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Fernanda Serrano: viver a vida

À espera do quarto filho - a sua terceira menina - Fernanda Serrano está feliz. E isso nota-se. Filha imensamente agradecida e mãe sempre dedicada, a atriz diz que a família para ela é tudo. Prioridade. Energia. Alimento. Diversão. E, sobretudo, amor.
Por Máxima, 11.06.2015
Atravessei a Ponte 25 de Abril para me encontrar com a Fernanda. E dei por mim a fazer contas. Devia ter passado pelo menos uma dúzia de anos desde o dia em que percorri aquele mesmo caminho, em direção a casa dela, para uma entrevista. Doze anos? Sim. Pelo menos. Não a conhecia pessoalmente mas lembro-me que gostei logo dela. Tinha uma qualidade que considero cada vez mais rara nas pessoas em geral (e porventura nas celebridades em particular): sabia ouvir. Mais do que isso, parecia genuinamente interessada na conversa, curiosa até. Como se não fosse ela ali o centro das atenções. A ex-modelo transformada em atriz, respeitada, a atravessar um bom momento de carreira. A figura pública assediada pela imprensa, inegavelmente atraente, de todas as perspetivas. O tipo de mulher que sempre irradia aquela luz própria de quem tem tudo bem resolvido. Mas, numa década, muito muda. E se muito mudou em mim e na minha vida, mais ainda aconteceu na dela. "Pois, na minha, aconteceu mesmo muitoooo", concordou ela, a arrastar a frase e a subir o tom, mal partilhei com ela estes pensamentos. Rimos. Expliquei-lhe que esta conversa, que tinha como pretexto a gravidez e como tema a família, não teria de ser sobre nada que nenhuma de nós não quisesse. A mim, confesso, não me  apetecia muito fazer perguntas sobre um casamento em crise, sobre um passado de doença, sobre perda e dor. Ao vê-la, tão grávida e sorridente à minha frente, tive a certeza de que preferia falar da vida, nem que fosse de todas as suas minudências e trivialidades. Falar sobre pais e filhos, sobre rotinas da casa e trabalhos da escola, sobre as praias e as músicas preferidas, sonhos eternamente adiados. Ela sugeriu que avançássemos sem muitos planos. Foi isso que aprendeu com a mãe, ainda em miúda. Foi também esse um dos grandes ensinamentos que a vida lhe acabou por dar. Fernanda falou. Empolgou-se a comentar o seu trabalho.  Entusiasmou-se a recordar as suas aventuras de surfista. Emocionou-se a falar do filho. E eu troquei o alinhamento de uma entrevista pelo prazer da conversa.

Tem sido uma vida cheia de acontecimentos...
Tanto os 20 como os 30 anos foram realmente muito preenchidos. Aos 19 anos fui morar sozinha para outro país, conquistei a minha independência, assumi uma série de responsabilidades que me catapultaram para um registo mais adulto. E isso acabou por ser muito eficaz. Sempre fui responsável mas habituei-me a viver muito em função do improviso e a arriscar muito. Fazia surf e corridas de todo-o-terreno, andava de mota, não tinha medo de nada. Eu era o verbo ir. Achava sempre que ia correr tudo bem. O facto de ter ido viver para Barcelona, acabou por ser muito importante para o meu crescimento. Era para durar um mês e acabou por se prolongar durante um ano. Essa mudança foi reflexo dessa capacidade de arriscar mas com a noção de que não tinha uma estrutura familiar por trás. Sou filha única e foi um extremo ato de coragem por parte dos meus pais. Não sei se, enquanto mãe, seria capaz de o fazer.

É uma mãe controladora?
Sou, sou e estou demasiadamente informada acerca de muita coisa. Vivi muito. Acabo por ser uma mãe com receio de tudo e tenho noção de que vou ter de fazer um trabalho enorme para respeitar o espaço e a liberdade dos meus filhos (Santiago, dez anos, Laura, sete anos, e Maria Luísa, cinco anos). Se pudesse viver com olhos postos em cada um deles, fá-lo-ia... o que, reconheço, se pode tornar um pouco doentio. A ideia de ter mais um ser, ainda mais dependente do que os outros... confesso que me deixou um bocadinho apreensiva. Tenho a sorte de contar com os meus pais na retaguarda mas quando se apanha um susto e se passa por uma situação mais delicada, temos de pensar nos filhos antes de pensar em nós próprios.

Parece que, entre tantas solicitações, preocupações e cuidados, não lhe sobra muito tempo para si. Lamenta-o?
Fiz tanta coisa antes de ser mãe. Viajei tanto. Trabalhava muito mas divertia-me muito. Aproveitei tudo, portanto, não tenho qualquer sensação de ter ficado alguma coisa por fazer. Fiz tudo o que me deu na real gana e na altura em que quis. Isto é um pleno, um privilégio. Ser mãe sempre foi uma das prioridades da minha vida. Nunca foi encontrar o príncipe encantado ou casar... Aliás, casar nunca fez parte dos meus planos, mas depois as coisas mudam e os planos, tal como os próprios desejos, reajustam-se. Sempre quis ter cinco filhas. Venho de uma família muito matriarcal – a minha mãe tem várias irmãs e todas tiveram filhas. Somos todas mulheres
com muita fibra, muita genica, muito trabalhadoras e donas do seu nariz. Gosto de mulheres fortes e sempre
achei que ia dar continuidade a esta tradição feminina. Comecei por ter um rapaz, aos 31 anos, mas agora, aos 41, espero a terceira rapariga. E a verdade é que, desde que tive filhos, tudo mudou. São, desde o primeiro momento, a minha grande prioridade.

Ter optado por viver longe de Lisboa também teve a ver com eles?
Não sou nada urbana, não sei desfrutar da cidade. Tive uma fase de experimentação em que vivi na cidade mas não me senti bem. Adoro passar a ponte. Preciso de estar na minha praia e perto dos meus amigos de sempre. Vou a qualquer lado e há sempre alguém que conheço. Sinto-me bem aqui, gosto de frequentar os mesmos sítios, de alimentar as minhas rotinas. Claro que gosto de viajar, de dar mundo aos meus filhos (até porque
o tive e sei que isso é fundamental). Regularmente, gosto de passar um dia só com um dos meus filhos. Acho que é importante para eles (e para mim) sentirem que naquele dia têm toda a atenção. E nisto passo a vida a planificar, a fazer listas. Tenho sempre de saber como é que vai ser o dia seguinte. Mas só o dia seguinte, não gosto de fazer planos, porque a inevitabilidade da vida encarrega-se de os alterar. Habituei-me a ouvir a minha mãe a dizer que não valia a pena fazer planos. E acabei por ser também assim.

Fala recorrentemente dos seus pais.
Sempre tive uns pais muito presentes e sei que isso é eficaz, que faz de nós pessoas mais seguras, mais capazes, mais atentas e, sobretudo, mais felizes. Os meus pais não me puderam proporcionar tudo o que hoje posso dar aos meus filhos mas a verdade é que nunca senti falta de nada: os valores, a educação, o carinho, a presença... estiveram sempre lá. Não houve um momento importante da minha vida em que eles não estivessem presentes. Considero isto uma raridade. Já passei por tanto com a minha mãe... Hoje não consigo imaginar passar um dia sem falar com ela.

São muito parecidas?
Herdei muitas coisas dela, sobretudo na educação que dou aos meus filhos mas talvez seja menos autoritária. Não faço valer apenas e só a minha opinião. Consigo dar espaço aos meus filhos, tento perceber o lado deles e assim chegar a um consenso... Talvez esteja mais informada. Talvez por não ter concordado com a forma como ela geriu certas situações... coisas pontuais. Lembro-me de que ela era uma mulher de muito trabalho. Hoje,
penso nisso: a quantidade de coisas que ela tinha para fazer e ainda assim continuar tão presente na minha vida não deve ter sido nada fácil.

Ainda os consulta muitas vezes antes de tomar uma decisão?
Às vezes preciso de ouvir várias opiniões para formar a minha, mas em outros casos nem preciso de falar com eles. Já os conheço tão bem que sei bem o que vão dizer. Mas comunico, por uma questão de respeito.

Avançar com a terceira gravidez foi a decisão mais solitária da sua vida?
Foi. A mais difícil e a mais solitária. Ninguém quis opinar. A única pessoa a falar, e sobretudo motivada pelo medo e porque se tratava da filha, foi mesmo a minha mãe. Infelizmente, já se tinha visto numa situação similar, aquando da irmã, que também teve um problema de saúde com uma gestação pelo meio e, infelizmente, não teve um final feliz. A minha mãe não queria correr mais riscos. Compreendo-a tão bem. O problema, na altura, não foi a minha capacidade de aceitação dessa opinião ou de outra. O problema é que não conseguia serenar, independentemente da decisão tomada. Não era uma situação fácil, pelas semanas de gestação (17), porque era tudo muito denso... Os médicos não me davam respostas nem segurança. A literatura diz uma coisa, mas cada organismo responde de forma diferente e cada médico tem uma opinião própria. Procurei cinco, seis, sete opiniões médicas e todas elas eram diferentes. Concordavam numa coisa: a decisão era minha. Mas um dia acordei e nunca mais tive um instante de dúvida.
As situações de limite têm esse poder de nos transformar. Foi o caso?
Acho que não. Sou a mesma. Eventualmente, acho que hoje sei gerir melhor o meu tempo. Por exemplo, não perco tempo com pessoas ou situações que não merecem. Faço coisas de que gosto. É bom sentir que todos os minutos contam. Nunca me deixei levar por pensamentos do género: "Porquê eu?" Claro que houve momentos de
angústia e de choque mas depois é preciso resolver. Agir. Não sou pessoa de ficar em banho-maria. Gosto de resolver e seguir em frente. Acho que, na realidade, isso é que é viver. Foi um episódio que aconteceu, felizmente bem resolvido e agora só quero viver. Mas nunca estamos livres do que quer que seja, tendo passado por situações destas ou não. As preocupações têm de ser as mesmas.

E estar grávida aos 40?
Estive a fazer teatro até há duas semanas. Sinto-me com uma energia incrível. Adoro estar grávida. As minhas gravidezes são muito similares, porque me sinto muito bem. Muito capaz de tudo. Com uma força ainda maior, porque há mais ainda por que lutar. E trabalhar ainda mais.

Ainda lhe dá gozo fazer novelas?
Trabalho há 21 anos e grande parte desse tempo foi a fazer novelas. Fiz alguns filmes, algumas peças de teatro, mas a verdade é que tem sido na televisão que tenho marcado o meu percurso. Cada novela dura um ano. E eu fiz muitas. Gosto do registo, da rapidez, da adrenalina, de não ter muito tempo e por isso ter de arriscar. Acho que essa maior velocidade até nos pode dar mais criatividade, mais genuinidade. Porventura
até mais genialidade, quando ela existe. Gosto do que conseguimos dar intuitivamente, porque na vida também é assim.

Mas essa tornou-se a sua zona de conforto...
Não. Aliás, trabalho arduamente para que isso não aconteça. Vejo várias coisas que reconheço serem vícios de trabalho, bengalas de descanso. Não gosto de o ver, logo procuro não o fazer.

Sente-se satisfeita com o que alcançou? Não lamenta nada, nesse campo?
Quando fiz o meu primeiro filme, em Espanha, regressei a Portugal para umas miniférias e tive uma fase de grande indecisão. Se devia ficar cá, onde já tinha muita notoriedade e trabalho, ou se devia ir, porque ainda era jovem e era a altura de arriscar. Acho que foi um momento-chave. Acabou por ser uma conta fácil de fazer, porque deste lado da balança havia muito a pesar. Mas sempre tive muita confiança em mim. Acho que, com trabalho, tudo se consegue. No entanto, hoje, quando olho para trás, pergunto-me se terei tomado a decisão mais correta. Mas só nesse momento. No entanto, posso dizer sem reticências que estou hipersatisfeita com o meu percurso. Tem sido um caminho cheio de trabalho, de bons trabalhos, projetos variados e sempre muito reconhecidos.

Sente-se uma figura consensual?
Sempre me senti muito acarinhada. Mas também não me recordo, mesmo nos meus piores dias, de ter tido um gesto menos simpático com alguém que me abordasse, com o meu público. Há sempre um sorriso, uma palavra da minha parte. Acho mesmo que é o mínimo que posso fazer com pessoas que são generosas comigo.

Mas depois há o outro lado... Como é que se aprende a lidar com posturas mais agressivas e invasivas?
Não se aprende, nem se evita. Respondo única e exclusivamente ao que quero e a quem quero. Às vezes, posso ser um bocadinho mais rude porque como tenho a minha vida e vivo a minha vida, não perco tempo a viver a vida dos outros. Não gosto que façam isso por mim. Não  posso evitar que se escrevam certas coisas, boa parte delas inconclusivas e irreais, mas não sofro com isso. Quando é o caso recorro às vias legais, que demoram o seu tempo e são dispendiosas mas, regra geral, até são eficazes. Nunca expus a minha casa, os meus filhos, a minha relação. Esse é o meu mundo, onde só vai quem eu quero. Eu gosto de falar sobre mim, sobre o meu trabalho. Mas sou eu que escolho. Há pouco tempo saiu numa revista uma notícia relacionada com a fase complicada que passei. Sete anos depois, fizeram uma capa a falar do mesmo e o meu filho leu. Isso foi duro.
Porque esperava poder ter essa conversa com ele, decidir o melhor momento. Durante esse processo de doença eu falei: marquei uma conferência de imprensa onde me dispus a responder a todas as questões. Mas só nesse dia. Mais tarde, voltei a falar mas depois chega. Pesquisem essa informação, procurem no livro, mas não me massacrem mais com perguntas. A situação passou, foi resolvida, vamos andar para a frente. Vamos falar da vida.

Equilíbrio. Diria que é a melhor palavra para a definir, hoje?
Depende das horas [risos]. Preciso de equilíbrio para organizar a minha vida profissional e familiar, mas depois vivo num turbilhão. Adorava fazer uma série de coisas que ando sempre a protelar. O ginásio, por exemplo. Aos 25 dizia que iria começar aos 30 mas depois, aos 30, sentia que estava ótima. E assim passava para os 35 e, entretanto, já cheguei aos 41. Se calhar é melhor começar a pensar nisso... A Lei da Gravidade funciona para todos. Mas tenho protelado tanto que, quando finalmente começar, acho que vou ter imensos resultados. Aos 60 vou estar ótima. [Risos] E aos 50 vou descobrir a meditação mas, por enquanto, há sempre alguém que fala lá
em casa. O bom é ter sempre alguma coisa para perseguir.

Nem que seja o tal quinto filho.
Isso não! Se este já é um ato de coragem, outro seria quase insano.

É um ato de coragem?
Acho que sim. É uma responsabilidade, sobretudo pela sociedade em que vivemos. Há falta de tolerância, de oportunidades, de civismo, de paciência. Isso assusta-me. Dou por mim a pensar em coisas que antes eram impensáveis. Penso muito no que toca aos meus filhos, nas coisas que podem correr mal. Lá está, é uma área em que tenho de desenvolver um grande trabalho, de forma a que todo o processo seja simpático para mim. Mas acho que a vida me vai ajudar a gerir isto.

Confia, portanto.
Claro. Não posso pensar de outra forma. Mas mesmo que não pensasse assim e não tivesse este espírito de positivismo, obrigar-me-ia a ser assim. Caso contrário, não podia ser a mãe positiva, alegre e divertida que sou. É assim que acho que eles me veem e é assim que quero que seja. Ouvi-los dizer que sou divertida é a melhor coisa que posso ouvir na vida. Todos os dias, quando os deixo na escola, digo-lhes: divirtam-se, sejam felizes. Tem de ser assim. Caso contrário,isto é tudo uma chatice.


Por Rita Lúcio Martins
Tags: fernanda serrano família filhos maternidade
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