Fernanda Serrano: “Porque é que estamos preocupadas com a opinião de um homem sobre a nossa beleza? A única pessoa que tem de me validar sou eu”
Aos 52 anos, aquela idade em que tantos teclados anónimos (e sobretudo masculinos) decidem que as mulheres já passaram do prazo de validade, Fernanda Serrano continua tão hipnotizante como vemos nestas imagens da Máxima. Tornou-se mulher de convicções fortes, sem deixar de fazer perguntas, e encontrou a melhor forma de abordar o amor.
Acredita-se que os grandes artistas são aqueles que conseguem falhar, mostrar-se vulneráveis perante o público, mas, num mundo viciado na perfeição feminina, o envelhecimento é daquelas manchas que borram qualquer pintura. Se até dentro de casa muitas mulheres se sentem invisíveis, como se habita um corpo que se quer ideal em todas as fases da vida? No caso de Fernanda Serrano, um corpo de mãe de quatro filhos, de sobrevivente de cancro da mama e de negligência médica, mas também de modelo desde os 15 anos, de atriz no auge da sua carreira, de feminista em evolução.
A atriz, que chega para esta entrevista “como nenhuma mulher se apresenta”, diz, a rir-se, está sem maquilhagem e com os olhos verdes inchados pelas lentes de contacto, o que, inexplicavelmente, só a torna mais bonita. E não, não estamos a falar de beleza interior, embora Fernanda também a tenha em abundância, como notou Anabela Mota Ribeiro numa entrevista publicada na revista Pública em 2008, sobre a “coisa maldita” que foi a sua batalha contra o cancro. “Fernanda teve medo de morrer. Fernanda decidiu viver. Escolheu acreditar no tratamento e na cura. Desenhou sobrancelhas para dormir. Fez, como Roberto Benigni, da doença um jogo. Não jogou xadrez com a morte. Fintou-a, tendo o filho na assistência”, descreve. “La fleur du mal”, resume Anabela, ou como Fernanda tem a rara capacidade de extrair beleza do impossível.
Noutra entrevista que a atriz deu à Máxima, em 2009, a jornalista Rita Lúcio Martins deixava-se hipnotizar por esta mesma qualidade, estava Fernanda à espera do quarto filho, ainda na ressaca da doença e de um casamento em crise: “Ao vê-la, tão grávida e sorridente à minha frente, tive a certeza de que preferia falar da vida, nem que fosse de todas as suas minúcias e trivialidades”. Aos 52 anos, Fernanda Serrano conversa como se tivesse todo o tempo do mundo, talvez porque já pensou não o ter, e comporta-se como uma criança numa loja de doces, sempre à procura de experimentar qualquer coisa nova, menos numa área da sua vida, o amor.
Quando fizeste 50 anos, em 2023, escreveste um livro de memórias chamado Não há Vidas Perfeitas, mas parece que as pessoas continuam a preferir que o sejas – e que não fales de determinados assuntos. Por exemplo, tiveste algumas más reações desde que começaste a abordar publicamente a saúde íntima. O que te motivou?
Foi tudo propósito de uma consulta de rotina de ginecologia. Falo de uma série de procedimentos clínicos, não são tratamentos estéticos, que fazem parte da nova era da medicina regenerativa. E que são feitos e pensados e preparados por médicos que auxiliam mulheres, por exemplo, que tenham tido um histórico clínico como o meu, em que há sequelas de uma doença de carcinomas, gravidezes complicadas, inícios de menopausa, perimenopausa. Existem vários tratamentos clínicos para melhorar a saúde íntima das mulheres, o que se estenderá à vida do homem também, do casal. Falamos por exemplo da electroestimulação dos músculos do pavimento pélvico ou do plasma rico em plaquetas [um procedimento que pode ser feito em várias zonas do corpo e que neste caso é aplicado na região íntima para estimular a regeneração tecidular, melhorar a vascularização e a qualidade dos tecidos.]
Achas que a saúde íntima das mulheres é esquecida a partir de uma certa fase ou quando já não são férteis e, por isso, há pouca informação?
Isto deveria ser de domínio comum. Porque é uma pena, eu recebo muitas mensagens de mulheres que às vezes não têm com quem falar e, por isso, se isolam. Descobri a MS Medical Institutes e Mónica Gomes Ferreira e deparei-me com um universo totalmente desconhecido embora me considere informada. Como é que isto existe e, tal como eu, tantas outras mulheres desconhecem? Tantas pessoas me perguntam como é que foi a minha vida depois do meu próprio cancro, que aconteceu há 18 anos, e me dizem que se sentem muito sozinhas, que o casamento delas acabou, que nunca mais se sentiram mulheres, que perderam o seu lado feminino. E afinal, existem soluções. Então, pensei, já que somos um alvo fácil para tanta coisa, que sejamos também um veículo para transportar este tipo de informação tão importante.
A menopausa, as mudanças hormonais, continuam a ser muito pouco faladas. Os 40, 50, são momentos de grandes mudanças. Sentiste isso?
Sim, hormonais sobretudo. Embora eu tenha estado muito bem, não posso fazer obviamente compensações hormonais por decisão própria, mas também por aconselhamento médico, mas existem tantas outras soluções porque não utilizá-las? Outra questão que às vezes me colocam é se estamos a falar de valores acessíveis. Estamos a falar de tratamentos que podem ter prescrição médica, não é uma cirurgia estética, e que podem ser colocados em seguros de saúde. Mas claro que obviamente não fazem parte do SNS infelizmente.
Depois de uma doença tão complicada como a que tiveste, um cancro, a tua autoconfiança como ficou? Pareces ter esse lado muito bem trabalhado.
Não, na fase da doença eu não tinha esta confiança e lembro-me perfeitamente de olhar para as minhas fotografias de anos antes e pensar eu nunca mais vou voltar a ser assim tão bonita quanto era. Portanto, eu passei por essa fase. Claro. Mas a verdade, e isto é ótimo poder dizer às pessoas que estão agora a passar por protocolos clínicos destes, é que tudo passa, OK? Tudo passa e nós voltamos a ser... pessoas diferentes. Quer dizer não, eu não fiquei diferente. Passámos por aquele obstáculo, temos aquela história para contar, mas voltamos a ficar as mulheres que éramos.
A relação com o teu corpo não mudou?
Não, não mudou mesmo, mas acredito que isso possa passar na cabeça de muitas mulheres e muitos homens, porque recebo muitas mensagens de mulheres que estão a passar por isso e os maridos desistiram da relação. Nem a um amigo eu admitiria isso, quanto mais um marido. Então ele não está lá a fazer nada. Mas também já não estava há anos. Ainda bem que essa pessoa demonstrou quem é.
Assim que começámos a conversar sobre beleza, a questão de como as cirurgias plásticas está a transformar as mulheres ocorreu-te de imediato – e de forma muito convicta. Como olhas para esse fenómeno?
Da forma galopante como tudo aconteceu, acho difícil voltar-se à moderação. Ou seja, nós passámos pela fase de nada a acontecer, limitávamo-nos a envelhecer. E de repente veio a era da plasticidade. Chegámos a um ponto em que, quando às vezes olho para algumas mulheres, penso: ‘estão todas iguais’. Os cabelos iguais, os lábios iguais, os narizes iguais, as bochechas iguais, as mamas iguais, os rabos iguais, tudo igual. Ou seja, as pessoas ficam descaracterizadas. E assusta-me porque tenho três filhas, em idades em que usam muito, obviamente, os Instagrams e os TikToks e podem achar que aqueles são bons resultados. Eu não quero que elas se revejam naquele tipo de imagem. Quero que elas tenham carisma, quero que sejam mulheres com opinião, quero que sejam mulheres independentes, com liberdade de expressão, com confiança e segurança nos seus corpos, com orgulho naquilo que elas são naquilo que representam. E que se sintam mulheres dignas de acordo com aquilo que tem sido o seu percurso construído. Em vez de perder tempo com idiotices. Sim. Porque eu acho isso uma idiotice.
Esta é uma questão especialmente importante para uma atriz. Num mundo obcecado pela imagem, como encontrar o equilíbrio?
Eu, enquanto atriz, gosto de olhar para outra atriz e de a ver a sofrer. E de a ver rir com rugas, de forma desbragada. Livre. Eu gosto de ver pessoas. Eu gosto de ver pessoas na tela porque elas estão a interpretar pessoas. Eu não gosto de ver bonecos porque senão ia ler banda desenhada. E assusta-me muito que se calhar muitas outras meninas que não tenham mães e pais em casa que as orientem e que lhes digam o que é certo e o que é errado - porque a educação não se dá nas escolas – possam ser influenciadas por isto. Eu acho que o melhor é acordarmos felizes porque vamos ter um dia difícil, muito exigente, mas vamos fazer aquilo que gostamos. É o melhor procedimento estético.
Numa entrevista que deu em tempos, Meryl Streep contou que no ano em que fez 40 anos, ofereceram-lhe três papéis de bruxa, percebeu que Hollywood lhe estava a tentar dizer alguma coisa. Já sentiste o mesmo nalgum momento da tua carreira?
Não, ainda não aconteceu para já. Mas, olha... Eu comecei a trabalhar como atriz aos 20. Eu tenho 52. Mas ainda acho que tenho 28. E porquê? Para já porque ainda me sinto com muita energia. Mais até do que aos 25, aos 27, aos 28. Muita energia, muita vontade de fazer coisas. Ainda vou para o platô no início de um projeto com um nervoso miudinho, com borboletas na barriga. Enquanto eu tiver isso, eu quero continuar a trabalhar. Ainda acho que tenho muita coisa para fazer, para aprender. E lembro-me de aos 20 e aos 30 anos olhar para atrizes que eu gosto muito, a Alexandra Lencastre, a Luisa Cruz, que é extraordinária, tantas atrizes e atores, mas falo de mulheres sobretudo, e de pensar que era com aquela idade que eu ia chegar “lá”. A cada década que passava eu achava isso, aos 40 é que vou ter o papel ou os papéis da minha vida. E sempre tive papéis extraordinários. Sempre tive a sorte de ter tido protagonistas e de ser protagonista e de interpretar papéis muito diferentes, experimentar, arriscar e poder desafiar-me muito. Mas depois então achava que aos 50 é que ia ser. Portanto, eu acho sempre, e ainda bem, que o melhor ainda está por vir.
Essa sensação de que o melhor ainda está por vir estende-se a outros campos da vida? És sempre muito positiva?
Tenho dias, como todas nós. Tenho muitos dias cinzentos. Eu sempre fui muito solar. E desde miúda que tinha muitos mais dias positivos, imagina. Depois aos 40 e tal, as coisas inverteram-se um pouco. Ou seja, tinha durante a semana mais dias cinzentos do que os outros. E teve a ver com a fase hormonal, com esta fase pela qual todas nós ou estamos ou vamos passar. Tinha de fazer alguma coisa para inverter aquilo porque eu não era aquela pessoa. Eu não me estava a reconhecer. Eu sou uma pessoa muito mais positiva, mais solar, mais feliz, mais agradecida à vida. Recorri à terapia pela primeira vez na minha vida. Eu sempre achei que conseguia e continuo a achar que faço tudo e está ótimo. Agora já tenho dias em que se calhar penso ‘Posso ter uma pequena ajuda?’ Não é que eu não consiga fazer, consigo. Mas vou ficar mais cansada, vou ficar mais desgastada, vou ficar... mais assustada, mais triste, para quê?
O facto de seres filha única terá influenciado a tua ideia de independência? Dizes que o tempo sozinha te obrigou a seres uma boa companhia para ti própria, ou seja, isso obrigou-te a gostares mais de ti?
Acho que tem muito a ver com isso, com essa capa que nós decidimos vestir e pensamos ‘eu um dia vou conseguir fazer isto, vou fazer isto e vou fazer aquilo porque eu não tenho ninguém’. É quase inconsciente. Eu lembro-me de ser miúda e pensar ‘se um dia estiver sozinha, no meio da selva, eu tenho de conseguir sobreviver.’ Eu tive uma infância em que estava muitas vezes doente. Eu estava a tomar muita medicação. E eu pensava ‘se eu estivesse na selva, como é que eu ia tomar comprimidos sem água? Eu tenho de aprender!’ Imagina como é que isto passa na cabeça de uma criança de 8, 9 anos. Queria encontrar estratégias de sobrevivência em cenários hipotéticos. E sempre coloquei muitas expectativas e muitas exigências a mim própria. E isso também tem muito a ver, para além do fato de ser filha única, com o fato de ter sido a única rapariga na minha rua. Só rapazes e a única que não teve irmãos. Tornei-me altamente competitiva com homens.
Tens mais amigos ou mais amigas à tua volta?
Sinto que tenho de elaborar muito mais o meu discurso quando estou a conversar com homens, para que eles percebam. As minhas amigas chegam lá mais rápido. Isto não é um atestado de estupidez a nenhum dos homens que eu conheço (risos) Mas sempre gostei muito de estar com mulheres, gosto de trabalhar com mulheres, gosto de discutir, de aprender. Reconheço-as muito mais. Sempre fui e tornei-me cada vez mais feminista. Foi crescendo. E tenho amigos que dizem ‘lá vens tu com essa história do feminismo.’ Não é um feminismo barato, é um feminismo consciencializado. Embora não tenha sido o meu caso, irrita-me quando sei de situações relacionadas com mulheres que eu conheço, amigas que decidiram ser mães e um homem ficou com o seu posto de trabalho. Como não ser feminista em pleno século XXI quando ainda assistirmos a situações destas? Perceber que a sociedade não está a progredir é assustador.
Sentes que estamos a voltar para trás?
Os meninos hoje não pensam como nós pensávamos. A minha mãe já está numa fase bastante mais evoluída do que eu acho que muitos miúdos de 17, 18 anos estão. Eles têm que saber onde é que andam as namoradas. As namoradas têm de saber onde é que estão os namorados. Vão ver as mensagens. Isto é de uma invasão que eu não percebo. A tentativa até posso entender porque pode vir de valores errados, de exemplos errados que se possam passar nas suas casas. Não deixes nunca que ninguém decida por ti, que pense por ti. Sê independente, valoriza-te. Eu sempre tentei meter isso na cabeça das meninas. Na realidade, sempre conheci uma capacidade de força, capacidade de trabalho às mulheres que às vezes não reconheço, aos homens. E para além disso ainda estamos a pensar que temos de pagar esta conta, de ir ao supermercado, de ir buscar os miúdos e de marcar uma consulta. Como é que nós conseguimos? Quando falo de ser feminista, falo muito nisto. Nesta valorização das mulheres porque nunca foram valorizadas como deveriam ter sido. Valorizar o trabalho em casa, valorizar o trabalho com os filhos, tudo isso. É porque quando às vezes dizem ‘ai, ele ajuda’. Eu nunca tive ajuda, infelizmente, mas ajuda é horrível, no fundo não é ajuda nenhuma.
Só agora aos 50 anos, imagina, é que me caiu a ficha. Ao olhar para trás é que percebi que nunca tive ajuda. E nem sequer devia ter de a pedir porque estamos a falar de uma família construída por duas pessoas, uma casa onde existiam duas pessoas, dois adultos. Portanto, supostamente os dois deveriam participar. Mas participar em tudo, de igual forma. O trabalho não é da mulher e a outra pessoa faz o favor - tudo errado. E eu sempre vi isto desta forma, sempre me achei muito emancipada. Não sou nada! Cheguei agora aos 50 anos a pensar: ‘Afinal, não sei nada.’ Eu agora ainda tenho tempo para aprender e isso é bom. As mulheres hoje são mais exigentes, mas também há outras que não.
Também existe esta desigualdade nas relações amorosas?
Há pouco tempo falava com uma amiga sobre voltar-se a ter uma vida pessoal depois de uma separação. E ela dizia que não se sentia bem para ter encontros. Mas tu achas que a outra pessoa não poderá sentir o mesmo? A ideia vigente é que não porque ele é homem. Mas os homens são carecas, são gordos, etc. Porque é que estamos nós preocupadas com o que ele pode achar da nossa beleza? Que direito tem um homem ou que falta de convicção terei eu para deixar isso acontecer? Eu não tenho de receber validação de ninguém. A única pessoa que tem de me validar sou eu.
Ao longo da tua vida e da tua carreira, a beleza sempre foi uma vantagem ou houve momentos em que não?
Há muitas mulheres bonitas, mas nem todas têm o mesmo carisma, nem todas têm a mesma capacidade de trabalho que eu reconheço que tenho, eu sempre me apoiei muito nisso, eu sempre fui muito confiante, muito segura do que era, do que representava, do que sabia que conseguia fazer, dos desafios a que me propunha. Eu acho que isso é que torna as pessoas interessantes. A beleza por si só esgota-se. A beleza por si só desaparece com a frescura. E eu quero chegar aos meus 96 feliz com o percurso que fiz. E não olhar para trás com a inveja das meninas que têm 20 anos porque essas pessoas envelhecem mal, são muito ácidas. Eu não quero isso para mim. Quando chegam atrizes novas ao set, de 20 e 30 anos, eu sou a primeira pessoa a recebê-las quando percebo que querem trabalhar. Porque eu também fui sempre muito bem recebida. Eu tive a sorte e o privilégio de começar a trabalhar com o Nicolau Breyner, com a Manuela Maria, com o Lourdes Norberto, com o Armando Cortês. São nomes maiores e sempre perceberam que eu queria efetivamente trabalhar, eu queria encarar aquilo como uma profissão.
Como olhas para estas novas gerações? Tanto no trabalho como em casa.
Precisamos de gerações novas a trabalhar a seguir a nós. Obviamente, ninguém aqui vai roubar o lugar a ninguém. É errado pensar dessa forma. E eu penso que isto pode ser um bom exemplo para tudo na vida. Há filhas que sentem que há uma certa competição com as mães. Eu acho isso um bocado estranho. Porque as mães são mães e as filhas são filhas. E cada uma tem o seu papel, o seu desempenho na família e o seu valor. Até às vezes posso perceber um ou outro ponto, mas a comunicação fará a diferença.
Acha que ainda se põem muito as mulheres umas contra as outras?
Pode ser isso. Em competição ou em choque ou o que seja. O que eu sinto agora, nesta altura da minha vida, aos 52 anos, é que há homens que, perante uma mulher que é independente, que sempre se valorizou e que se continua a valorizar, que tem plena consciência das suas qualidades, das suas virtudes, das suas características, dos seus erros, se assustam. Que elas assustam. Não sabem bem se têm arcabouço para conquistar uma mulher daquelas. E depois ficam inseguros para conseguir que elas sequer olhem para ele. É que chega uma altura em que já fizeste um trabalho gigante na tua vida, evoluíste, chegaste aqui, fizeste terapia ou não, mas whatever. E os homens ao teu lado, os homens que seriam os teus possíveis namorados não estão nesse nível e tu nem sequer tens paciência para olhar para ali... Porque vou perder tempo. Eu sei, eu olho, faço um pré-diagnóstico e… Não! É muito rápido.
Sentes que existe uma pressão para baixar expectativas a partir de uma certa idade?
Vou muitas vezes de férias com casais amigos meus. E eu nunca senti tensão nessas viagens. Mas já senti estando à conversa e partilhando o que fazemos com outras pessoas, pessoas que me dizem ´é pena é ires sozinha.’ Mas eu vou sozinha porque quero. Não há falta de pessoas que queiram vir comigo, como deves calcular. Eu é que quero mesmo ir sozinha. É uma opção minha, não é uma consequência. E ainda bem, enquanto nós pensarmos assim, está tudo certo. O problema é as outras pessoas acharem ‘Ai, coitada, está sozinha.’ E eu só penso: ‘Achas que eu estou sozinha porquê? Vê bem a pessoa que tens ao lado…’ Ficam sem resposta.
Numa altura em que se exige tanto às mulheres em termos estéticos, há mulheres que se mantêm em casamentos quando se sentem invisíveis.
Eu lembro-me que quando era menina dizia ‘ai, tenho um namorado e ele é diferente.’ Hoje, já não quero que seja muito diferente. Eu agora quero que seja uma pessoa interessante, que seja um homem que me desafie, que me acrescente, que me proporcione mais valias, que me ajude a construir e a melhorar e por quem eu nutra admiração. Eu não vou voltar a estar com alguém por quem eu não tenho admiração. Já passei por isso, sim, e já não quero.
Hoje tens outra exigência?
Tenho.
Há alguma idade que gostasses de voltar? Ou preferes pensar, como dizias há pouco, na mulher de 96 anos que vais ser?
Eu não quero deixar nada por fazer. É o que eu digo às vezes aos miúdos, se é para errar, errem agora, não errem às 40. Mas agora quero fazer as coisas todas que me apetece fazer, alinhei-me, trabalhei para chegar a determinado patamar e zona da minha vida em que tenho conforto. E na realidade quero ter ao meu lado uma pessoa que pense dessa forma. Porque eu trabalhei tanto, investi tanto na minha vida profissional, pessoal, maternal sobretudo. Agora que eles começam a ser um bocadinho mais autónomos, eu quero dedicar-me a mim. Quero aproveitar-me. Quero estar com pessoas com quem eu aprenda, cresça. Que sinta que eu estou ali a fazer alguma coisa. Só não sei se ainda acredito em príncipes com esta idade – ou então sou eu que já prefiro outras histórias.
Créditos:
Fotografia: Ricardo Santos
Realização: Cláudia Barros
Assistente de realização: Tita Mendes
Maquilhagem e cabelos: Alex Origuella
Assistente de maquilhagem e cabelos: Jenny Helen
Video: Rui Anjos e Cris Andrade
Agradecimentos: Gleba