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Padrões de Beleza

Mar-A-Lago Face e Republican Makeup: os procedimentos estéticos na era da ostentação

Antigamente, um procedimento bem-sucedido era imperceptível. Hoje, tornou-se símbolo de status em certos círculos - quer-se notável, até mesmo exagerado. O que mudou culturalmente para que "mostrar o trabalho" se tornasse desejável?

Kimberly Guilfoyle num evento em Mar-A-Lago
Kimberly Guilfoyle num evento em Mar-A-Lago Foto: Getty Images
02 de abril de 2026 às 10:00 Clara Drummond

À primeira vista, todos pensaram tratar-se de um erro. Em dezembro, a revista Vanity Fair publicou no seu perfil de Instagram uma fotografia em extremo close-up da porta-voz da Casa Branca, Karoline Levitt. Ali, expostos ao mais ínfimo detalhe, as rugas, os poros, a maquilhagem… e, sobretudo, as marcas das injeções de preenchimento labial.  A imagem foi analisada à exaustão e, não por acaso, pois é a mais perfeita síntese do zeitgeistOs procedimentos estéticos cada vez mais evidentes tornaram-se símbolo de status.  

Hoje, os influencers não sentem vergonha em filmar seus próprios procedimentos, divulgando o médico ou a clínica, tudo em prol de uma suposta autenticidade e transparência. Kylie Jenner, por exemplo, recebeu elogios ao revelar a uma seguidora no TikTok detalhes de sua prótese de silicone – a atitude chegou até a ser interpretada como feminista.  

A tendência assume contornos ideológicos quando observamos o número de mulheres que alteraram as suas feições para ascender dentro do conservadorismo, sobretudo nos Estados Unidos. Kristi Noem, Secretária de Segurança Interna (também conhecida como ICE Barbie), remodelou o rosto quando pleiteava o cargo de vice-presidente. O interesse de Donald Trump pelo tema é antigo: anos atrás, o Taj Mahal Atlantic City, um dos seus casinos, chegou a oferecer um prémio de 25 mil dólares para serem gastos em cirurgias plásticas.  

A Internet não perdoa, e logo batizou esse tipo de estética com as terminologias Republican Makeup e Mar-A-Lago Face.  Embora sejam coisas diferentes, uma referente a maquilhagem, outra a procedimentos estéticos, muitas vezes são usadas de forma intercambiável, para denotar um estilo específico de mulher, e os esforços considerados necessários para manter-se bela & jovem.  

Se o objetivo é atingido, é outra história…  Não é a beleza nem a juventude que realmente chama mais atenção, e sim o esforço investido. A mulher não precisa apenas ser bonita, jovem e magra, precisa estar evidente o sofrimento e dinheiro investidos para atingir esse ideal.  

Republican Make Up é caracterizada por uma maquilhagem em que a base é mate, às vezes até craquelada pela falta de hidratação prévia, as pestanas postiças são excessivas, a sobrancelha, o contorno, o bronzer e o blush são muito marcados. Já a Mar-A-Lago Face, referência ao condomínio de Donald Trump na Florida, é sinónimo de muito botox e preenchimento nos lábios, nas bochechas e na mandíbula.  

Por um lado, esta estética torna quem a adota menos capaz de expressar emoção e, por isso, menos humano - vale lembrar que a empatia é alvo de ataques por sectores da extrema-direita, que a consideram uma "fraqueza". Por outro lado, revela ao mundo uma vulnerabilidade, uma possível disforia facial ou crise de saúde mental. 

A grande ironia é que esta estética em que os traços femininos são exagerados ao ponto da caricatura era, outrora, associada às drag queens, um dos grupos mais perseguidos pelo Governo Trump. “A maquilhagem, sobretudo se for excessiva, é sempre uma máscara, seja das mulheres trumpistas, seja das drags queens. A diferença é que a primeira vem de um único propósito de se reafirmar como mulher. Por isso, exageram na boca, na bochecha, no peito. É difícil existir sensibilidade e sutileza entre as pessoas que estão fazendo uma cruzada política contra a cultura. Já a drag queen é uma personagem artística, e por isso a maquilhagem é subversiva, tem mais camadas a serem exploradas, um statement, algo a dizer”, diz o artista visual Marcos Hass Horn, que também se apresenta como drag queen sob o nome de Kudy Veludy.  

O objetivo político da extrema-direita é reservar os procedimentos cirúrgicos que reforçam uma feminilidade tida como natural às mulheres cis, excluindo as trans – mesmo que assuma que esse mesmo padrão de beleza é o suprassumo da artificialidade.  

Nos Estados Unidos, 27 estados proibiram os cuidados de afirmação de género para jovens trans, e o Texas, o Oklahoma e a Carolina do Sul alargaram essa proibição aos adultos com menos de 26 anos. Ainda assim, o número de jovens trans que realizam este tipo de cirurgia é ínfimo (em 2020, foram apenas 203 casos) muito inferior, por exemplo, ao de meninas cisgénero que colocaram implantes mamários no mesmo ano, 3.200. Os dados são do plasticsurgery.org.  

É evidente que as mulheres, da direita à esquerda, recorrem a técnicas de embelezamento como forma de escapar à misoginia. No entanto, a Mar-A-Lago Face atinge também os homens, ainda que de modo ligeiramente diferente. "Para os homens, os procedimentos anti-idade ganharam uma nova roupagem com os movimentos em torno da longevidade", conta a jornalista de beleza Jessica DeFino. O movimento, bastante em voga no Vale do Silício, é liderado pelo empresário Bryan Johnson, protagonista do documentário O Homem que Quer Viver para Sempre (Netflix, 2025). 

Hoje existe tecnologia suficiente para que os procedimentos estéticos sejam praticamente impercetíveis. “Na Europa, percebo uma busca por procedimentos com resultado mais natural, como laser, radiofrequência, micro-agulhamento, e aumento por diluição do ácido hialurónico”, explica o cirurgião plástico Nuno Tojo. No entanto, é importante notar que as mulheres adeptas de uma estética “acordei assim, linda!” gastam o mesmo tempo, esforço e dinheiro que àquelas que ostentam procedimentos estéticos como sinalização ideológica e financeira. A embalagem pode até mudar, mas o patriarcado, não.  

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