"Sou brasileira e estou ofendida". A Havaianas subiu ao salto - ou foi o salto que lhes subiu à cabeça?

Do Brasil para Copenhaga, o novo salto reacende a obsessão da moda pelos chinelos e o debate sobre quem pode reinventar um ícone cultural.

Mulher com Havaianas verde esmeralda em frente a um muro de pedra Foto: @havaianaseurope
05 de agosto de 2026 às 12:57 Safiya Ayoob

Quando me falam do estilo de Copenhaga a minha cabeça vai automaticamente para chinelos. A semana da moda dinamarquesa tornou-se uma presença cada vez mais relevante numa indústria que nem sempre é particularmente aberta a quem vem de fora. Mas Copenhaga fez algo que chamou a atenção de toda a gente - e que nos deixa sempre à espera da nova edição: voltou a colocar o street style no mapa. Estamos cansadas de ver celebridades a chegar aos desfiles com looks acabados de sair da passerelle. Queremos ver estilo pessoal autêntico. Queremos que as pessoas se vistam de forma estranha o suficiente para nos fazer pensar, reconsiderar os nossos próprios armários e querer experimentar mais com a roupa que já temos.

Foram inúmeras as tendências que saíram das ruas da Semana da Moda de Copenhaga, e os chinelos foram uma delas. Como observou a Stylist num artigo de 2019, "as mulheres mais elegantes do mundo estavam a usar chinelos na semana da moda". Mas não estavam a usar uns chinelos quaisquer. Estavam a usar Havaianas.

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Este foi apenas o início do abraço europeu ao calçado brasileiro. Mas não podemos fingir que foram as mulheres europeias que trouxeram este estilo para a moda. Essa seria uma versão extremamente eurocêntrica da História. Como acontece tantas vezes na indústria, a moda de outras culturas raramente é valorizada nos seus próprios termos. Em vez disso, o sistema dominante prefere dizer que foi "inspirado" por ela, reapresentando-a como algo novo sem dar o devido crédito. Mas essa é uma conversa para outra altura.

Os brasileiros usam Havaianas desde muito antes de eu sequer existir. Ainda assim, não podemos negar que ver chinelos combinados com calças de alfaiataria, tops estruturados e acessórios cuidadosamente escolhidos alterou a forma como muitos públicos europeus entendiam o outfit. Esse contraste desconstruiu a ideia do que poderia ser considerado elegante ou cuidado. A tendência foi rapidamente adotada por todos e em todo o lado. Em vez de desaparecer como mais uma microtendência, foi ganhando força a cada verão. Neste momento, quase não existe uma Semana da Moda de Copenhaga sem Havaianas.

Havaianas lança chinelo com salto e debate sobre ícone cultural brasileiro Foto: @havaianaseurope

Por isso, faz todo o sentido que Copenhaga tenha sido o cenário escolhido pela marca para apresentar a sua nova silhueta - “um ícone, reinventado”, como a Havaianas lhe chamou nas redes sociais. E o momento parece certo. Os kitten heels estão por todo o lado este verão. Atrevo-me até a dizer que são os novos rasos. Mas um salto que também parece um chinelo? Esse é o ponto ideal.

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Para um nome tão icónico como a Havaianas - e aqui o termo icónico não está a ser usada em vão -, apresentar uma silhueta tão diferente depois de décadas a aperfeiçoar aquilo que faz melhor é genuinamente entusiasmante. A marca já anda há algum tempo a experimentar novas formas e colaborações. Dos recentes modelos com Isabel Marant à coleção split-toe criada com P. Andrade, a marca parece estar a entrar numa nova e divertida era do calçado. E não está sozinha. Em toda a indústria, os sapatos estão a tornar-se mais estranhos, mais excêntricos e cada vez mais difíceis de definir.

O novo kitten heel, apresentado durante a Semana da Moda de Copenhaga, mantém a textura de borracha associada às Havaianas clássicas. No entanto, a construção é visivelmente diferente: em vez de separar completamente o dedo grande do pé, o design parece envolvê-lo ou encapsulá-lo. Continua a ser reconhecível como uma Havaianas, mas surge distorcida numa forma mais escultórica. É controverso? Sem dúvida. Muitos brasileiros nos comentários do Instagram disseram sentir-se quase ofendidos com o modelo. E eu percebo a reação. As Havaianas são um símbolo cultural brasileiro, e vê-las serem transformadas e celebradas dentro de um contexto de moda europeu pode aproximar-se desconfortavelmente da apropriação - sobretudo quando o contexto cultural original é tratado como uma nota de rodapé.

Havaianas reinventa os seus chinelos em Copenhaga, reacendendo o debate sobre ícones culturais Foto: @havaianaseurope

Ao mesmo tempo, num mundo moldado por microtendências que aparecem e desaparecem a uma velocidade absurda, há algo de refrescante em ver um estilo manter-se relevante durante mais de cinco anos. O chinelo não se limitou a sobreviver ao ciclo de tendências da moda; ganhou ainda mais força a cada verão. E isso leva-nos a perguntar: o que há neste tipo de calçado que faz com que as pessoas continuem a querer comprá-lo e usá-lo com vestidos de verão? Talvez seja a forma como os chinelos chocam com a imagem de perfeição que passou a estar associada à roupa de verão. Pensemos nas férias europeias cuidadosamente curadas: o vestido de linho impecável, o cesto a combinar e um guarda-roupa planeado com meses de antecedência. Um simples chinelo de borracha interrompe essa fantasia. Introduz descontração, humor e uma certa recusa em parecer que se tentou demasiado.

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Será isso que separa as chamadas cool girls de toda a gente? Como já se perguntou tantas vezes no TikTok: será que as pessoas percebem que não estou a usar chinelos porque não percebo nada de moda? Será que percebem que os estou a usar à maneira de Copenhaga?

Talvez devêssemos chamar-lhe a maneira brasileiro-copenhaguense. Mas isso somos só nós.


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