Serão os "sapatos feios" a salvação da indústria da moda? E porque gostamos tanto deles?

Estamos a assistir ao aparecimento de sapatos pouco convencionais e que provavelmente não seriam a nossa primeira opção, mas os números não mentem e a popularidade está a aumentar exponencialmente. Mas o que que têm, afinal, estes sapatos de tão especial?

Saint Laurent Menswear Spring/Summer 2027 Foto: Getty Images
26 de junho de 2026 às 10:00 Safiya Ayoob

No meio do nevoeiro - que serve de instalação imersiva da artista Fujiko Nakaya, intitulada Cloud #07156 - os modelos circulam no desfile da Saint Laurent, onde Anthony Vaccarello apresenta a nova coleção de moda masculina para o verão de 2027. Surgem, como sempre, as linhas limpas que já ficámos a conhecer - e que adoramos -, mas mais do que as camisas há uma peça que simplesmente não nos sai da cabeça: os sapatos. À primeira vista, parecem sapatos clássicos, normais, o esperado. Mas se olharmos com mais atenção, percebemos que conseguimos ver os pés dos modelos que os calçam. Vemos o embaciamento, quase como uma continuação do nevoeiro da instalação. Sapatos da Saint Laurent em PVC? Life in plastic is fantastic.

Saint Laurent Menswear Spring/Summer 2027 Foto: Getty Images
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Dorothy em O Feiticeiro de Oz (1939), Cinderela em Cinderella (1950), Carrie Bradshaw em O Sexo e a Cidade (1998), Marty McFly em Regresso ao Futuro II (1989). O que têm estas personagens em comum, para além do facto de serem cult classics? O calçado. Não como um acessório referido de passagem, mas como um grande pedaço da História. Não conseguimos pensar na estrada amarela sem mencionar os sapatos vermelhos de Dorothy, que são a estrela do fim do filme; falar de princesas sem relembrar os sapatos de vidro deixados nas escadas; ou pensar em Carrie sem ouvir a frase: "I spent $40,000 on shoes and I have no place to live?" ("Gastei 40 mil dólares em sapatos e não tenho onde viver?"). A verdade é que não é "só calçado". Falamos de uma peça que, para muitos, é o make or break de um ootd (outfit of the day). Uma pequena carta de entrada para o mundo da moda, por ser considerada "mais acessível" do que uma carteira. 

A coleção Cruise da Chanel apresentada em Biarritz,, acordou-nos para esta onda de sapatos 'estranhos'. Para os que não estão a par, Blazy apresentou nessa coleção aquilo a que podemos chamar "os não sapatos", já que só cobrem os calcanhares. Mas este não foi o primeiro calçado que nos fez olhar duas vezes. Como refere o artigo How Weird Shoes Became a Business Strategy, do Business of Fashion (BoF), "a Loewe está a comercializar as 'aqua booties', um par de sapatos de salto alto em PVC estruturados e transparentes, e o modelo 'Tabi' da Maison Margiela, outrora cult e de inspiração japonesa, tornou-se mainstream, com marcas como a Steve Madden e a Nike a explorarem o estilo com biqueira dividida".

Esta tendência do freaky shoe - termo que podemos associar à escritora Mandy Lee, cujos vídeos de hauls de sapatos no TikTok nos mostram sempre o quão aborrecidas estamos a ser com as nossas próprias escolhas de calçado - não surgiu agora, como nos relembra também a Byrdie. "A tendência vem-se consolidando há anos", diz o artigo do BoF, e tem sido alimentada ao longo do tempo pelas mesh shoes da Alaïa e pelas suas variantes mais acessíveis, ou até pelo clássico chinelo que é um staple de verão. Tendência de Copenhaga, alguém? Ou apenas um brasileiro num dia normal.

Alaïa Fishnet ballet flats Foto: Getty Images

A razão para esta adoção da dita estranheza tem uma explicação muito simples. Num mercado tão saturado como o da moda, estamos cansadas do habitual, do que está em tendência e do que é esperado tendo em conta aquilo que as influenciadoras nas redes sociais dizem que é giro. Queremos o invulgar. Queremos coisas que nos entusiasmem a vestir de manhã. Tory Burch, criadora dos famosos sapatos com um piercing no dedo, disse, em conversa com o BoF: "As pessoas estão cansadas da perfeição e do óbvio e são cada vez mais atraídas para coisas inesperadas. Os sapatos têm essa tensão".

Tory Burch Pierced leather mules Foto: Getty Images

E é capaz de ser isso que torna estes sapatos tão difíceis de ignorar. Não são apenas bonitos, nem sequer precisam de o ser. São estranhos, fazem-nos parar, olhar outra vez e tentar perceber se gostamos ou se estamos apenas confusas. Nos dias que correm, o maior trunfo da moda talvez seja esse: uma peça que ainda consegue provocar alguma coisa.

 

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