Luís Carvalho lança coleção inspirada na memória: "Gosto que a minha roupa proporcione conforto, confiança e um certo poder"
Entre aquilo que foi vivido e aquilo que permanece na memória nasce a nova coelção de Luís Carvalho, apresentada na edição "Pebbling" da ModaLisboa. O designer mostrou à Máxima as peças em primeira-mão.
Luís Carvalho apresenta coleção inspirada na memória na ModaLisboa
Foto: Luís Carvalho15 de março de 2026 às 21:30 Safiya Ayoob
As memórias raramente permanecem intactas: com o tempo desfocam-se, transformam-se e ganham novos significados. É precisamente esse território entre o que aconteceu e aquilo que recordamos ter vivido que inspira AFTERIMAGE, a coleção de outono/inverno 26/27 de Luís Carvalho apresentada na edição Pebbling da ModaLisboa. A partir desta ideia, o designer constrói um universo em que a roupa funciona como arquivo emocional - através de silhuetas estruturadas, texturas marcadas e detalhes que evocam vestígios do tempo. Em conversa com a Máxima, fala sobre o conceito da coleção, o processo criativo e os momentos que antecedem o desfile.
Podes falar-nos um pouco sobre a nova coleção que apresentas nesta edição da ModaLisboa? Qual é a história ou o ponto de partida conceptual?
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Esta nova coleção tem como principal mote as memórias - daí o nome AFTERIMAGE, a imagem que permanece na retina mesmo depois de desaparecer. A partir desse conceito explorei materiais com marcas e texturas, como enrugados e pregas criadas através de pequenas costuras, quase como vestígios que o tempo deixa. Há também detalhes como grandes bolsos, que funcionam como uma metáfora para o lugar onde guardamos as memórias e os sonhos. A coleção revisita ainda algumas silhuetas do passado, com cinturas marcadas e ombros largos. A paleta é quase totalmente monocromática, em tons de cinzento e preto, com o vermelho a surgir como cor de contraste e intensidade.
Luís Carvalho apresenta coleção "Afterimage" na ModaLisboa, com inspiração na memória
Foto: Luís Carvalho
Pebbling, o tema desta edição, é o ato de oferecer pequenos gestos para criar ligação. Que sensações esperas que as tuas peças ofereçam a quem as veste/vê?
Gostava que as pessoas se sentissem especiais - daquelas formas silenciosas, mas muito fortes. Que sintam conforto, confiança e um certo poder tranquilo. No fundo, que vestir estas peças seja um mimo para consigo próprias.
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Que referências - artísticas, culturais ou pessoais - influenciaram o teu processo criativo desta vez?
Há três grandes universos que me inspiram constantemente: a natureza, a música e a arquitetura. Não consigo apontar uma referência específica, porque de coleção para coleção vou absorvendo um pouco de cada um destes mundos e, a partir daí, construo os conceitos.
Luís Carvalho apresenta coleção inspirada na memória na ModaLisboa "Pebbling".
Foto: Luís Carvalho
"It takes a village" para criar uma coleção/marca. Quem é a tua aldeia?
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(Risos.) A minha aldeia, na prática, é bastante pequena: sou eu, a minha costureira e, às vezes, um estagiário corajoso que se junta à aventura. Mas à volta disso existe uma rede maior que torna tudo possível. A Showpress - neste momento com a Mariana - toda a equipa da ModaLisboa, desde quem está no escritório até quem está na produção. E claro, os meus amigos que me apoiam sempre nos bastidores e na vida: André Morna, Bá, Li, Soraia e Tânia Dioespirro.
Há sempre uma história, ou várias, no processo de criar uma coleção. Quais os momentos mais conturbados desta?
Talvez o momento mais desafiante tenha sido trabalhar com um tecido específico com pedrarias. Só depois de o comprar é que percebi a verdadeira dificuldade - e o drama - que seria trabalhar com ele. Foi um grande teste técnico.
Luís Carvalho apresenta coleção inspirada na memória na ModaLisboa
Foto: Luís Carvalho
E quais os mais felizes?
Todo o processo foi muito feliz, porque desde o início senti que o caminho da coleção estava muito bem definido. Mas um dos momentos mais especiais foi quando surgiu a ideia da parceria que estou a desenvolver com a marca Topázio.
Que materiais foram predominantes nesta coleção? Houve alguma aposta em novos tecidos ou técnicas de confeção?
Usei sobretudo tecidos de alfaiataria, sarjas e alguns jacquards com efeitos de relevo e enrugado. Ao nível da confeção, os pregueados foram provavelmente o elemento mais desafiante de executar, exigindo bastante precisão e trabalho manual.
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Luís Carvalho apresenta coleção inspirada na memória na ModaLisboa
Foto: Luís Carvalho
Que silhuetas ou formas definem esta coleção? Existe alguma peça-chave que represente particularmente bem o conceito?
As silhuetas são maioritariamente oversize, mas com cinturas mais marcadas, criando um equilíbrio entre estrutura e volume. Diria que os casacos são talvez as peças que melhor representam a coleção, porque concentram muitos dos detalhes e das ideias que quis explorar.
Qual o teu momento preferido do teu desfile?
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Curiosamente, o meu momento preferido são as quatro horas antes do desfile. O caos organizado do backstage: fittings de última hora, decisões rápidas, amigos por todo o lado e aquela energia meio nervosa meio elétrica. É quando tudo começa realmente a ganhar vida.
Luís Carvalho apresenta coleção inspirada na memória na ModaLisboa "Pebbling"
Foto: Luís Carvalho
No início do século 20, o principal objetivo das passerelles era a promoção e a venda de produtos - hoje, a runway tem muito mais significados. Qual é, para ti, o propósito de um desfile de moda?
Claro que existe uma dimensão comercial - o desfile é, de certa forma, uma montra. Mas também o vejo como um momento muito emocional e quase performativo. Duas vezes por ano tenho a oportunidade de transformar uma coleção numa história e partilhá-la com o público.
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Com a velocidade do mundo de hoje em dia, como fazer a tua marca destacar-se no meio de tanto ruído e criar o máximo de impacto?
Acho que passa muito por observar o mundo à nossa volta e perceber para onde as coisas estão a mover-se. No meu caso, também existe um motor muito pessoal: as minhas próprias inseguranças. Essa vontade constante de fazer melhor obriga-me a evoluir de coleção para coleção. Sou bastante exigente comigo mesmo - talvez até demasiado.
Luís Carvalho apresenta coleção "AFTERIMAGE" inspirada na memória na ModaLisboa
Foto: Luís Carvalho
Como vês o presente da moda em Portugal? E o futuro?
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Não gosto muito de fazer previsões. Prefiro focar-me no presente, no trabalho que estou a desenvolver agora. Quanto ao futuro, espero apenas que continue a ser feito de muito trabalho e de novos desafios profissionais.
Antes de sabermos exatamente quem somos, muitas vezes começamos por experimentar através da roupa. É esse momento inicial - livre, intuitivo e cheio de tentativas - que inspira a nova coleção da designer portuguesa.
Por mais uma estação, Joana Duarte aposta no que dura: tempo, cuidado e dedicação. Enquanto a gentrificação transforma ruas em vitrines, a Béhen mantém a tradição portuguesa viva, bordando o passado no presente.