O que aprendemos sobre sexo quando ninguém nos ensina a falar sobre ele?
Em Portugal, a educação sexual é obrigatória nas escolas há mais de uma década. Mas entre saber colocar um preservativo e saber reconhecer desejo, pressão, consentimento, intimidade ou uma relação abusiva existe um território inteiro. Numa geração que cresce com o sexo a um clique de distância, talvez a pergunta já não seja se devemos falar sobre sexualidade com os jovens. É perceber quem queremos que lhes explique primeiro.
A primeira aula de educação sexual de um adolescente pode não acontecer numa sala de aula. Pode acontecer num vídeo que apareceu sem ser procurado, numa conversa de grupo, numa pesquisa feita de madrugada com o telemóvel debaixo dos lençóis, num comentário no TikTok ou na história exagerada de um amigo que também não sabe muito bem do que está a falar. A informação chega. Isso é praticamente inevitável. O conhecimento, nem sempre.
E talvez seja precisamente aí que começa uma das conversas mais desconfortáveis - e mais urgentes - sobre educação sexual: durante demasiado tempo, comportámo-nos como se o silêncio dos adultos pudesse proteger os mais novos da sexualidade. Entretanto, a internet encarregou-se de preencher esse silêncio. "Os adolescentes têm acesso a muito mais informação, mas isso não significa necessariamente que estejam mais bem informados”, diz a sexóloga Catarina Lucas, em conversa com a Máxima. “A internet oferece conteúdos de qualidade muito variável e nem sempre os jovens têm ferramentas para distinguir fontes credíveis.”
Ter acesso a informação sobre sexo não significa ter literacia sexual. Saber o que é uma infeção sexualmente transmissível não significa saber reconhecer manipulação; conhecer a existência de contracetivos não ensina ninguém a dizer 'não'; perceber como acontece uma gravidez não ajuda necessariamente a saber se se está pronto para iniciar uma vida sexual. E conhecer corpos através da pornografia está longe de ser o mesmo que compreender intimidade. Talvez, então, a educação sexual precise de começar precisamente por deixar de ser apenas sobre sexo.
Em Portugal, não estamos perante uma novidade pedagógica. A educação sexual em meio escolar está consagrada desde a Lei n.º 60/2009 e aplica-se aos ensinos básico e secundário. A regulamentação prevê um mínimo de seis horas anuais nos 1.º e 2.º ciclos e de 12 horas no 3.º ciclo e ensino secundário. E aquilo que está previsto é bastante mais abrangente do que a caricatura habitual da aula dedicada ao aparelho reprodutor, ao preservativo e às infeções sexualmente transmissíveis: desde cedo surgem temas relacionados com o corpo, a privacidade, os limites e a proteção perante situações abusivas; mais tarde entram a puberdade, a dimensão emocional da sexualidade, a diversidade, a violência e as pressões emocionais e sexuais.
Um trabalho mais recente, publicado em 2024 na Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar e realizado com 572 adolescentes entre os 13 e os 19 anos na Área Metropolitana do Porto, encontrou também uma relação clara entre conhecimento e atitudes: quanto maior era o conhecimento dos jovens sobre sexualidade, menor era a presença de crenças limitantes e atitudes negativas. Os próprios investigadores identificaram, porém, uma tensão que permanece nas escolas: a tendência para reduzir a educação sexual à anatomia, às infeções e à prevenção da gravidez, quando as necessidades dos adolescentes são muito mais vastas. "Hoje sabemos que falar apenas de sexo é insuficiente. É fundamental incluir temas como relações saudáveis, consentimento, autoestima, respeito pelos limites, prazer e segurança emocional", explica a sexóloga.
Uma das maiores resistências à educação sexual surge quase sempre acompanhada da mesma pergunta: não será cedo demais? Mas a pergunta parte de uma confusão - a ideia de que educação sexual infantil significa explicar práticas sexuais a uma criança. Não significa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) defende uma aprendizagem progressiva e adequada ao desenvolvimento: nos primeiros anos, falar de sexualidade significa falar do corpo, das emoções, da privacidade, de segurança e de limites. Os conteúdos tornam-se mais complexos à medida que a criança cresce. Catarina Lucas acresceta que "não se trata de antecipar conversas sobre atividade sexual, mas de dar ferramentas para compreenderem o próprio corpo e se protegerem”. Ensinar uma criança que pode recusar um beijo que não quer dar é educação para o consentimento. Explicar-lhe que algumas partes do corpo são privadas também é educação sexual. A sexualidade não começa na primeira relação sexual: a relação com o corpo, com a intimidade, com os limites e com o afeto começou muito antes.
Talvez seja essa uma das grandes diferenças entre educação sexual e “a conversa sobre sexo”. A primeira não deveria acontecer numa noite solene, quando um adolescente já tem 15 anos e um progenitor, nervoso, decide que chegou finalmente 'a altura'. Constrói-se ao longo dos anos, em dezenas de pequenas conversas. Também o consentimento precisa de ir além da fórmula “não é não”. Um jovem precisa de compreender que alguém pode mudar de ideias, que ter consentido uma vez não significa consentir sempre, que uma relação amorosa não cria uma obrigação sexual e que insistir até alguém ceder não transforma pressão em vontade. Para Catarina Lucas, é precisamente por isso que o tema não deve ser ensinado através do medo. “O consentimento aprende-se através de exemplos concretos e de situações do quotidiano. É importante mostrar que consentir significa escolher livremente, sem pressão, e que o consentimento pode ser retirado a qualquer momento. Em vez de discursos moralistas, devemos promover reflexão, empatia e comunicação."
E depois há uma palavra que ainda deixa muitas salas desconfortáveis: prazer. Deve uma escola falar dele? “O prazer faz parte da sexualidade humana e ignorá-lo cria uma visão incompleta da realidade”, responde a sexóloga. “Falar de prazer não significa incentivar comportamentos, mas ajudar os jovens a compreender que a sexualidade envolve bem-estar, respeito e responsabilidade.” Não se trata de transformar uma sala de aula num manual de técnicas sexuais, mas de ensinar que a sexualidade não deveria ser uma coisa que uma pessoa faz à outra; que o conforto de ambos interessa; que não existe obrigação de corresponder a expectativas; que desejo, consentimento e respeito precisam de coexistir.
É também aqui que entram as mensagens que os jovens absorvem fora da escola. Há uma diferença profunda entre os adolescentes de hoje e praticamente todas as gerações anteriores: nunca foi tão fácil encontrar imagens, narrativas e opiniões sobre sexualidade. Uma pesquisa pode responder, em segundos, a uma pergunta que há 20 anos exigiria coragem para ser colocada a um adulto. Isso pode ser particularmente importante para jovens que não encontram em casa ou na escola espaço para falar sobre determinadas experiências, corpos, orientações ou identidades. Mas existe o reverso: nunca foi tão necessário saber distinguir informação de desinformação, e representação de realidade.
A pornografia é o exemplo mais evidente. “Pode transmitir ideias pouco realistas sobre consentimento, prazer, desempenho e aparência física”, alerta Catarina Lucas. A investigação disponível aconselha, porém, alguma cautela perante discursos alarmistas: embora vários estudos encontrem associações entre consumo de pornografia e determinados comportamentos ou atitudes sexuais, estabelecer relações simples de causa e efeito continua a ser difícil. Talvez a questão mais útil seja outra. Se os jovens vão contactar com estes conteúdos, quem lhes dará ferramentas para os interpretar?
Uma cena pornográfica é uma representação produzida para consumo, não uma aula sobre relações humanas. E as redes sociais acrescentam outra camada, transformando frequentemente o corpo numa montra permanentemente comparável: mais definido, mais liso, mais magro, mais curvilíneo, mais desejável. A educação sexual contemporânea passa, por isso, também pela literacia digital - por ensinar a perguntar quem produziu aquela imagem, com que intenção e até que ponto aquilo que aparece num ecrã representa corpos, relações ou expectativas reais.
“As dúvidas que muitos adolescentes trazem para consulta são sobre corpo, desejo, masturbação, orientação sexual, relações amorosas e inseguranças pessoais”, conta Catarina Lucas. “Frequentemente sentem vergonha ou receio de serem julgados.” E resume talvez a principal falha de comunicação entre gerações numa frase: “Os adultos focam-se mais nos riscos, enquanto os adolescentes procuram compreender-se a si próprios.”
Há ainda um medo difícil de erradicar: o de que falar sobre sexo faça com que os jovens iniciem a vida sexual mais cedo. A evidência reunida pela OMS aponta no sentido contrário. Programas abrangentes e bem implementados não aumentam a atividade sexual nem antecipam o início das relações sexuais e podem contribuir para decisões mais seguras, maior utilização de contraceção e preservativo e menos comportamentos de risco. Os números portugueses ajudam também a colocar a discussão em perspetiva. No estudo HBSC de 2022, que envolveu 5809 jovens, 84,8% dos alunos do 8.º e 10.º anos diziam ainda não ter iniciado relações sexuais. Entre os sexualmente ativos, porém, o uso do preservativo tinha descido ligeiramente face a 2018. Não estamos, portanto, perante uma geração que precise de ser convencida a não pensar em sexo. Estamos perante jovens que precisam de conseguir tomar decisões quando chegar o momento.
E quem deve prepará-los para isso? Professores, psicólogos, enfermeiros, sexólogos? Para Catarina Lucas, o ideal passa por “equipas multidisciplinares que integrem diferentes competências e perspetivas”. Mas existe outra peça inevitável: a família. Não como substituta da escola, nem a escola como substituta da família. “Escola e família devem ser parceiras, não alternativas uma à outra”, defende. Nem todos os pais chegam a esta conversa com a mesma facilidade. Há quem tenha crescido em casas onde a palavra sexo nunca foi dita à mesa; quem queira responder mas não saiba como; quem carregue vergonha ou simplesmente não tenha vocabulário. “O primeiro passo é perceber que não é preciso ter todas as respostas para iniciar a conversa. Aproveitem situações do dia a dia, façam perguntas e escutem sem julgamentos.” Mais importante do que uma conversa perfeita, acrescenta, é “criar disponibilidade para muitas conversas ao longo do tempo”.
Quando lhe perguntamos que frase gostaria que todos os adolescentes ouvissem antes de iniciarem a vida sexual, Catarina Lucas responde: “Não existe uma idade certa nem uma pressão que tenha de ser seguida. O mais importante é que a decisão seja livre, consciente, informada e respeitadora dos seus próprios limites. Ninguém deve sentir-se obrigado a fazer algo para agradar aos outros.”
Édouard Louis, escritor. "Quando era criança e sofria violência na escola por ser homossexual, dizia a mim próprio que um dia contaria essa história"
O escritor francês fez da sua autobiografia um instrumento de intervenção política e uma forma de dar voz às experiências de violência, pobreza e exclusão. A propósito da publicação em Portugal de Mudar: Método e Colapso, reflete sobre mobilidade social e o poder transformador da cultura. Encontro em Lisboa.
“Are you Brazilian? Oh, I love Brazilian women!”
Por que as mulheres brasileiras ainda são constantemente sexualizadas pela imaginação global? Como as relações de poder influenciam quem é chamado de promíscua e quem é chamado de livre?
Lídia Franco fala sobre sexualidade e recorda as restrições antes do 25 de Abril: "A história repete-se"
Atriz, bailarina e uma das figuras mais marcantes da interpretação portuguesa, conversa com a Máxima sobre o que significa pertencer a uma geração que aprendeu a viver a sexualidade entre silêncios, conquistas e direitos que hoje voltam a parecer ameaçados.