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“Ter amigas é sentir que estamos sempre de mãos dadas, num caminho certo ou incerto.” 5 mulheres sobre o poder da amizade feminina na autoestima

Catarina Maia, Maria Morango, Susana Marques Pinto, Mafalda Nunes e Raquel Prates partilham com a Máxima o que significa, para cada uma delas, a amizade entre mulheres.

Amigas reunidas à mesa partilham momentos de convívio e afeto
Amigas reunidas à mesa partilham momentos de convívio e afeto Foto: Getty Images
13 de abril de 2026 às 15:09 Safiya Ayoob

As amizades femininas são, para mim, a forma mais verdadeira de companheirismo e ligação. São um sistema de apoio, um lugar seguro, uma constante. A ideia deste artigo nasce, sobretudo, do amor profundo que sinto pelo meu círculo de amigas - da forma como me fazem sentir segura, acolhida e genuinamente amada. Quando olho para trás, percebo que sempre tive 'aquela amiga'. A amiga do jardim de infância que continuou comigo nos primeiros anos de escola e com quem conheci outra amiga que se tornou igualmente importante. Foram elas que estiveram presentes durante uma grande parte do meu desenvolvimento. Foi com elas que comecei a explorar as minhas curiosidades sobre a vida, sobre crescer, sobre a feminilidade.

Ao longo dos anos, fui criando novas amizades, muitas delas ligadas ao contexto escolar. Mas só compreendi verdadeiramente a profundidade das amizades femininas quando tinha 16/17 anos - quando essas ligações passaram a existir para além da escola. Foi aí que tudo ganhou outro significado. Foi aí que elas se tornaram as minhas pessoas. São aquelas que estiveram comigo em todas as minhas fases. Acredito que as verdadeiras amizades são aquelas que evoluem connosco - que crescem, mudam e, ainda assim, escolhem permanecer. São as pessoas em quem confio os meus segredos, os meus medos e os pensamentos que nem sempre partilho com o mundo. São também aquelas que me chamam à razão, que me confrontam quando preciso e que me ajudam a ver com clareza.

Nem toda a gente tem a sorte de viver uma ligação assim - uma forma de vínculo tão forte que só a presença já é suficiente para nos sentirmos completas. E isso é algo que não tomo como garantido. Mais do que tudo, o meu maior desejo é que todas as mulheres - todas as raparigas, todas as adolescentes - possam experienciar este tipo de amor platónico que existe nas amizades femininas. Para compreender melhor estas relações, falei com algumas "novas amigas" sobre as suas experiências - o que as amizades femininas lhes trouxeram, de que forma moldaram as suas vidas e o que continuam a significar para elas.

Catarina Maia

"Na minha vida, as minhas amigas têm um papel preponderante, de equilíbrio e de família. Vivi fora do sítio onde nasci e toda a minha família está longe, por isso, em Lisboa, as minhas amigas são casa. São a família que fui criando ao longo dos anos. Existe um sentido de amizade diferente, muito mais profundo e estruturante. Não há força igual à de mulheres que verdadeiramente se amam e se respeitam. A certo ponto, isso cria um crescimento diferente em ambas, e a compreensão que existe numa boa amizade feminina dá-nos uma força enorme. É uma relação que nos empurra para a frente e nos torna mais conscientes.

Sobretudo na adolescência, que é uma fase em que nos estamos a formar e a perceber quem somos e o que queremos. Com boas amizades, aprendemos valores-base e criamos estruturas emocionais sólidas. Ficamos tão preenchidas por essas relações que não precisamos de criar mecanismos de defesa nem de procurar validação noutros lugares que, muitas vezes, nem são saudáveis. No fundo, quando temos boas amigas, conseguimos encontrar nelas aquilo que muitas vezes achamos que precisamos de ir buscar a outros lados, mas não precisamos.

As minhas amizades influenciam a forma como me vejo a mim própria e ao mundo, a 100%. Tenho amigas desde os três anos que ainda hoje são as minhas melhores amigas, são praticamente família. Gosto muito do facto de podermos debater tudo: somos todas diferentes, mas existe confiança para apontar defeitos, reconhecer qualidades e crescer juntas. Temos maturidade emocional para nos elogiarmos sem nos bajularmos. É uma relação saudável que nos faz crescer de forma estável, positiva e com um enorme sentido de companheirismo.

Se tivesse de explicar a alguém porque é que a amizade entre mulheres é tão poderosa, diria que poucas coisas se comparam a ter alguém a correr exatamente na mesma estrada que nós, lado a lado. Para mim, a amizade entre mulheres é isso: sentir que estamos de mãos dadas, a seguir um caminho certo ou incerto, mas juntas. Não há um percurso perfeitamente definido, mas desde que estamos juntas, tudo acaba por correr bem. No meu grupo de amigas, todas já passámos por momentos bons e maus, e em todos eles estivemos juntas, e isso dava-nos uma força absolutamente surreal."

Catarina Maia Foto: @catarinabmaia

Maria Morango

"As minhas amigas são a gasolina para o meu motor! São as responsáveis pela minha sanidade mental. São quem me chama à razão quando tem ser, apoiam nos bons e maus momentos, as primeiras a dizer sim e são as melhores confidentes do mundo. Amo as minhas amigas como amo o meu homem (formas diferentes) mas amo as. Preciso de falar com elas todos os dias, saber como estão, como correu o dia, a fofoca do dia. Tudo. Quando estamos solteiras é quase certo que encontremos a nossa “partner in crime”, nada como duas melhores amigas solteiras juntas.

O que significa para mim a amizade entre mulheres? Empoderamento. As amizades entre mulheres são muito importantes. Ganhamos mais poder, autonomia tanto a nível pessoal como social, económico, político e cultural. Aprendemos todos os dias com elas.  Em todos os momentos da minha vida senti que as minhas amigas foram essenciais para quem me tornei, mas principalmente com escolhas difíceis. Ou até mesmo com problemas pessoais e difíceis de se contar… Se não fossem elas, muito provavelmente, seria uma mulher com muitas inseguranças e triste.

As minhas amigas dão me coragem e liberdade. Liberdade para ser eu mesma, de arriscar e seguir os sonhos. Com elas tudo é possível.  Porque ao contrário dos homens, valorizamos os sentimentos e ouvimos. Somos sensíveis e loucas. Corajosas e protetoras… é animal. Temos aquele sexto sentido… um homem nunca entenderá. Somos únicas."

Maria Morango Foto: @a.maria.morango

Mafalda Nunes

"As minhas amigas são sem dúvida o meu sistema de suporte. Os últimos anos não têm sido fáceis para ninguém e é com elas que partilho os momentos mais desafiantes, mas também os mais felizes e de celebração!

Senti que as minhas amizades femininas preenchem necessidades que, noutras fases da minha vida, associava a uma relação amorosa. Seja em presença física e emocional, tempo de qualidade, viagens, e o meu plano favorito: uma boa tarde de spa, e sleepover num qualquer hotel da cidade. E a descentralização das relações amorosas na vida de uma mulher é essencial, numa sociedade tão patriarcal e machista, porque permite também mais liberdade, não só nas relações de amizade como na sua própria vida.

A amizade entre mulheres é um espaço seguro, de intimidade, intuição, confiança, onde posso ser vulnerável e partilhar tudo sem qualquer medo de julgamentos.

Não foram só nos momentos mais felizes que elas foram essenciais para quem me tornei, como por exemplo friendship-heartbreaks, e sim, às vezes doem mais que qualquer love-heartbreak, que me fizeram rever os meus limites, valores e o tipo de relações que quero ou não manter.

É muito mágico o poder da amizade feminina e de como o facto de seres tu própria e sempre a mais autêntica contigo própria tem impacto e inspira as mulheres à tua volta. É quase como um abraço apertado!  Um dia destes, uma amiga apresentou-me como 'a Mafalda foi a amiga que me ensinou que o brilho vem de dentro'. E ajudar as minhas amigas a amarem-se mais e mais é das coisas mais bonitas, revolucionárias e poderosas de qualquer relação de amizade feminina."

Mafalda Nunes Foto: @mafaldanunes_

Raquel Prates

"As minhas amigas hoje são estruturais. Não me aplaudem só porque sim, nem me deixam afundar em silêncio. Sabem quando estou a inventar desculpas e quando estou só cansada. E há uma coisa que eu não troco: com elas não tenho de estar sempre 'disponível'. Posso estar ausente e não faz mal. Há uma aceitação muito rara das nossas características, sem tentativas de corrigir ou moldar. Conhecem os meus timings, o meu humor sarcástico e até as subtilezas do que tento esconder com um sorriso. São pessoas com quem não tenho de estar sempre 'bem',  e isso, nesta fase, vale ouro. Respeitam o meu tempo e o meu espaço. É de facto uma forma de amor muito adulta.

Uma relação amorosa tem um lugar próprio, com uma intimidade e um compromisso que não peço às minhas amigas, nem faz sentido pedir. E as minhas amizades têm outro lugar, igualmente sério, mas diferente. Há amigas que me dão coisas que ninguém me dá. E há coisas que só uma relação amorosa pode dar. As pessoas são só pessoas. E ainda bem. Cada relação traz o que traz, sem eu tentar encaixar tudo no mesmo molde.

Para mim, a amizade entre mulheres significa poder ser complexa sem ser castigada por isso. E significa uma forma de lealdade que não é posse. Para mim, é saber que posso atravessar fases: calar-me, desaparecer um pouco, voltar, e continuar a ser recebida com respeito. As minhas amigas não confundem silêncio com desprezo, e eu também aprendi a não confundir a autonomia delas com distância. É uma relação onde não há necessidade de prova constante. Gosto dessa maturidade: intimidade sem dependência e honestidade sem drama.

Quando eu não estava 'interessante', senti que as minhas amigas foram essenciais para quem eu me tornei. Quando estava a funcionar em modo automático: a resolver coisas, a sobreviver, a recomeçar, a aguentar. Nesses momentos, elas foram essenciais porque não me exigiram uma versão bonita da história. E, às vezes, é literalmente assim: estar presente, dizer 'estou aqui' sem perguntas invasivas. Isso salva mais do que mil discursos.

Como é que as minhas amizades influenciam a forma como eu me vejo a mim própria e ao mundo? Elas dão-me espelho sem crueldade. Quando estou a ser demasiado dura comigo, lembram-me do que eu já fiz e do que já atravessei. Quando estou a ser demasiado permissiva com o que não merece, puxam-me pela manga. E fazem uma coisa muito importante: não deixam que eu romantize o meu próprio caos. Conhecem-me, não fazem cerimónia e trazem-me de volta ao concreto.

A amizade entre mulheres, quando é boa, é um lugar de inteligência emocional e de coragem. É calma, cuidada mas também exigente. É feita de aceitação, de tempos de silêncio e de respeito por fases. Porque aguenta o dia-a-dia e não precisa de teatro. As minhas amigas não precisam de mim sempre presente para saberem que eu estou lá. E eu também não. Isso é poder."

Raquel Prates Foto: @raquelpratesblog

Susana Marques Pinto

"Estou numa fase da vida em que as pessoas que se mantiveram - tanto em termos de amizade como de proximidade - são já presenças estruturais, quase 'crónicas', na minha vida. Na prática, tenho sobretudo amigas e amigos verdadeiros, e constato que, principalmente com as amigas que foram ficando ao longo do tempo, é com elas que partilho o que é realmente importante. É também da parte delas que espero validação, ou até crítica - uma crítica que pode surgir sem qualquer frivolidade, mas com base na amizade.

No passado, houve fases em que as mulheres podiam ser vistas como rivais, de alguma forma. Não necessariamente apenas por questões relacionadas com relacionamentos amorosos, mas existia, talvez, uma certa tensão ou competitividade. Isso, neste momento, deixou completamente de existir. Essa serenidade e essa paz só se conquistam com o tempo, com os anos, e, por isso, sinto que é muitas vezes com mulheres que essa afinidade se estabelece de forma mais intensa.

Ainda assim, é uma questão algo ambígua. Quando há amizade verdadeira, ela existe independentemente de ser com alguém do mesmo sexo ou do sexo oposto. O essencial é que seja uma amizade genuína. No entanto, talvez as mulheres, de um modo geral, partilhem sensibilidades mais próximas, mais coincidentes. E isso pode fazer com que seja com elas que nos identificamos mais facilmente e com quem conseguimos manter relações duradouras.

As minhas amigas foram fundamentais ao longo de toda a minha vida. Seria pouco honesto dizer que não houve conflitos, mesmo com aquelas que ainda hoje são pilares para mim. Houve choques, como é natural em qualquer relação humana - mais intensos ou mais passageiros. Esses momentos existiram sempre. No entanto, as amizades que perduraram foram precisamente aquelas que resistiram a tudo isso. E, ao resistirem, estiveram também presentes em todos os momentos difíceis da minha vida, apoiando-me. De uma forma ou de outra, acabei por conseguir seguir em frente também graças a elas.

É curioso notar que, trabalhando eu há tantos anos na área da moda - praticamente toda a minha vida -, muitas das amigas que mantenho até hoje pertencem também a esse universo. Isso cria afinidades na forma como vemos e sentimos as coisas. Não quer dizer que vejamos o mundo exatamente da mesma maneira, porque cada uma tem o seu olhar próprio, mas há algo comum que nos une. Talvez tenha sido isso que permitiu que as nossas amizades resistissem ao longo do tempo: uma sensibilidade partilhada, possivelmente ligada à área em que trabalhamos. Acredito que essas afinidades são importantes, porque sem elas é difícil sustentar uma amizade.

Diria que a amizade entre mulheres, desde que livre de rivalidades, tende a ser guiada por uma certa identidade de pensamento e de sensibilidade. Ainda assim, é importante reconhecer que isso não acontece automaticamente - não é por alguém ser mulher que se estabelece de imediato uma amizade ou uma identificação. Há sempre uma seleção, um critério. Mas, havendo esse critério, talvez seja mais provável encontrar esse tipo de afinidade entre mulheres do que entre homens."

Susana Marques Pinto Foto: @susanamarquespinto
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