Brasil, o país da beleza (ou da obsessão por ela)
No país do Sistema Único de Saúde, convivem clínicas fancy de harmonização facial, salões de beleza improvisados no quintal e a famosa laje - local onde as cariocas criaram o bronzeamento com fita de isolamento. No Brasil, a estética não é apenas #aesthetic, é um statement cultural.
Morar fora do Brasil por muitos anos provoca um fenómeno curioso: você passa a enxergar o próprio país com a curiosidade de quem nunca pôs os pés lá. É uma estranheza misturada com fascínio que nos faz querer ir mais a fundo até mesmo em aspetos culturais que pensávamos conhecer intimamente.
Estava em um salão de beleza em Lisboa onde o sotaque de todas, repito, todas, as profissionais era igual ao meu. Entre o barulho do secador, o lixar das unhas e as fofocas, ouvia-se uma playlist que passeava entre Luísa Sonza, Pedro Sampaio e Marina Sena. Na lista de serviços, 'brasileiro' aparecia também como um selo de qualidade: manicure brasileira, depilação brasileira, extensão de pestanas volume brasileiro, alisamento brasileiro… Entre as clientes, havia portuguesas, ucranianas, algumas espanholas, mas a maioria eram… brasileiras. Esperando o tempo da coloração no meu cabelo, observei como uma estrangeira algo que cresci acompanhando: a obsessão brasileira pela beleza. E, mais recentemente, a exportação dessa estética mundo a fora.
Poucos lugares no mundo levam o assunto tão a sério. No Brasil, beleza não é apenas estética; é cultura, linguagem social, uma infraestrutura invisível que organiza o quotidiano. E também é prazer; é celebrar o próprio corpo através do cuidado. É se arrumar para ir à praia com o mesmo afinco com que se arruma para trabalhar ou ir a um casamento. O corpo da brasileira atua como um veículo de alegria, uma extensão da festa que é a vida.
Como canta Caetano Veloso em Beleza Pura: “Quando essa preta começa a tratar do cabelo / É de se olhar toda a trama da trança, trança do cabelo / Conchas do mar, ela manda buscar pra botar no cabelo / Toda minúcia, toda delícia”-.
E essa história começa muito antes das mudanças de rosto trimestrais da Anitta.
No século XIX, a beleza feminina já ocupava lugar central nos debates sociais no Brasil. O escritor José de Alencar, por exemplo, criticava mulheres que recorriam a dentes de porcelana ou enchimentos para modificar a aparência, descrevendo-as como “infelizes vítimas dos progressos da indústria humana”. Naquele contexto, a beleza ideal era associada à naturalidade e à virtude moral. Cosméticos discretos eram aceitáveis, mas qualquer alteração muito evidente do corpo parecia ameaçar a autenticidade feminina.
Com o passar do tempo, porém, essa visão mudou radicalmente. Ao longo do século XX, especialmente a partir dos anos 1950, consolidou-se uma nova ideia: beleza não era apenas um dom natural, mas algo que poderia ser cultivado, aprimorado e até produzido. Em vez de esconder imperfeições com artifícios externos, como espartilhos, esperava-se que o próprio corpo fosse transformado. Dietas, exercícios físicos, tratamentos dermatológicos e, posteriormente, cirurgias plásticas passaram a compor um novo repertório de práticas aceitas.
Esse novo paradigma encontrou terreno fértil no Brasil. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, o corpo passou a funcionar também como uma forma de capital simbólico. Investir na aparência não significava apenas vaidade, mas muitas vezes uma estratégia de mobilidade e reconhecimento social. Afinal, quando o acesso à educação de qualidade ou a oportunidades profissionais é limitado, o corpo pode se tornar uma ferramenta visível de ascensão. Academias lotam em bairros ricos e também nas periferias; clínicas de estética se multiplicam em todas as cidades; cirurgias plásticas são parceladas em prestações. A aparência altamente modificada passou então a funcionar como um código social que diz algo sobre disciplina, autocuidado, prosperidade ou aspiração. E a promessa implícita é sedutora: um corpo mais jovem, mais forte ou mais alinhado aos padrões de beleza pode abrir portas que outros recursos não abriram.
Não por acaso, o Brasil se consolidou como um dos maiores centros mundiais de cirurgia plástica. De acordo com relatório da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), divulgado em junho de 2025, o país ultrapassou os Estados Unidos em número de procedimentos cirúrgicos estéticos, ultrapassando a marca de dois milhões de intervenções anuais em 2024. Entre as mais realizadas estão a lipoaspiração, o aumento das mamas, a cirurgia de pálpebras, a abdominoplastia e o aumento dos glúteos. Entre os procedimentos não cirúrgicos, o Botox lidera com folga, seguido por preenchimentos com ácido hialurônico e tratamentos para firmeza da pele.
Essa intensa relação com a aparência acabou se transformando em uma das imagens mais exportadas do país. Durante décadas, o mundo foi apresentado à ideia da “beleza brasileira” através de supermodelos como Gisele Bündchen, Adriana Lima e Alessandra Ambrosio, figuras que ajudaram a consolidar uma estética global associada ao Brasil: pele dourada, cabelo solto, corpos atléticos, uma mistura de naturalidade e sensualidade tropical.
Talvez seja justamente essa combinação que o resto do mundo continue tentando capturar quando consome a estética brasileira. A marca Sol de Janeiro, por exemplo, construiu um império global vendendo uma ideia sensorial do Brasil. O sucesso é impressionante: a marca tornou-se uma das mais populares da Sephora e acumulou mais de um bilhão de visualizações no TikTok. Tudo isso sendo uma marca… americana. Uma fantasia tropical altamente vendável? Sim. Profundamente incompleta? Também. Porque a beleza brasileira nunca foi uma coisa só. Menos ainda possível de ser inserida em potes e replicada em massa por marcas de fora.
O Brasil é bonito pelo excesso de mistura, pela contradição de tons, texturas, traços e heranças. É bonito porque é negro, branco, pardo, indígena, mestiço, loiro improvável, cacheado exuberante, pele retinta, sardas, bocas diversas, narizes diversos, cabelos que obedecem e cabelos que jamais obedecerão. A pluralidade da beleza brasileira é mais interessante do que qualquer ideal único jamais poderia ser. E, ainda assim, o país convive historicamente com um racismo estético persistente, com hierarquias de cabelo, cor de pele e traços faciais que tornam a conversa sobre beleza inseparável da conversa sobre poder. Não basta celebrar a diversidade em campanha publicitária; é preciso admitir que, por muito tempo, a indústria vendeu um ideal estreito em um dos países mais diversos do planeta.
Nos últimos anos, porém, a Internet intensificou essa cultura estética de maneira inédita e mais ampla. O Brasil possui hoje dezenas de milhares de influenciadores especializados em maquiagem, skincare e procedimentos estéticos, criando um ecossistema digital que mistura informação, publicidade e entretenimento. Contamos com gigantes como Camila Coelho e Virginia Fonseca e, a cada dia, uma nova influencer brasileira lança sua marca de cosméticos: Bianca Andrade, Mari Maria, Niina Secrets, Bruna Tavares… A gente piscou e uma nova linha de batons 'by blogueira XPTO' surgiu no Brasil.
Continuamos, sim, a conviver com um padrão de beleza ainda bastante eurocêntrico. Mas, aos poucos, outras imagens começam a ocupar espaço. Corpos diferentes, novos tons de pele, outras histórias. Influenciadoras negras como Camila Nunes, indígenas como Maira Gomez e mulheres com deficiência, como Paola Antonini, ampliam o discurso sobre estética e ajudam a revelar, ainda que tardiamente, a diversidade que sempre existiu no Brasil. Mesmo com todos os exageros, continuo fascinada pela forma como o Brasil se relaciona com o corpo. Com o tempo, consegui me libertar um pouco da pressão de ter sempre as cutículas impecavelmente tiradas e de nunca aparecer em público com pelos à mostra. Ainda assim, gosto de ter vindo de um país que leva a beleza tão a sério. Porque, apesar de todas as contradições, há algo na estética brasileira que continua sendo profundamente irresistível.
Há algo de bonito, no sentido mais amplo da palavra, na dimensão higiênica e sensorial dessa cultura. O mundo costuma subestimar isso quando reduz tudo a vaidade ou excesso. Mas a obsessão nacional com banho, creme, cheiro, cabelo limpo, pele cuidada, roupa bonita e corpo apresentável tem um lado de prazer quotidiano que não deveria ser descartado. Existe dignidade em se arrumar. Num país onde tantas coisas são difíceis, transporte, segurança, desigualdade, o corpo acaba virando um território onde ainda é possível exercer algum controle, alguma autoria.
Viver fora faz com que eu veja isso com mais nitidez e menos julgamento. A distância ajuda a separar o que é violência cultural do que é ritual de prazer. Nem tudo precisa ser lido como opressão; nem tudo pode ser celebrado como empoderamento. A obsessão brasileira pela beleza ocupa justamente esse lugar ambíguo em que convivem opressão e invenção, mercado e autoestima, desigualdade e criatividade, sofrimento e diversão. Ela pode ser financeiramente cruel, emocionalmente exaustiva e politicamente reveladora. Mas também pode ser lúdica, coletiva, engenhosa e até alegre. No fundo, o Brasil não apenas gosta de beleza. O Brasil acredita nela.
Eu entendo vocês, gringos: é difícil não se fascinar.
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