver esta semana: 'Contra a Lei', relato de uma mãe que enfrentou o sistema
A história real da britânica Ann Ming é reinventada em quatro episódios que cruzam dor, luto e vontade de fazer justiça. Disponível na Filmin.
"Heated Rivalry é assim tãooooo boa? Só vi raparigas hetero obcecadas pela série." É com este tom provocatório de quem já sabe ao que vai que começa o tópico de discussão publicado há 20 dias no Reddit. A resposta? Mais de 300 comentários acalorados. Mas, sinceramente, não precisaríamos ir às profundezas da web (é o que sinto cada vez que uma pergunta que faço no Google acaba num fórum) para perceber que sim: só pode ser assim tãooooo boa se o mundo inteiro não se cala com ela.
Só que, o que acontece quando algo se torna viral? Eu perco o interesse. A terapia poderá explicar, ou o meu mapa astral também, mas simplesmente a vontade de ver, fazer, ficar na fila desvanece-se. No entanto, quando digo “mundo inteiro”, estou a falar das pessoas mais fixes do meu Instagram. Então, lancei o repto e pedi para me convencerem a passar o fim de semana colada à televisão.
O que eu sabia até agora, sem ter visto nada? Dois jogadores de hóquei gays, dois novos crushes de Hollywood - Hudson Williams e Connor Storrie -, bons corpos… okay, ótimos corpos, um romance com pouco ou nada a esconder, uma produtora pequena que decidiu arriscar, e cenas de sexo capazes de fazer todas as mulheres hetero que conheço quererem dormir com estas personagens (e assim eliminei as pistas que me levavam a compará-la à toxicidade masculina de As 50 Sombras de Grey).
O que pesquisei para escrever esta introdução e que me chamou atenção? A série acompanha Shane Hollander (Hudson), capitão do Montreal Voyageurs, e Ilya Rozanov (Connor), estrela russa do Boston Bears. No gelo, são rivais declarados; fora das arenas, porém, essa animosidade esconde um romance secreto e duradouro. A série teve a sua pré-estreia no Image+Nation LGBTQ+ Film Festival, em Montreal, em novembro de 2025, onde foi recebida com bastante entusiasmo. A crítica destacou a segurança da direção, a sensibilidade do roteiro e, sobretudo, as performances do casal protagonista.
Depois, há uma série de factos que parecem ficção, mas não são - e que só aumentam o interesse. Por exemplo, o facto da autora Rachel Reid (nome verdadeiro Rachelle Goguen) ter escrito no seu blog meses antes de tudo acontecer: "Escrevo romances queer sexualmente explícitos sobre jogadores de hóquei. Vocês provavelmente sabem disso, mas digo porque não me sinto confortável para contar isso para todos." Agora, a adaptação do seu livro "obsceno", como ela própria descreve, é uma das séries mais comentadas da TV. Apesar da sua representação sincera de relacionamentos LGBTQIA+ e do mundo do desporto, houve quem menosprezasse a história e a rotulasse como "a série do hóquei gay". Mas Reid não se preocupa: "Se gostas dela, provavelmente estás do lado certo em muitas questões." E eu gosto de ser do contra mas gosto ainda mais de estar do lado certo.
'Viciados' em Heated Rivary sobre os motivos por que temos mesmo de ver esta série
Daniel Gorjão: "Se Heated Rivalry importa, é porque suspende o estado de exceção que durante séculos regulou certos afetos. Uma história sobre desejo que não pede licença, sobre masculinidades em fricção e intimidade que cresce no silêncio dos bastidores. Entre ringues, rivalidade e encontros secretos, a série desmonta a ideia de amor fácil e propõe algo mais raro: intimidade construída. Não é sobre vencer, mas sobre permanecer. E permanecer, às vezes, é o ato mais radical."
Mónica Bozinoski : "Uma boa história de amor tem o poder de nos seduzir, fascinar e agarrar, e Heated Rivalry não foge a este “chokehold” que o romance enquanto género tem. Sim, é uma série romântica, altamente sexy e arrisco-me a dizer viciante, mas não se reduz apenas a isso. É uma história queer que se desprende de cliches, e que entra pelo nosso ecrã como uma necessária lufada de ar fresco. É a prova que os espectadores anseiam por mais - mais representatividade e celebração, em particular de uma comunidade que tantas vezes se vê retratada por uma lente de estereótipos, ou não retratada de todo; e mais histórias onde intimidade, tensão e sexo são apresentados de forma real e vulnerável, com inteligência, “humor” e humanidade, e sem violência ou masculinidade tóxica. Além disso, é impossível ignorar a química dos dois atores principais, e a forma como se entregam aos papéis de Ilya e Shane. Independentemente de identidade ou orientação, acho que todos conseguimos sentir empatia e conexão com estas personagens. Afinal de contas, quem não deseja ser visto, compreendido, amado e livre para amar?"
Diogo Ortega: "É uma série feel-good, com coração e humor, que faz bem ver porque acredita na ternura, na química e na possibilidade de um final feliz, sem cinismo. Ao acompanhar uma rivalidade intensa que se transforma numa história de amor, abre espaço para alargar horizontes e mentalidades, desmontando preconceitos sobre masculinidade, desejo e intimidade num meio ultra competitivo. E há ainda um detalhe importante: este fenómeno nasceu fora do circuito típico de Hollywood e, ainda assim, conquistou público e conversa um pouco por todo o lado, provando que quando a narrativa é honesta e bem feita, o mundo inteiro responde."
Mafalda Beirão: "No epítome daquilo a que chamam a epidemia do homem solteiro, Heated Rivalry vem mostrar-nos que ainda há homens vulneráveis - mesmo que isto seja uma série de ficção. Vem mostrar-nos a história de um amor real, sem filtros, onde o género de ambos não define a relação, onde há uma sensação de igualdade e de muita vulnerabilidade. Vivido num ambiente (que se espera ser) mais heteronormativo, é uma história de amor que quebra as nossas expectativas sociais e que nos dá um quentinho no coração até nos momentos mais sexuais."
Davide Sá: "Heated Rivalry prova que um orçamento limitado nunca impediu a ambição artística. Com poucos meios, a série constrói uma história rara e genuína sobre amor gay, onde o romance é o centro de tudo. Há desejo, conflito, medo, vulnerabilidade e ternura, tratados com verdade e sem filtros. A representatividade surge de forma natural e honesta, e é isso que torna a série tão especial. Heated Rivalry fez-me rir, entristeceu-me e emocionou-me, lembrando que as boas histórias não precisam de pedir licença para tocar em quem vê."
Cláudia Barros: "É reconfortante ver uma série romântica e sexualmente explícita em que nenhum dos sujeitos é mulher. Acho que, inconscientemente, isso permitiu-me desligar estereótipos que, de outra forma, poderia tentar projetar nas personagens. Ver homens que exteriormente representam tudo o que a sociedade define como másculo e poderoso, em momentos de vulnerabilidade e intimidade, parece-me, na verdade, um ideal profundamente feminino. Algo que a maioria de nós, mulheres, procura."
Vitor Machado: "Heated Rivalry consegue não cair naquela vala comum das séries mainstream repletas de plot twists e acções dramáticas. Em vez disso, consegue contar-nos uma história que fala sobre desejo e sobre amor na sua forma mais pura e mais genuína: sem jogos, sem reservas e onde a vulnerabilidade (especialmente a vulnerabilidade masculina) não é propriamente uma questão. Se tudo isto é um pouco fantasioso? Sim. Não porque esta forma de nos relacionarmos seja impossível, mas porque em tempos de "amor líquido" é difícil de encontrar (ainda que seja a que mais desejamos). Ainda assim, é esta forma de a representar que faz com que a série seja tão apaixonante, envolvente e reconfortante - isso e uma série de cenas quentes marcadas por abdominais, peitorais e rabos bem esculpidos."
Inês Gonçalves: "É ousado mas acho que era impossível terem feito melhor, principalmente se tivermos em conta os detalhes desta produção canadiana low-budget. Jacob Tierney provou dominar o campo da realização. Para qualquer “cromo” de cinema (eu incluída), é encantador olhar para a dimensão técnica desta produção. A fotografia, a beleza e o jogo de luzes com que as cenas de sexo são feitas, a banda sonora e, claro, a perfomance dos actores, é inquestionável. Principalmente se mantivermos presente a ideia de que contaram com um orçamento significativamente inferior ao que é comum a qualquer produção americana. Afinal, quantas de nós acreditámos até ao fim que o Connor Storrie (Ilya) era um actor russo? É difícil não ficar seduzida com o facto de este jovem de 25 anos fazer um monólogo em russo e ser praticamente inegável o domínio da língua, que aprendeu de propósito para este papel. Não falo sequer de como essa cena me destroçou emocionalmente. Estou só a falar de como é tecnicamente perfeita. Acredito, também, que esta série consegue algo raríssimo actualmente, que é trazer mais complexidade a uma narrativa do que aquela que está presente nos livros que a inspiraram, mas sobre isto não me posso alongar porque ainda não li os livros da Rachel Reid."
Matilde Azevedo Neves: "Sempre fui fã de comédias românticas. No entanto, nos últimos anos, substituí When Harry Met Sally ou Pretty Woman por comédias românticas queer, como Bros, Fire Island e Heartstopper. Sendo uma mulher heterossexual, revejo-me no tipo de relação que procuro no universo televisivo queer, onde o desejo, a sexualidade e o amor não estão colados a papéis de género. E onde modelos de masculinidade tóxica são vistos negativamente. Ao contrário das romcoms clássicas, onde o homem detém o poder, financeiro ou emocional, sobre a mulher, ou do arquétipo recorrente do homem perdido que precisa de uma mulher que o salve, estas narrativas propõem algo diferente. Esses modelos não espelham a sociedade em que queremos viver, nem representam o desejo feminino do século XXI. Nestes romances, um cuida do outro, um cresce com o outro, e surgem diferentes modelos relacionais que não passam necessariamente pelo casamento ou pela procriação. Devemos ver Heated Rivalry (Rivalidade Ardente) porque é uma história sobre amor, esperança, beleza e relações humanas baseadas na compreensão e no perdão, num mundo cada vez mais polarizado, triste e pesado. Precisamos de ver representações de masculinidades saudáveis. Precisamos de ver amor, relações de equidade e não de poder. Precisamos de nos lembrar de que, sem preconceitos, o mundo seria muito mais bonito."