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Máxima

Padrões de Beleza

Brasil, o país da beleza (ou da obsessão por ela)

No país do Sistema Único de Saúde, convivem clínicas fancy de harmonização facial, salões de beleza improvisados no quintal e a famosa laje - local onde as cariocas criaram o bronzeamento com fita de isolamento. No Brasil, a estética não é apenas #aesthetic, é um statement cultural.

Praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, nos anos 90
Praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, nos anos 90 Foto: Getty Images
14 de abril de 2026 às 12:00 Tamires Correia

Morar fora do Brasil por muitos anos provoca um fenómeno curioso: você passa a enxergar o próprio país com a curiosidade de quem nunca pôs os pés lá. É uma estranheza misturada com fascínio que nos faz querer ir mais a fundo até mesmo em aspetos culturais que pensávamos conhecer intimamente.

Estava em um salão de beleza em Lisboa onde o sotaque de todas, repito, todas, as profissionais era igual ao meu. Entre o barulho do secador, o lixar das unhas e as fofocas, ouvia-se uma playlist que passeava entre Luísa Sonza, Pedro Sampaio e Marina Sena. Na lista de serviços, 'brasileiro' aparecia também como um selo de qualidade: manicure brasileira, depilação brasileira, extensão de pestanas volume brasileiro, alisamento brasileiro… Entre as clientes, havia portuguesas, ucranianas, algumas espanholas, mas a maioria eram… brasileiras. Esperando o tempo da coloração no meu cabelo, observei como uma estrangeira algo que cresci acompanhando: a obsessão brasileira pela beleza. E, mais recentemente, a exportação dessa estética mundo a fora.

Poucos lugares no mundo levam o assunto tão a sério. No Brasil, beleza não é apenas estética; é cultura, linguagem social, uma infraestrutura invisível que organiza o quotidiano. E também é prazer; é celebrar o próprio corpo através do cuidado. É se arrumar para ir à praia com o mesmo afinco com que se arruma para trabalhar ou ir a um casamento. O corpo da brasileira atua como um veículo de alegria, uma extensão da festa que é a vida.

Como canta Caetano Veloso em Beleza Pura: “Quando essa preta começa a tratar do cabelo / É de se olhar toda a trama da trança, trança do cabelo / Conchas do mar, ela manda buscar pra botar no cabelo / Toda minúcia, toda delícia”-.   

Salões de manicure são espaços de construção de comunidade, o cabeleireiro faz, muitas vezes, o papel de terapeuta. A esteticista pergunta se a sua irmã já deu a luz e se o seu ex voltou a mandar mensagem, tudo isso enquanto depila a sua virilha com cera quente. Pessoas passam horas juntas enquanto fazem cabelo, unhas e sobrancelhas, discutindo a vida com uma intimidade que raramente aparece em outros espaços. Existe uma sociabilidade que acontece em torno do cuidado estético que muitos países simplesmente não têm. Sem falar na economia gigantesca em torno disso: manicures, cabeleireiros, esteticistas, designers de sobrancelha, lash designers, especialistas em tudo o que se possa imaginar. É um ecossistema inteiro.

E essa história começa muito antes das mudanças de rosto trimestrais da Anitta.

Praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, nos anos 90
Anitta, uma das artistas mais proeminentes - e internacionais - do Brasil Foto: Getty Images

No século XIX, a beleza feminina já ocupava lugar central nos debates sociais no Brasil. O escritor José de Alencar, por exemplo, criticava mulheres que recorriam a dentes de porcelana ou enchimentos para modificar a aparência, descrevendo-as como “infelizes vítimas dos progressos da indústria humana”. Naquele contexto, a beleza ideal era associada à naturalidade e à virtude moral. Cosméticos discretos eram aceitáveis, mas qualquer alteração muito evidente do corpo parecia ameaçar a autenticidade feminina.

Com o passar do tempo, porém, essa visão mudou radicalmente. Ao longo do século XX, especialmente a partir dos anos 1950, consolidou-se uma nova ideia: beleza não era apenas um dom natural, mas algo que poderia ser cultivado, aprimorado e até produzido. Em vez de esconder imperfeições com artifícios externos, como espartilhos, esperava-se que o próprio corpo fosse transformado. Dietas, exercícios físicos, tratamentos dermatológicos e, posteriormente, cirurgias plásticas passaram a compor um novo repertório de práticas aceitas.

Esse novo paradigma encontrou terreno fértil no Brasil. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, o corpo passou a funcionar também como uma forma de capital simbólico. Investir na aparência não significava apenas vaidade, mas muitas vezes uma estratégia de mobilidade e reconhecimento social. Afinal, quando o acesso à educação de qualidade ou a oportunidades profissionais é limitado, o corpo pode se tornar uma ferramenta visível de ascensão. Academias lotam em bairros ricos e também nas periferias; clínicas de estética se multiplicam em todas as cidades; cirurgias plásticas são parceladas em prestações. A aparência altamente modificada passou então a funcionar como um código social que diz algo sobre disciplina, autocuidado, prosperidade ou aspiração. E a promessa implícita é sedutora: um corpo mais jovem, mais forte ou mais pode abrir portas que outros recursos não abriram.

Não por acaso, o Brasil se consolidou como um dos maiores centros mundiais de cirurgia plástica. De acordo com relatório da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), divulgado em junho de 2025, o país ultrapassou os Estados Unidos em número de procedimentos cirúrgicos estéticos, ultrapassando a marca de dois milhões de intervenções anuais em 2024. Entre as mais realizadas estão a lipoaspiração, o aumento das mamas, a cirurgia de pálpebras, a abdominoplastia e o aumento dos glúteos. Entre os procedimentos não cirúrgicos, o Botox lidera com folga, seguido por preenchimentos com ácido hialurônico e tratamentos para firmeza da pele.

Essa intensa relação com a aparência acabou se transformando em uma das imagens mais exportadas do país. Durante décadas, o mundo foi apresentado à ideia da “beleza brasileira” através de supermodelos como Gisele Bündchen, Adriana Lima e Alessandra Ambrosio, figuras que ajudaram a consolidar uma estética global associada ao Brasil: pele dourada, cabelo solto, corpos atléticos, uma mistura de naturalidade e sensualidade tropical.

Praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, nos anos 90
Adriana Lima, Alessandra Ambrosio e Gisele Bündchen, três dos nomes mais brasileiros mais reconhecidos no mundo pela sua beleza Foto: Getty Images

Talvez seja justamente essa combinação que o resto do mundo continue tentando capturar quando consome a estética brasileira. A marca Sol de Janeiro, por exemplo, construiu um império global vendendo uma ideia sensorial do Brasil. O sucesso é impressionante: a marca tornou-se uma das mais populares da Sephora e acumulou mais de um bilhão de visualizações no TikTok. Tudo isso sendo uma marca… americana. Uma fantasia tropical altamente vendável? Sim. Profundamente incompleta? Também. Porque a beleza brasileira nunca foi uma coisa só. Menos ainda possível de ser inserida em potes e replicada em massa por marcas de fora.

O Brasil é bonito pelo excesso de mistura, pela contradição de tons, texturas, traços e heranças. É bonito porque é negro, branco, pardo, indígena, mestiço, loiro improvável, cacheado exuberante, pele retinta, sardas, bocas diversas, narizes diversos, cabelos que obedecem e cabelos que jamais obedecerão. A pluralidade da beleza brasileira é mais interessante do que qualquer ideal único jamais poderia ser. E, ainda assim, o país convive historicamente com um racismo estético persistente, com hierarquias de cabelo, cor de pele e traços faciais que tornam a conversa sobre beleza inseparável da conversa sobre poder. Não basta celebrar a diversidade em campanha publicitária; é preciso admitir que, por muito tempo, a indústria vendeu um ideal estreito em um dos países mais diversos do planeta.

Nos últimos anos, porém, a Internet intensificou essa cultura estética de maneira inédita e mais ampla. O Brasil possui hoje dezenas de milhares de influenciadores especializados em maquiagem, skincare e procedimentos estéticos, criando um ecossistema digital que mistura informação, publicidade e entretenimento. Contamos com gigantes como Camila Coelho e Virginia Fonseca e, a cada dia, uma nova influencer brasileira lança sua marca de cosméticos: Bianca Andrade, Mari Maria, Niina Secrets, Bruna Tavares… A gente piscou e uma nova linha de batons 'by blogueira XPTO' surgiu no Brasil.

Continuamos, sim, a conviver com um padrão de beleza ainda bastante eurocêntrico. Mas, aos poucos, outras imagens começam a ocupar espaço. Corpos diferentes, novos tons de pele, outras histórias. Influenciadoras negras como Camila Nunes, indígenas como Maira Gomez e mulheres com deficiência, como Paola Antonini, ampliam o discurso sobre estética e ajudam a revelar, ainda que tardiamente, a diversidade que sempre existiu no Brasil. Mesmo com todos os exageros, continuo fascinada pela forma como o Brasil se relaciona com o corpo. Com o tempo, consegui me libertar um pouco da pressão de ter sempre as cutículas impecavelmente tiradas e de nunca aparecer em público com pelos à mostra. Ainda assim, gosto de ter vindo de um país que leva a beleza tão a sério. Porque, apesar de todas as contradições, há algo na estética brasileira que continua sendo profundamente irresistível.

Há algo de bonito, no sentido mais amplo da palavra, na dimensão higiênica e sensorial dessa cultura. O mundo costuma subestimar isso quando reduz tudo a vaidade ou excesso. Mas a obsessão nacional com banho, creme, cheiro, cabelo limpo, pele cuidada, roupa bonita e corpo apresentável tem um lado de prazer quotidiano que não deveria ser descartado. Existe dignidade em se arrumar. Num país onde tantas coisas são difíceis, transporte, segurança, desigualdade, o corpo acaba virando um território onde ainda é possível exercer algum controle, alguma autoria.

Viver fora faz com que eu veja isso com mais nitidez e menos julgamento. A distância ajuda a separar o que é violência cultural do que é ritual de prazer. Nem tudo precisa ser lido como opressão; nem tudo pode ser celebrado como empoderamento. A obsessão brasileira pela beleza ocupa justamente esse lugar ambíguo em que convivem opressão e invenção, mercado e autoestima, desigualdade e criatividade, sofrimento e diversão. Ela pode ser financeiramente cruel, emocionalmente exaustiva e politicamente reveladora. Mas também pode ser lúdica, coletiva, engenhosa e até alegre. No fundo, o Brasil não apenas gosta de beleza. O Brasil acredita nela.

Eu entendo vocês, gringos: é difícil não se fascinar.

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