Ninguém sabe o que vestir este verão, apenas estas girls
São 21 looks de inspo, o vosso próprio Pinterest board. De nada.
Cor-de-rosa. Na teoria da cor, o cor-de-rosa nasce da combinação entre o vermelho e o branco. Carrega a energia e a paixão do vermelho, suavizadas pela pureza e delicadeza do branco. Na comunicação visual, é frequentemente associado ao romance, à feminilidade, à compaixão e à brincadeira, como pode ser também algo mais incisivo: uma afirmação, uma assinatura, uma forma de definição pessoal. É também a cor mais associada a Elle Woods. Primeiro interpretada por Reese Witherspoon em Legalmente Loira (2001), Elle tornou-se uma das personagens mais reconhecíveis da cultura pop não só pelo que dizia ou fazia, como pela forma como entrava numa sala. O cabelo loiro, o guarda-roupa cor-de-rosa ("Whoever said orange is the new pink was seriously disturbed"), os acessórios perfeitos - tudo na sua imagem parecia dizer uma coisa, enquanto a sua inteligência, persistência e clareza emocional provavam outra.
Agora, em Elle, a nova série da Prime Video protagonizada por Lexi Minetree enquanto uma versão mais jovem da personagem, o cor-de-rosa regressa. Mas regressa de outra forma. A primeira temporada começa com uma montagem que nos transporta imediatamente para a linguagem visual do final dos anos 90 e início dos anos 2000, quando os filmes adolescentes e as comédias românticas sabiam exatamente como apresentar uma rapariga, um universo e um estado de espírito em apenas alguns minutos. Há nostalgia, claro, mas não de uma forma presa ao passado. É uma nostalgia com um toque contemporâneo - algo que a cultura pop tem procurado, e desejado, há já algum tempo.
Tivemos a oportunidade de ver a primeira temporada completa de Elle, composta por oito episódios, antes da estreia. Naturalmente, as expectativas eram altas. Mas, desde o início, torna-se claro que a Elle que vamos conhecer ainda não é a Elle Woods que já conhecemos. Não é ainda a licenciada em Direito por Harvard, confiante, que entra num tribunal vestida de cor-de-rosa e muda por completo a energia da sala. Tem 16 anos. Ainda está a tornar-se quem será. Como nos explicou Sophie de Rakoff, figurinista dos dois primeiros filmes de Legalmente Loira e agora também da série, durante uma entrevista por Zoom, "é uma história de origem. Por isso, ela é uma personagem diferente. Estamos a conhecê-la aos 16 anos".
Esta distinção é importante. Não podemos entrar em Elle à espera da versão totalmente formada da personagem. Esta é uma Elle adolescente, a lidar com problemas de adolescente - rapazes, amigas, família, identidade, pertença. Como explicou de Rakoff, “é esquecer tudo o que sabíamos e voltar atrás. Vamos recuar e começar a olhar para as coisas através de uma lente completamente diferente, numa era diferente”. Disse-nos depois algo que nos ficou na memória: “Sim, temos a Elle Woods dos filmes. Mas esta série não se chama Legalmente Loira. Chama-se Elle. Elle é a sua própria personagem. Para mim, foi uma questão de abordar isto como uma tela completamente em branco.” Sara Byblow, a outra figurinista da série, que se juntou agora a este universo, reforçou a mesma ideia. “Estes são anos tão formativos”, disse. “Ninguém, ao atravessar esta fase da vida, será exatamente a mesma pessoa [que a versão adulta].”
E, naturalmente, o guarda-roupa tinha de acompanhar essa mesma lógica. Apesar de esta ser uma nova tela em branco, é impossível não reparar em certos ecos dos filmes, sobretudo nos primeiros episódios. A montagem inicial é um deles. Depois, há a cena da piscina, em que Elle surge vestida de cor-de-rosa de uma forma que nos remete imediatamente para a imagem dela a assistir ao jogo de futebol de Warner nos relvados verdes do campus. Segundo de Rakoff, essa homenagem visual foi algo que Jason Moore, realizador dos dois primeiros episódios, quis incluir.
Existem também outras referências: pequenos detalhes, formas familiares, sandálias em forma de coração. Mas uma coisa que Rakoff deixou muito clara é que Elle não é simplesmente uma série de homenagem. “É algo com identidade própria", conta-nos. E continuou: “Há outras peças que estão espalhadas por ali, mas foram sempre pensadas para a personagem. Não foram feitas apenas pela repetição. Nunca se tratou de espelhar coisas".
Talvez seja esse um dos aspetos mais interessantes de Elle. A série compreende o legado de Legalmente Loira, mas não quer simplesmente recriá-lo. Quer perguntar quem era Elle Woods antes de se tornar a mulher que conhecemos. O que vestia antes do seu estilo se transformar numa armadura? O que significava o cor-de-rosa antes de se tornar icónico? Como é que uma rapariga descobre a linguagem visual que, um dia, será inseparável da sua identidade?
Na série, a personagem é confrontada com uma verdade dura: tem de deixar Los Angeles e mudar-se para Seattle. Essa mudança não é apenas geográfica. É emocional, social e visual. De repente, há uma nova cidade, uma atmosfera diferente, outro clima e um novo ecossistema adolescente para aprender a navegar. E, como sempre acontece com Elle, a roupa conta a história antes de ela ter sequer de se explicar. Como já escrevemos num artigo anterior da Máxima, a roupa é uma das principais formas de comunicação não verbal. Transmite mensagens diretas e indiretas sobre quem somos, como nos sentimos e como queremos ser percecionados. Fala por nós antes de abrirmos a boca. Não se trata apenas de aparência; trata-se de perceção.
Essa ideia esteve sempre directamente ligada a Elle Woods. Na série, tal como nos filmes - sim, é impossível não os referir -, as pessoas subestimam-nanpela forma como ela se apresenta. O cabelo loiro, as roupas cor-de-rosa, os detalhes preppy e os códigos ultra-femininos levam os outros a assumir que já sabem quem ela é. Antes mesmo de ela falar, já a colocaram dentro de um estereótipo. Claro que esta conversa é vasta e poderia preencher um artigo inteiro. Mas o que Elle faz bem é mostrar como a roupa pode ser, ao mesmo tempo, uma projeção e uma defesa. Pode ser uma forma de expressar individualidade, como também uma tentativa de pertença.
Isso torna-se visível logo no início, quando Elle personaliza uma T-shirt dos Nirvana numa tentativa de se adaptar ao novo ambiente, mas, naturalmente, fá-lo à sua maneira. É um momento pequeno, mas diz muito. Elle pode estar a tentar perceber em que lugar pertence, mas não está disposta a desaparecer dentro da ideia de cool de outra pessoa.
Outro detalhe que se destacou enquanto víamos a série foi a forma como o guarda-roupa aborda os anos 90. A história passa-se em 1995, mas os figurinos nunca parecem uma peça de museu. Muitos dos looks poderiam ser usados hoje. As roupas não ficam presas a uma ideia rígida daquilo que se usava na época, e isso foi totalmente intencional. “A Sara e eu tínhamos muito claro que isto não é um documentário”, disse de Rakoff. “Este é o seu próprio mundo. Estamos a olhar para os anos 90 através de uma lente completamente moderna e contemporânea.” Sara Byblow concorda. “Há uma razão pela qual os filmes originais resistiram ao teste do tempo: não eram completamente específicos de uma era. Podemos olhar para eles 25 anos depois, ou vê-los hoje, e continuamos a sentir o mesmo. Isso era muito importante para nós. Queríamos sempre viver no nosso próprio universo de Legalmente Loira.” Esse equilíbrio é uma das grandes forças da série. As roupas parecem enraizadas no passado sem serem consumidas por ele. Sugerem os anos 90, em vez de tentarem reproduzir a década com precisão documental. Isso permite que o guarda-roupa fale tanto com a personagem como com o público que a vê agora.
Numa série como esta, onde a roupa é uma parte tão essencial do universo, era inevitável perguntar se havia peças com um significado especial. Que peças de arquivo tinham sido usadas? Que looks ajudaram a definir esta versão mais jovem de Elle? Byblow mencionou imediatamente um vestido específico que Elle usa mais tarde na temporada, durante uma ocasião especial: uma peça de passerelle Saint Laurent de 1992. “Os padrões que a Sophie e eu estávamos a explorar no início da temporada eram os laços, os corações e os tons de cor-de-rosa”, explicou Byblow. “Quando vi aquele vestido em particular, senti imediatamente que gritava Elle Woods. Tem o folho cor-de-rosa. Tem os botões em forma de coração, multicoloridos, na parte da frente, que são lindíssimos. Acho que aquele vestido foi mesmo especial - uma peça de arquivo que ajuda a contar a nossa história e que, ao mesmo tempo, é também uma peça de arquivo.”
Esse último detalhe diz muito sobre o trabalho de figurinos em Elle. As roupas não estão lá apenas para serem bonitas, embora muitas vezes o sejam. Estão lá para construir uma rapariga. Para desenhar as primeiras linhas de uma personagem que achamos que já conhecemos. Para nos mostrar que, antes de Elle Woods se tornar um símbolo, foi uma adolescente a experimentar quem queria ser. E talvez seja por isso que o cor-de-rosa continue a importar. Porque, em Elle, o cor-de-rosa não é apenas uma referência aos filmes. Não é apenas uma escolha de figurino, um aceno nostálgico ou uma cor associada à feminilidade. É um começo. Um fio visual que liga a rapariga que conhecemos agora à mulher que ela virá a ser. É suavidade, sim. Como é também confiança em formação. É Elle Woods antes de o mundo a compreender por completo, mas já, inconfundivelmente, Elle.