O braço de ferro de Rosalía é literal (e o que podemos fazer para ter os músculos da cantora)
Na noite em que Rosalía subiu ao palco, não consegui tirar os olhos dos seus... membros superiores. Definidos, fortes, visíveis. Não como um acessório estético, como extensão de (esperemos!) uma nova narrativa sobre o corpo feminino.
Durante décadas, a ideia de “corpo ideal” para mulheres orbitou a magreza quase etérea. Ainda há bem pouco tempo, comentávamos as silhuetas demasiado frágeis que pisaram as últimas passadeiras vermelhas, como a dos Óscares 2026, e reportávamos sobre as passerelles da temporada mais recente das semanas de Moda, nas quais apenas 0,3% das marcas desfilaram looks para modelos plus-size. Depois de quase termos acreditado que o tamanho não importava, o regresso ao culto dos anos 2000 e a chegada de medicamentos GLP-1 vieram inaugurar uma nova fase de "menos".
A noite passada, porém, foi sobre "mais". Enquanto a voz de Rosalía ecoava pelo Meo Arena numa experiência quase religiosa, eu dizia "amém" ao corpo que se ia movimentado à minha frente. Mais forte, mais musculado, mais ágil. Tanto capaz de se deixar carregar, como elevar qualquer que seja a mensagem. De braços erguidos, bradando aos céus uma era em que os homens deixem de ser tóxicos e as mamis ganhem controlo emocional, Rosalía não só emanava beleza, como vitalidade e saúde. E à luz dos atuais padrões de beleza, em nenhum lugar a contradição ficou mais visível do que nos seus braços.
Um verdadeiro outdoor cultural, o braço foi ignorado durante décadas até aparecer, subitamente, carregado de significado. Mulheres como Jennifer Lopez, Miley Cyrus, Dua Lipa, Rosalía e, claro, a rainha dos bíceps, Madonna têm vindo a tornar evidente que a força - visível, concreta - deixou de ser tabu. É, aliás, o seu maior flex. “Continua a existir um medo muito grande de levantar peso, especialmente nas mulheres”, explica o preparador físico Carlos Bernardo, mais conhecido como Coach Cabe, com mais de 25 anos de experiência na área. “Há uma ideia errada de que o treino de força vai ‘aumentar demasiado’ o corpo - mas isso simplesmente não corresponde à realidade", clarifica.
Na verdade, o que a ciência tem vindo a reforçar, e Cabe faz questão de esclarecer a cada nova aluna que entra no Cabe Training Center, é o oposto: o treino de força não só aumenta o gasto calórico como contribui para um metabolismo mais eficiente ao longo do dia. Mais importante ainda, desmonta um dos mitos mais persistentes do fitness feminino: o de que músculo é sinónimo de volume excessivo. “Aumentar massa muscular de forma significativa é extremamente difícil, especialmente para mulheres, devido a fatores hormonais”, sublinha o especialista, alertando as mais ingénuas: “O que vemos nas redes sociais muitas vezes não reflete o processo completo". A estética é de 'minimalismo aspiracional'. Não sei bem explicar, mas braços esculpidos transmitem a ideia de que a nossa vida está organizada. É a versão fitness do blowout de luxo discreto - exige esforço, mas foi concebido para parecer natural.
Se antes os abdominais eram o epicentro da estética fitness, hoje os braços assumem o protagonismo. Num mundo onde o bem-estar se tornou também uma linguagem visual, o músculo visível funciona como código social. Como sugere a Time num artigo de setembro de 2025, os braços tonificados emergem como um novo símbolo de status, refletindo não apenas força física, como também acesso a tempo, recursos e disciplina corporal. Durante a maior parte do século passado, os braços eram representados como sendo finos, quer na estética extremamente magra dos anos 1990, quer na valorização das curvas dos anos 2010, moldada por Hollywood. No entanto, as redes sociais estão a mudar esse enquadramento. "Uma nova vaga de fitfluencers e gymfluencers, que não são atrizes nem cantoras, domina agora milhões de feeds, redefinindo os ideais de beleza através do treino com pesos, ao mesmo tempo que promove suplementos e conjuntos de roupa coordenados", escreve Anne Marie Chaker, bodybuilder e jornalista, na publicação norte-americana.
Mas há uma nuance importante: num ecossistema saturado de rotinas virais e corpos idealizados - das passerelles da Victoria’s Secret aos feeds infinitos de Instagram e SkinnyTok - a comparação tornou-se quase inevitável. “O perigo é acreditar que um treino ou um corpo são replicáveis sem contexto”, diz Carlos. “Não vemos a alimentação, o descanso, a genética. Nem o estilo de vida por trás.” A consequência? Frustração. E, muitas vezes, desistência. Afinal, um braço definido não é apenas sobre aparência, é sobre capacidade. “Quando puxamos ou empurramos, estamos sempre a trabalhar os braços", diz o personal trainer sobre a melhor forma de trabalhar esta zona do corpo. "O foco devia ser menos em 'isolar' músculos e mais em movimentos e carga”, explica. “A força constrói-se no todo.”
A verdade é que depois de anos passados a suar em passadeiras, a participação das mulheres no treino com pesos subiu para 14% em 2024, face a 11% em 2019, segundo uma investigação da Health and Fitness Association. Há ginásios a retirar filas de máquinas de cardio para dar lugar a barras, graças às mulheres que representam uma proporção crescente dos membros. A indústria da menopausa, avaliada em 17 mil milhões de dólares, promove agora o treino de força como uma proteção contra a perda muscular e o enfraquecimento ósseo (debaixo da buzzword do momento, longevidade, claro). Uma investigação conduzida pela psicóloga da Missouri State University, Brooke Whisenhunt, revelou que as concorrentes ao Miss USA, entre 1999 e 2013, se tornaram simultaneamente mais magras e mais musculadas - uma combinação que as jovens inquiridas passaram, cada vez mais, a considerar como a mais atraente.
"A ascensão do treino de força, do pilates em máquinas e até de modalidades híbridas como o Hyrox aponta para uma mudança mais profunda: uma abordagem ao corpo centrada na longevidade e funcionalidade, não apenas na aparência", reflete Carlos. Estaremos finalmente a tentar afastar-nos dos extremos? Já não se trata de 'ficar em forma para o verão' a todo o custo nem de construir glúteos de forma obsessiva. Em 2026, o bem-estar centra-se numa força sustentável a longo prazo, que apoia a postura, o equilíbrio hormonal e a longevidade. Braços tonificados resultam de movimentos controlados e conscientes, e não de esforço máximo. E é aqui que os braços de Rosalía ganham outro significado.
Não são apenas tonificados, são políticos (não o é todo este show?!). Representam uma geração que começa, finalmente, a libertar-se da obrigação de ser pequena. Leve. Discreta. Uma geração de mulheres que ocupa espaço, também fisicamente. No palco, sob as luzes, a sua grandiosidade vê-se em cada gesto. Não admira que o desporto feminino esteja em ascensão: quando os nossos direitos começam a ser ameaçados, o impulso é de lutar de volta. Os braços tornaram-se uma espécie de atalho simbólico para a disciplina, o controlo e a capacidade de uma mulher resistir. E contra-atacar.
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