Édouard Louis, escritor. "Quando era criança e sofria violência na escola por ser homossexual, dizia a mim próprio que um dia contaria essa história"
O escritor francês fez da sua autobiografia um instrumento de intervenção política e uma forma de dar voz às experiências de violência, pobreza e exclusão. A propósito da publicação em Portugal de Mudar: Método e Colapso, reflete sobre mobilidade social e o poder transformador da cultura. Encontro em Lisboa.
Édouard Louis tem uma beleza angelical. Olhos azuis e cabelo loiro, corpo longilíneo e mãos compridas que se movimentam de forma doce e contida quando tenta explicar as suas ideias. No seu universo literário, a violência surge escrita de forma poética e incisiva. Está em Lisboa para apresentar o livro em que conta como transformou as vivências da sua infância pobre, no norte de França, num caminho literário e intelectual: Mudar: Método.
As agressões homofóbicas estão no centro do seu primeiro romance, publicado em 2014, Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule. Foi recebido em França com entusiasmo e choque e era um verdadeiro ovni literário. Nele contava como cresceu no seio da classe operária e sofreu bullying na escola e em casa por não corresponder aos padrões de masculinidade exigidos à sua volta. Quando apareceu na televisão, nesse mesmo ano, para promover o livro, causou um enorme impacto. Muitos não acreditavam que fosse possível existir tanta violência num país como França. A forma como se exprimia desafiava também a perceção que os outros tinham dele. Como podia um anjo contar tanta violência?
Desde então, tem-se empenhado em retratar uma sociedade que esmaga a diferença e procura oprimir os mais vulneráveis. Inspira-se na história da sua família para escrever romances autobiográficos. Em Quem Matou o Meu Pai, Édouard Louis faz da história do pai uma acusação às políticas que aprofundam a desigualdade social. Em Colapso, conta a violência que percorre o corpo do irmão que, perante os sonhos frustrados, procura a redenção no álcool. A sua escrita é universal e tem percorrido o mundo. Nos escritórios da sua editora, a Penguin, fala sem nunca perder de vista o propósito que orienta toda a sua obra.
No teu primeiro livro Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule escreves sobre a forma como a injúria homofóbica ficou gravada em ti como uma cicatriz. Olhando para trás, é possível pensar que a violência acabou, paradoxalmente, por contribuir para a tua emancipação?
É um dos paradoxos que tento explorar nos meus livros. A violência e os insultos homofóbicos destruíram-me durante muito tempo. Mas foi isso que me obrigou a partir. Por ter sido insultado, rejeitado e excluído, senti que não tinha alternativa senão fugir. Essa fuga permitiu-me estudar, fui o primeiro da minha família que estudou, e assim escapei à pobreza. Construi uma vida diferente da que parecia estar destinada para mim. Por vezes penso que, se tivesse uma máquina do tempo, talvez nem impedisse esses momentos em que me cuspiam em cima e me chamavam paneleiro. Não porque a violência seja desejável ou justificável, mas porque, paradoxalmente, ela contribuiu para a minha sobrevivência. Evidentemente, não podemos transformar isto num elogio à violência. Não podemos dizer que ao humilhar alguém o estamos a tornar mais livre. É precisamente essa contradição que considero tão difícil e tão fascinante.
Nessa altura não existia a palavra bullying, digamos que o termo é relativamente recente. Mesmo quando eras agredido na escola voltavas para casa com vergonha e sem saber muito bem como explicar o que te tinha acontecido?
Sim chamávamos a isso a violência. Nos meus livros, é precisamente isso que permite à minha mãe, enquanto mulher, emancipar-se mais do que ao meu pai. O meu pai, enquanto homem, sempre acreditou que tudo era resultado das suas próprias escolhas. Falo disso em Quem Matou o Meu Pai. Era violento porque achava que era isso que significava ser um homem. Bebia porque era isso que fazia um homem. A minha mãe, pelo contrário, enquanto mulher, nunca teve a sensação de que decidia verdadeiramente a sua vida. Durante muito tempo, foram os homens que lhe disseram: “Ficas em casa, cuidas dos filhos, não trabalhas, tratas da casa.”
Foi precisamente por isso que, um dia, ela conseguiu dizer: “Vou recuperar aquilo que a sociedade me roubou.” (num livro inédito em Portugal conta a experiência da mãe, Combats et Métamorphoses d'une Femme) O meu pai nunca conseguiu fazer esse movimento porque estava convencido de que a vida que tinha levado era fruto das suas próprias escolhas. Não sentia que houvesse algo que lhe tivesse sido retirado e, por isso, também não tinha nada a recuperar.
É um padrão que encontro repetidamente nos personagens dos meus livros. Muitas vezes, os chamados “perdedores” são aqueles que conseguem escapar. As mulheres, os homossexuais e outras pessoas sujeitas a formas de dominação acabam, por vezes, por encontrar caminhos de libertação. Já aqueles que ocupavam posições de força dentro do seu próprio meio social podem acabar por colapsar. Sabemos, aliás, que este fenómeno existe em termos sociológicos. Em França, por exemplo, as mulheres das classes populares vivem, em média, mais anos do que os homens do mesmo meio social e obtêm mais qualificações académicas. Isso não significa que a dominação tenha desaparecido. Pelo contrário: significa que, por vezes, a própria violência gera processos inesperados de emancipação. Isso interessa-me muito, tento mesmo perceber esse mistério da violência e da dominação.
Nos dias de hoje existe uma visibilidade muito maior para as questões identitárias. As redes sociais permitem encontrar pessoas com experiências semelhantes e criar comunidades. Vês nisso uma continuação do trabalho que a tua literatura realiza?
Tenho vontade que a minha literatura se inscreva num movimento de transformação do mundo. O meu próprio trabalho só foi possível porque houve movimentos anteriores que transformaram o mundo. Sem as marchas da gay pride, sem o Stone Wall em Nova Iorque ou sem todas as pessoas que reivindicaram direitos LGBTQI+ antes de mim, talvez eu nunca tivesse encontrado a coragem necessária para escrever da forma como escrevi. É graças a essas transformações que novas vozes podem surgir. Há algo nesse movimento que tornou possível a minha procura literária. Nos dias de hoje há outras transformações a surgir no mundo, penso que podem ajudar outras a tomar a palavra.
Tens referido várias vezes, no Instagram, a relação especial que os teus livros estabeleceram com os leitores brasileiros. Como explicas essa identificação tão forte? Sentes que falas diretamente com os trânsfugas de classe?
Há países onde as transformações sociais acontecem de forma muito rápida e intensa. O Brasil é um desses casos. Durante determinadas fases da sua história recente, durante o primeiro mandato do presidente Lula, milhões de pessoas tiveram acesso à educação, e a oportunidades que antes lhes estavam vedadas. Existe hoje toda uma geração que foi a primeira da família a frequentar o ensino superior, a mudar-se para uma grande cidade, a ler regularmente ou a
construir uma vida diferente da dos seus pais. Essas pessoas vivem uma experiência muito específica: deixam de partilhar as mesmas referências culturais da família e sentem uma distância crescente em relação ao meio onde cresceram. Essa dor é muito singular. É a experiência de já não pertencer completamente ao lugar de onde se veio e de ainda não pertencer totalmente ao lugar para onde se vai. Apesar da dimensão global deste fenómeno, a literatura dedicou-lhe relativamente pouca atenção, houve a escrita da Annie Ernaux, da Violette Leduc ou do Didier Eribon, mas pouco mais.
Quando pensamos nos milhões de brasileiros, nos milhões de chineses e em tantas outras pessoas que viveram processos semelhantes, percebemos que estamos apenas no início de uma reflexão literária sobre esta realidade.
Apesar das mudanças sociais, continua a acreditar que a educação é a principal ferramenta de mobilidade social?
A educação continua a ser central. O problema é que não basta tornar a educação acessível. É também necessário que as pessoas a desejem. Quando era criança, muitas pessoas à minha volta diziam que a escola não lhes interessava. Não era apenas uma questão de acesso. Sentiam-se rejeitadas pela instituição escolar e, em resposta, rejeitavam-na também.
A escola representava valores culturais que pareciam incompatíveis com os valores do meio social de origem. E havia, frequentemente, um sentimento de humilhação.
Fala-se frequentemente dessa sensação de humilhação associada ao acesso à cultura, não é?
Sim. A cultura possui um paradoxo muito particular. Embora procure frequentemente emancipar as pessoas, é também vivida por muitos como uma experiência de exclusão. Quando alguém fala de autores, filmes ou referências que desconhecemos, sentimos imediatamente uma forma de inferioridade. Isso não acontece apenas nas classes populares. Quase toda a gente já viveu esse momento de desconforto perante alguém que parece dominar códigos culturais que não possuímos. O paradoxo é que aquilo que deveria libertar pode ser sentido como uma agressão. Muitas pessoas sentem-se mais humilhadas por não conhecer um escritor ou um realizador do que pela desigualdade económica que efetivamente condiciona as suas vidas. Os meus pais ao verem o salão dourado de Trump ficariam certamente sonhadores. O que os faz sonhar deveria pelo contrário fazê-los sentir-se humilhados e vice-versa.
Por isso, quem trabalha na cultura e em literatura deve interrogar-se constantemente sobre a forma como pode reduzir essa violência simbólica. O ponto de partida não pode ser a ideia ingénua de que a cultura une automaticamente todas as pessoas. A realidade é mais complexa do que isso.
No teu livro O Colapso, falas da trajetória do teu irmão e da forma como a ausência de oportunidades condicionou profundamente a sua vida. O que distingue alguém que consegue recomeçar de alguém que fica preso ao fracasso?
Uma das grandes diferenças entre as classes sociais está precisamente na possibilidade de falhar. Nas classes mais privilegiadas, um fracasso raramente é definitivo. Se um percurso não resulta, existe quase sempre uma alternativa. Há recursos financeiros, apoio familiar e novas oportunidades. Nas classes populares, muitas vezes não existe uma segunda hipótese. Um erro pode tornar-se irreversível. Foi isso que aconteceu com o meu irmão. Como tantas outras
pessoas, ele tentava constantemente encontrar uma saída. O problema é que todos os instrumentos que tinha à disposição acabavam por o afundar ainda mais. Os sonhos delirantes que ele tinha que se tornavam fantasias impossíveis de alcançar. O álcool surgia assim como fuga e transformava-se em destruição. A violência física contra os outros oferecia uma sensação momentânea de poder, mas acabava por o isolar ainda mais. Quanto mais se tenta escapar, mais se fica preso. Não porque essas pessoas não queiram mudar de vida, mas porque os recursos disponíveis no mundo raramente conduzem à emancipação. É isso que tento contar no meu livro o Colapso.
Em Mudar: Método falas da sensação de ter vivido muito demasiado cedo (o bullying etc), e falas da dificuldade de continuar a pertencer ao mundo das tuas origens. Porque quiseste escrever sobre essa experiência?
Escrever esse livro foi como criar um espaço para a melancolia daquele que mudou de classe. Porque existe uma melancolia muito particular associada à mobilidade social, e quase não existem espaços para falar dela.
Se uma pessoa sofre por causa da sua orientação sexual, pode encontrar movimentos e espaços de reivindicação como a gay pride. Se sofres enquanto mulher, existem lutas feministas. Se sofres por causa da pobreza, existem movimentos sociais. Mas quando alguém muda de classe social e deixa de conseguir comunicar com os próprios pais, não existe um espaço político para expressar essa dor, não há um espaço para dizer, “já não consigo falar com o meu pai”. É um sofrimento profundamente político porque resulta da estrutura das classes sociais. No entanto, permanece frequentemente invisível. Quis escrever esse livro precisamente para dar um lugar a essa forma de sofrimento.
A tua primeira passagem na televisão em França em 2014, no programa La Grande Librairie, foi seguida de um grande entusiasmo, houve quase um tsunami mediático. As pessoas queriam saber se a tua história era verdadeira ou não. Grande parte da tua obra assenta na autobiografia. Como te chegou essa forma de escrita?
Nunca senti que tivesse verdadeiramente outra escolha. Quando era criança e sofria violência na escola por ser homossexual, dizia a mim próprio que um dia contaria essa história. Sentia que contá-la seria simultaneamente uma forma de sobrevivência e uma forma de vingança.
Muito cedo compreendi que a narração podia fazer-me sobreviver. Tornou-se algo muito presente no meu corpo de criança. Quando mais tarde comecei a escrever livro senti que o meu corpo não me deixava outra escolha, eu tinha de testemunhar a violência. Mas esta relação entre autobiografia e violência não é apenas pessoal. Basta olhar para a história da literatura autobiográfica ao longo do último século. Grande parte dela foi escrita por mulheres, pessoas negras, homossexuais, sobreviventes de guerras ou de perseguições. A autobiografia tornou-se, progressivamente, o género dos dominados.
Antes, escrever sobre si próprio era um privilégio reservado aos poderosos: reis, aristocratas, generais, filósofos. Hoje, muitas das grandes obras autobiográficas nasceram da experiência da exclusão ou da violência. Há algo de profundamente ligado entre a necessidade de testemunhar e a necessidade de escrever sobre a própria vida. A literatura autobiográfica incomoda porque mostra aquilo que preferimos não ver. O Salman Rushdie escreveu só duas vezes dois textos autobiográficos, quando lhe foi lançada uma fatwa (por ter escrito os Versículos Satânicos), e quando um terrorista o tentou matar em palco (em julho de 2022). Nos dois momentos em que foi confrontado com a violência extrema, não teve escolha e escreveu textos autobiográficos.
Ao longo da sua vida tiveste contacto com autores como Edmund White ou Garth Greenwell. Que importância teve a literatura queer na tua formação?
Há algo que considero uma das grandes riquezas da cultura homossexual: a possibilidade de criar amizades entre pessoas de gerações muito diferentes. No mundo heterossexual, as amizades tendem a acontecer entre pessoas da mesma idade. Já no universo queer existe uma longa tradição de relações intelectuais e de amizade que atravessam gerações. Isso aconteceu comigo. Tive a sorte de construir relações com escritores muito mais velhos, como Edmund White, e também com jovens estudantes que fui conhecendo ao longo dos anos. Essa circulação de experiências é extremamente rica. Quando cheguei a Paris, encontrei homens mais velhos que me transmitiram algo que a minha própria família não podia transmitir-me: uma cultura gay, uma história, uma tradição literária.
Nos últimos anos viajaste por muitos países, encontrando leitores em contextos muito diferentes. O que mais te surpreendeu?
Talvez a descoberta de que o mundo é muito mais parecido do que imaginamos. Quando viajo para o Brasil, para a China, para o Japão ou para Portugal, encontro histórias extraordinariamente semelhantes. Encontro jovens homossexuais que sofreram violência durante a infância. Encontro mulheres confrontadas com formas de dominação masculina. Encontro famílias marcadas pela pobreza, pelo alcoolismo ou pela exclusão social. As diferenças culturais existem, naturalmente. Mas há experiências humanas e mecanismos sociais que se repetem de forma impressionante. Também encontrei governos que reduzem apoios sociais, aumentam a vigilância sobre os mais pobres e responsabilizam individualmente pessoas que enfrentam problemas profundamente estruturais. Em muitos países, os discursos são diferentes, mas as dinâmicas acabam por ser surpreendentemente semelhantes. É uma luta que ultrapassa fronteiras.
Essa constatação mudou a forma como vês o teu trabalho?
Sim. Quando era criança imaginava o mundo como um conjunto de lugares radicalmente diferentes. Viajar permitiu-me perceber que, apesar das diferenças, muitas vidas seguem trajetórias semelhantes. Fez-me compreender que as questões sobre as quais escrevo não pertencem apenas a um país ou a uma cultura específica. Quando alguém reconhece o pai, o irmão ou a própria história nos meus livros, percebo que escrevo sobre experiências que atravessam fronteiras. É isso que me dá vontade de continuar a escrever e a lutar.
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