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Num mundo de homens, ela criou um império de viagem. O legado esquecido de Pauline Moynat

Foi a primeira mulher a produzir os famosos “trunks” e criou uma das mais antigas casas francesas de malas e artigos de viagem, mas o seu rosto perdeu-se no tempo. Uma edição especial da Assouline conta a sua história.

Demonstração de personalização por um artista da Moynat
Demonstração de personalização por um artista da Moynat Foto: Harald Gottschalk
18 de fevereiro de 2026 às 13:47 Madalena Haderer

Pauline Moynat. O mais provável é que o nome não lhe diga nada e, no entanto, Pauline foi a primeira mulher a vingar num mundo de homens: o dos baús de viagem, também conhecidos como trunks. Nasceu em Thonon-les-Bains, na região da Saboia e mudou-se para Paris ainda muito jovem, onde se envolveu no ofício dos artigos de viagem. Foi uma visionária do mundo do luxo parisiense do século XIX e está na origem da casa de marroquinaria Moynat, uma das mais antigas e respeitadas marcas francesas de malas e artigos de viagem. Não obstante a sua relevância, não conhecemos o seu rosto. Não sobreviveu um único retrato ou fotografia sua. Tendo vivido longe dos círculos aristocráticos que patrocinavam retratos oficiais, a visão que temos dela é feita por meio de arquivos empresariais e documentação de época. Uma invisibilidade comum a muitas mulheres historicamente relevantes, cujas contribuições sobreviveram nos textos, mas não em imagens. Para colmatar este desconhecimento, a famosa editora francesa Assouline lançou uma edição de colecção que, embora não possa apresentar-nos o rosto de Pauline, conta a história desta mulher empreendedora e à frente do seu tempo. O livro vem dentro de uma caixa protetora em pele, em formato de baú de viagem, com o padrão da Moynat. Uma edição que é, ao mesmo tempo, uma homenagem e um objeto de decoração.

Capa do livro Moynat
Foto: Editora Assouline
1 de 2 / Capa do livro Moynat
Capa do livro Moynat
Foto: Editora Assouline
2 de 2 / Capa do livro Moynat

A jovem Pauline chegou a Paris no início da adolescência, em 1849, e juntou-se aos artesãos Octavie e François Coulembier, especialistas em malas de viagem. Que esse foi o ano da fundação da maison Moynat é um exercício retrospetivo. Afinal, em 1849, Pauline era apenas uma aprendiz. Só que a aprendiz aprendeu depressa. O seu atelier ganhou, rapidamente, fama pelos seus baús refinados e acessórios de viagem inovadores. “As suas criações”, informa-nos a , “incluíam baús-roupeiro concebidos para viagens confortáveis, bem como baús de piquenique e estojos de talheres pensados para elegantes refeições ao ar livre, e ajudaram a moldar uma nova era das viagens modernas”. Afinal, o tempo de Pauline foi também o tempo da expansão dos caminhos-de-ferro e das viagens transatlânticas. E é muito provável que alguns dos seus baús ainda hoje repousem no fundo do mar, junto com os destroços do Titanic. A Moynat foi também uma das primeiras casas a criar malas adaptadas a automóveis e a oferecer peças personalizadas, atendendo às necessidades de uma clientela internacional exigente e endinheirada.

Baú de piquenique em vime (1940)
Foto: Harald Gottschalk
1 de 3 / Baú de piquenique em vime (1940)
A Moynat cultiva a arte do detalhe desde a sua origem. O envelope de couro vermelho é um elemento distintivo de alguns baús, utilizado para guardar artigos delicados ou preciosos, como documentos de viagem
Foto: Julie Chazelle
2 de 3 / A Moynat cultiva a arte do detalhe desde a sua origem. O envelope de couro vermelho é um elemento distintivo de alguns baús, utilizado para guardar artigos delicados ou preciosos, como documentos de viagem
Ferramentas dos artesãos da oficina parisiense
Foto: Harald Gottschalk
3 de 3 / Ferramentas dos artesãos da oficina parisiense

Em 1869, Pauline concluiu que o seu pequeno atelier não permitia receber os compradores com a elegância que ela julgava necessária e decidiu abrir uma boutique, no nº 1 da Avenue de L’Opéra, uma zona que se encontrava, então, em expansão e reconstrução e que é hoje uma das mais nobres da capital francesa. Em 1907, a marca abriu uma fábrica que empregava 250 artesãos, mas imagina-se que o espaço já não tenha sido inaugurado ou sequer idealizado por Pauline que, por esta altura já teria morrido, embora a data oficial do seu falecimento, tal como tantas outras coisas sobre a sua vida pessoal, não seja conhecida.

Não obstante a visão vanguardista e a aposta no trabalho artesanal de alta qualidade, a Moynat acabou por fechar, em meados do século XX. Foi, no entanto, trazida de volta à vida, no início dos anos 2010, sob a alçada do grupo de luxo LVMH, e continua a produzir malas, trunks e artigos de marroquinaria com forte herança artesanal e design parisiense. Vários modelos icónicos celebram o legado da fundadora, nomeadamente, diversas que, sazonalmente, vão sendo lançadas com o nome de Pauline.

Quando a boutique Moynat abriu as portas em 1869, foi o primeiro estabelecimento a mudar-se para a nova Avenue de l’Opéra, mesmo antes da conclusão da construção da via
Foto: Archives Moynat
1 de 2 / Quando a boutique Moynat abriu as portas em 1869, foi o primeiro estabelecimento a mudar-se para a nova Avenue de l’Opéra, mesmo antes da conclusão da construção da via
O interior da boutique Moynat na Avenue de l’Opéra no início do séc. XX
Foto: Archives Moynat
2 de 2 / O interior da boutique Moynat na Avenue de l’Opéra no início do séc. XX

Moynat, da Assouline, foi escrito pela jornalista francesa Anne Boulay, que explora a forma muito moderna como a marca equilibrava (e continua a equilibrar) expressão artística e mestria artesanal. De acordo com a editora, “o livro destaca o uso sofisticado da cor pela maison – uma assinatura que viria mais tarde a inspirar colaborações com artistas de renome como Kazumasa Nagai, Mark Hearld, Lucia Liu, Michael Samuels e Kasing Lung”.

Ricamente ilustrado com fotografias de arquivo e imagens originais, este livro acompanha a evolução de uma casa histórica que permanece discreta, elegante, inovadora e profundamente enraizada no artesanato. A edição inclui um retrato de Pauline Moynat, mas não se deixe enganar –  trata-se de um esboço imaginado pelo Studio Moynat, no ano passado. Pelos vistos, até para quem trabalha para a marca é estranho não conhecer o rosto da fundadora. 

 209 No início do século XX, os cantos dos baús Moynat eram reforçados com uma borda de couro cravejada e telhas de metal rebitadas
Foto:  Harald Gottschalk
1 de 2 / 209 No início do século XX, os cantos dos baús Moynat eram reforçados com uma borda de couro cravejada e telhas de metal rebitadas
Preparação para a aplicação final de tachas numa mala de lona castanha tamanho M
Foto:  Harald Gottschalk
2 de 2 / Preparação para a aplicação final de tachas numa mala de lona castanha tamanho M

Moynat foi lançado em Dezembro de 2025, está disponível para compra no, tem 288 páginas e custa 195 euros.

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