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Mina El Hammani sobre preconceito nos ecrãs: "Existe muito a ideia de que 'só serves para isto' ou 'só podes fazer isto'. É um percurso que vai acompanhar-me"

A atriz espanhola que o mundo conheceu em "Elite" chega agora a Lisboa com "Lisbon Noir", onde interpreta uma inspetora marcada por tensão e deslocação. Numa conversa com a Máxima, reflete sobre identidade, estereótipos, vulnerabilidade e a necessidade de escolher papéis que a desafiem - dentro e fora do ecrã.

Mina El Hammani
Mina El Hammani Foto: Getty Images
07 de abril de 2026 às 10:47 Safiya Ayoob

Escuridão. Uma Lisboa recortada por um céu estrelado. Uma banda sonora que se insinua devagar, quase a prender-nos a respiração, enquanto ficamos à espera de que algo - inevitavelmente - aconteça. É assim que começa o primeiro episódio de Lisbon Noir, a nova série da Prime Video realizada por Artur Ribeiro. Depois, o contraste: o sol cru, os prédios que nos devolvem um imaginário familiar e uma cena de ação que irrompe sem aviso.

É neste equilíbrio entre tensão e luz que conhecemos Nour, uma inspetora espanhola que chega a Lisboa como corpo estranho e rapidamente se torna peça central de uma investigação densa e inquieta. Neste novo papel, Mina El Hammani partilha o ecrã com um elenco que reúne alguns nomes bem conhecidos do público português, como Beatriz Godinho, Cleo Diára, Luís Filipe Eusébio, Paulo Pires, Pêpê Rapazote e Teresa Tavares.

Foi também por causa desta personagem que, na semana passada, nos sentámos à conversa com a atriz, numa entrevista por videochamada, na qual refletiu sobre identidade, percurso e o lugar que ocupa hoje na indústria. Mina El Hammani tornou-se um rosto familiar para o grande público em 2018, aos 24 anos, quando deu vida a Nadia na série Elite (2018-2024). Não será exagero dizer que foi aí que muitos ficaram a conhecê-la: o fenómeno global da série projetou-a para um palco internacional e fixou, durante algum tempo, a sua imagem a essa figura rigorosa, intensa e profundamente marcada por conflitos identitários.

Hoje com 30 anos, a atriz constrói um percurso cada vez mais diverso. Entre cinema, televisão e teatro - um território que a própria descreve como espaço de liberdade e ausência de preconceito -, tem procurado personagens que desafiem leituras fáceis e que escapem à tentação do estereótipo. Projetos como El Internado: Las Cumbres (2021-2023), La tierra de Amira (2025) ou o filme Raqa (2024) mostram uma vontade clara de explorar registos distintos e de consolidar uma carreira que se quer plural.

Nour é, talvez, um desses momentos de afirmação: uma mulher que não se deixa definir à primeira vista, que carrega tanto clareza como zonas de sombra, e que reflete a complexidade que El Hammani parece procurar nas histórias que escolhe contar. Nesta conversa, falámos sobre identidade, pertença, vulnerabilidade e o lugar - nem sempre confortável - de quem habita fronteiras, sejam elas culturais, emocionais ou profissionais.

Mina El Hammani
Mina El Hammani com Pêpê Rapazote e Beatriz Godinho Foto: ©ARMANDA

Ao longo da tua carreira, tens habitado personagens muito distintas, mas existe sempre uma leitura externa sobre quem és. Como é que geres a distância entre a tua identidade real e as narrativas que são projetadas sobre ti?

Na verdade, tento que não me chamem pelo meu nome, nem pela minha identidade, por assim dizer. No fundo, aquilo de que mais gosto em ser artista ou atriz é poder mergulhar noutras situações, noutras realidades que talvez desconheça. Por isso, para mim, também é muito importante perceber como retratar cada personagem com a sua própria identidade.

É verdade que já criei várias personagens às quais foi possível associar a origem ou algum aspeto da cultura, mas sinto que cada personagem é um mundo à parte. E o mesmo acontece com a personagem de Nour, por exemplo. Para mim, é uma personagem que acho que nunca interpretei a partir desse ponto de vista: é uma mulher que tem as coisas muito claras, mas que também carrega muita escuridão.

Olhando para o teu percurso até agora, em que momentos sentiste que deixaste de te adaptar ao que esperavam de ti e começaste a fazer escolhas mais alinhadas contigo?

Acho que, nesta fase da minha vida, é natural que tome mais decisões e tenha mais controlo, sobretudo por causa da maturidade que vamos ganhando com o tempo. Mas isso também é uma questão cíclica, uma questão humana, independentemente do trabalho. Ainda assim, é verdade que leva tempo a refletir sobre nós próprios, a abrandar às vezes e, realmente, a avaliar e a perceber o que precisamos enquanto artistas, não é? E também o que sentimos que podemos oferecer ao público.

No fundo, há imensos projetos a surgir e, felizmente, chegaram-me muitas propostas. Mas também senti que havia algumas em que não tinha - ou não sentia que teria - a capacidade de ser um verdadeiro canal de comunicação com o público. Acho que isso também nos molda, mas, acima de tudo, leva-nos a confrontar a vida e a pensar realmente no que queremos fazer, como e porquê. Isso é muito importante nesta profissão.

Também não sinto que tenha de ser algo apenas para nós. No final, independentemente do projeto em que estejamos - seja teatro, cinema ou televisão -, todos temos um objetivo: que o público veja e se ligue ao que fazemos.

Mina El Hammani
Mina El Hammani Foto: ©ARMANDA

A Nour chega a Lisboa como uma espécie de elemento externo, mas rapidamente se envolve numa investigação muito densa, quase obsessiva. O que é que te interessou nessa posição de “outsider” que, ao mesmo tempo, precisa de ganhar lugar e autoridade dentro de uma equipa já estabelecida?

O caso da Nour também é muito curioso, porque, para ela, isto é quase um castigo. Ela encara o facto de vir para Lisboa trabalhar neste caso dessa forma. Por isso, desde o início, há uma certa indiferença. Quando chega, sente que a equipa em Espanha a deixou na mão, porque, na verdade, não a apoiaram. Acho que chega sem preconceitos, mas também sem grande vontade de se integrar.

Ela vem com vontade de trabalhar, de cumprir a missão e de regressar a Espanha o mais depressa possível. Depois, acaba por criar laços e conhecer pessoas - algumas muito simpáticas, outras nem tanto -, mas que acabam por lhe amolecer o coração, como acontece com a personagem do Pêpê [Rapazote].

Identifico-me com a Nour porque também sou de Espanha, venho para Lisboa e não falo português, tal como a minha personagem. E, claro, às vezes não é fácil quando as pessoas falam em português; é verdade que o ouvido se vai habituando e acabamos por perceber, mas nas primeiras semanas há uma espécie de desconexão. Não consegues entrar nas conversas pessoais a 100% desde o início, como gostarias. Eu dizia ao Arturo [Ribeiro] que achava que a Nour, em algum momento da vida, teria passado um ou dois meses em Portugal, não propriamente em missão, mas num contexto mais privado. Penso que esse trabalho prévio também foi muito útil para enfrentar o início e tornar a personagem o mais real possível.

Para mim, é uma personagem que ocupa um cargo público que me desperta muito interesse, sobretudo por ser um papel de proteção ao cidadão. Gosto muito de poder interpretar algo assim. E é também uma mulher muito forte, mas, ao mesmo tempo, muito vulnerável, por tudo o que tem de enfrentar e pela forma como lida com isso. Há muitas coisas que não posso dizer, obviamente, e que gostaria de ter desenvolvido mais nesta temporada e neste projeto, porque acho que eram muito importantes. Ainda assim, gosto muito dessa vulnerabilidade e da ligação que se consegue estabelecer com alguém tão diferente de nós. Lembro-me de que, quando li o guião, a personagem do Pêpê [Rapazote] me pareceu, à primeira vista, muito rude, muito duro, até machista.

Isso despertou-me muito interesse: perceber como é que esta personagem consegue estabelecer uma ligação com ele, sem qualquer intenção, simplesmente por partilharem espaço e tempo, e acabam por se tornar amigos. Para mim, isso é algo que me fascina muito a nível social - como duas pessoas, dois mundos completamente distintos, conseguem criar uma ligação e apoiar-se mutuamente. Essas nuances interessaram-me muito. E depois, claro, há também muita ação.

Eu também fiz um filme com o Álvaro Morte, chamado Raqa (2024), que era de ação, e fiquei com vontade de continuar a explorar esse lado, de sentir que, às vezes, entras em espaços proibidos. Mas, por exemplo, em Giacomo Mina, não gostei nada de ter uma arma. Estivemos numa esquadra onde nos treinaram e nos deram armas reais. E, claro, o polícia dizia-nos que a arma serve apenas para proteger o cidadão. Mas ter aquilo na mão, saber que podes usá-la e acabar com a vida de alguém, gerou-me muito respeito. Por isso, também compreendo que um polícia não queira estar sempre a recorrer à arma.

Mina El Hammani
Mina El Hammani com Pêpê Rapazote Foto: ©ARMANDA

Sendo uma mulher de origem marroquina a trabalhar numa indústria ainda muito marcada por categorias e tipificações, sentes que, em algum momento, te foram oferecidos papéis mais próximos de um imaginário estereotipado? Como é que lidaste com isso?

Acho que o estereótipo está presente, não só nos meios audiovisuais, como também na vida. Infelizmente, isso é evidente. Muitas das pessoas com quem falo têm logo uma palavra ou uma frase inicial que parece já estar enraizada nelas. Por isso, sim, isso existe - não vou ser hipócrita. Ainda assim, hoje sinto-me mais protegida no teatro, por exemplo. O teatro é um espaço seguro para mim, um espaço onde sinto que não existem esses preconceitos nem esse tipo de discriminação.

Existe muito essa ideia de que "só serves para isto" ou "só podes fazer isto". E tem sido um processo, um percurso que acredito que vai acompanhar-me a mim e a muitas outras pessoas do meio artístico com origens diferentes. Não diria que é algo com que temos de "conviver", porque eu não sou de aceitar isso dessa forma, mas sim algo de que temos de estar conscientes. É verdade que já interpretei muitas personagens árabes, com referências culturais semelhantes, mas todas elas eram diferentes, em contextos completamente distintos. E isso é importante para mim sublinhar. Eu não estaria a fazer, por exemplo, uma personagem como a Nour durante 10 anos seguidos, porque deixaria de haver algo que me desafiasse ou que me despertasse interesse para comunicar.

São personagens muito diferentes, mas, ainda assim, houve momentos - embora já não tanto agora - em que surgiram muitos projetos que me fizeram pensar: "Isto diz-me qualquer coisa… parece-me familiar." Como se já tivesse contado a mesma história, apenas com outro nome. É importante falar sobre isso. E, para mim, há também uma questão que gosto sempre de colocar: por que é que não se pergunta aos produtores ou aos realizadores o que se passa? Porque é que não se pensa em atores para outros tipos de histórias?

Por exemplo, em Lisbon Noir, isso já acontece: há vários perfis diferentes e contam-se histórias que não entram em conflito com a origem das personagens. E isso é muito interessante. Acho que estamos no bom caminho.

Em parte, algumas destas questões também vêm daquilo que nós próprios nos impomos. É como carregar uma mochila cheia de pedras que, às vezes, ninguém nos pediu para carregar. Mas crescemos dentro desta sociedade e com aquilo que nos foi ensinado desde crianças - em casa, na escola, no espaço público - e isso acaba por influenciar a forma como nos comportamos. Às vezes, damos mais atenção a isso do que aquilo de que realmente precisamos.

Ao longo dos anos, fui percebendo que isso não combina comigo. Que sou um canal de comunicação que quer contar histórias, e que tudo o resto é acessório. Posso brincar com isso, mas não vou deixar que me faça sofrer. É muito importante conversar connosco próprios, fazer perguntas, tentar posicionar-nos de forma saudável. E, nesta indústria, também é essencial rodearmo-nos de pessoas boas, que nos queiram bem e que nos saibam ouvir.

Acho que, nestas situações e nestes problemas sociais, o mais importante é sermos ouvidos e podermos partilhar certas inseguranças. Porque, por muito que trabalhemos isso todos os dias, elas vão sempre aparecendo. São como pequenos demónios, digamos assim.

Mina El Hammani
Mina El Hammani Foto: ©ARMANDA

Se pensares nas personagens que interpretaste até agora, há alguma que tenha mudado a forma como te vês a ti própria?

Se houve alguma personagem que me tenha trazido algo para a minha vida? Sim. Mas também é verdade que tive muita sorte, no sentido de as personagens que interpretei terem muita força - tanto no cinema como no teatro. E isso acaba por me recarregar a nível pessoal.

Poder enfrentar personagens que exigem tanto esforço mental e emocional, com as quais tenho de conviver diariamente… claro que é reconfortante sentir que consigo dar-lhes vida. E também é verdade que gosto muito delas. Nesse sentido, posso dizer que me sinto muito ligada a essas personagens. Sinto mesmo que tenho essa força, e é algo de que me orgulho verdadeiramente.

Ao mesmo tempo, tenho também um lado mais vulnerável que, no dia a dia, por vezes custa a mostrar. Mas no cinema ou no teatro, não - aí consigo aceder a isso de outra forma.

E quando pensas no futuro, interessa-te mais quebrar expectativas ou aprofundar aquilo que já construíste?

Sabes o que deixei de fazer durante a pandemia? Pensar no futuro. Senti-me tão paralisada durante tantos meses - acho que toda a gente vivia a pensar em como gostaria que fosse, em como seria - que, de repente, dar-te agora uma resposta nem sequer faz muito sentido para mim, porque tive de aprender, dia após dia, a viver no presente.

Neste momento, por exemplo, estou a ensaiar uma peça de teatro que vamos estrear daqui a alguns meses, e esse é o meu futuro. É como se só pensasse nesta peça, em aproveitar este processo com os meus colegas e na estreia.

Claro que quero contar muitas histórias, com personagens de diferentes lugares e contextos. Mas o que vier, virá - e o que tiver de ser para mim, será. Neste momento, quero mesmo concentrar-me no presente.

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