Rosalía, em modo "Lux". A construção de uma estética em palco
Na primeira de duas noites esgotadas em Lisboa, Rosalía apresentou a digressão "Lux" num espetáculo que cruzou música, imagem e performance. Ao longo de mais de duas horas, um dos momentos mais marcantes surgiu no encontro em palco com Carminho.
“Eternamente grata a ti, Lisboa.” Foram estas as últimas palavras que Rosalía deixou no palco, encerrando um espetáculo que, mais do que musical, foi profundamente visual. Na primeira de duas noites esgotadas em Lisboa, a artista espanhola apresentou Lux como um exercício de construção estética, na qual a roupa não é apenas complemento - é linguagem.
A sala, inundada de branco, renda e véus, parecia já antecipar aquilo que viria a acontecer em palco: uma exploração contínua de identidade, transformação e encenação. “Espero uma experiência quase religiosa”, dizia Francisco, 20 anos, à entrada. E, de certa forma, foi também uma experiência de contemplação - não só sonora, como também visual.
Antes do início, a seleção musical - de Le Nozze di Figaro a Camarón de la Isla - preparava o terreno para uma performance que vive da fusão de referências. Essa mesma fusão estende-se ao guarda-roupa, um dos elementos centrais do espetáculo.
O guarda-roupa assume-se como uma construção narrativa pensada ao detalhe. Longe de uma lógica de styling tradicional, Rosalía trabalha com uma rede de criadores que inclui a casa Ann Demeulemeester, sob direção criativa de Stefano Gallici, bem como designers como Antonio Velasco, Maison Vivascarrion e Les Fleurs Studio. O resultado é um universo visual profundamente referencial, em que o ballet clássico, a ópera e a iconografia religiosa se cruzam com códigos contemporâneos.
O primeiro look surge quase como uma instalação: Rosalía é revelada dentro de uma caixa, vestida em tons de rosa, com um tutu escultórico de grandes dimensões. A silhueta remete para o imaginário clássico da bailarina - com ecos das figuras de Edgar Degas -, mas é exagerada, quase irónica, mais próxima de um objeto de exposição do que de uma figura em movimento. Imóvel, em terceira posição, transforma-se numa imagem viva, onde moda e performance se confundem.
Ao longo do concerto, o guarda-roupa evolui sem nunca se fragmentar. Em vez de mudanças completas, Rosalía trabalha por subtração: camadas que se removem, volumes que se ajustam, tecidos que revelam outros tecidos. Há uma continuidade deliberada entre os diferentes looks - como se cada transformação fosse apenas mais um capítulo da mesma narrativa visual. Esta construção sugere uma abordagem conceptual ao styling, onde a ideia de processo se sobrepõe à de espetáculo imediato.
Os materiais - tule, renda, tecidos translúcidos - reforçam essa estética de leveza e suspensão, enquanto as cores, maioritariamente suaves, mantêm a coerência visual do espetáculo. Tudo parece pensado para dialogar com o cenário: os panos brancos, a luz difusa, a presença constante de uma câmara que capta cada detalhe.
Visualmente, o espetáculo revelou uma continuidade e evolução do trabalho apresentado na digressão anterior. Rosalía volta a explorar a linguagem da câmara em palco, integrando-a como elemento narrativo essencial. Dois ecrãs gigantes projetavam imagens em tempo real, com uma estética cinematográfica cuidada, que transformava o concerto numa espécie de filme ao vivo.
No centro da sala, a orquestra dirigida por Yudania Gómez Heredia reforça essa dimensão cénica, criando um contraste entre a tradição musical e a contemporaneidade estética de Rosalía. É nesse cruzamento que o espetáculo encontra o equilíbrio.
A meio do espetáculo, a artista abriu espaço para a memória e vulnerabilidade: “Quando comecei a minha carreira, cantava em bares, casamentos, batizados, comunhões… basicamente em qualquer sítio que precisasse de uma cantora.” Foi nesse percurso que descobriu diferentes géneros, línguas e formas de cantar - e também onde nasceu a sua ligação ao fado, que introduz como uma das suas maiores influências.
Essa referência materializa-se pouco depois num dos momentos mais marcantes da noite: a entrada em palco de Carminho. No dueto de Memoria, o encontro entre as duas artistas torna-se também um encontro de universos estéticos - o fado e o flamenco, o contido e o performativo - reforçando a ideia de que todo o espetáculo se constrói a partir do diálogo. Ao longo do alinhamento, Lux domina a narrativa, mas abre espaço a incursões pela discografia anterior, ligando passado e presente numa mesma linguagem.
Na plateia, essa leitura não passa despercebida. “É eclética, mistura vários géneros, tem uma personalidade única”, dizia Cécile, 52 anos. A descrição aplica-se tanto à música como à imagem.
No final, fica a sensação de que aquilo a que assistimos não foi apenas um concerto, mas uma afirmação estética. Um espetáculo onde a moda não acompanha a música - define-a.
Violência sexual em números.11 casos por semana e a maioria dos agressores são homens próximos
"A violência contra as mulheres é uma das injustiças mais antigas e generalizadas da humanidade, mas continua a estar entre as mais negligenciadas." A afirmação é de Tedros Adhanom Ghebreyesus, Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), e continua a refletir uma dura realidade atual.
Micro cheating é traição? O fenómeno que está a dividir casais
O verdadeiro ponto de separação raramente é o ato em si, mas o silêncio que o envolve.
Vera Iaconelli: “Sofrer não faz ninguém melhor. O que a gente faz com o sofrimento é que é decisivo”
A autora e psicanalista esteve em Portugal para apresentar o seu livro “Análise – Notas do Divã”, o primeiro a ser editado por cá. Nesta obra, que é meio livro de memórias, meio ensaio pessoal, Iaconelli entrelaça a história da sua família com o seu próprio processo de análise.