Há árvores a crescer no meio de Paris e a culpa não é das alterações climáticas
Na Semana de Alta-Costura de Paris, as roupas foram protagonistas, mas os cenários revelaramm uma narrativa que vai muito além das passerelles.
Que a Semana de Alta-Costura de Paris voltou a colocar a moda no centro das conversas já ninguém duvida. Mas, desta vez, houve protagonistas que nem sequer passaram pela passerelle - e temos provas disso. O caminho outrora ocupado por uma passarelle branca, cadeiras alinhadas e modelos em linha reta, passou a fazer parte de todo um conceito cinematográfico. Quase como se nos transportássemos para um mundo alternativo.
À primeira vista não há muito em comum entre as marcas que apresentaram as suas coleções, mas se olharmos bem para alguns desfiles conseguimos perceber o porquê de estarmos a falar delas. É que numa semana fizeram com que Paris passasse por quase todas as estações do ano. A Dior fez crescer uma floresta tropical de forma mágica. A Chanel plantou um jardim digno dos melhores contos de fadas. E Celia Kritharioti esqueceu o calor do verão parisiense para transportar os seus convidados para um reino do gelo. Três universos completamente diferentes mas que transformaram o "básico" em algo grandioso. Típico da Alta-Costura.
Jonathan Anderson, diretor criativo da Dior, transformou a passerelle numa floresta tropical sobre um chão negro espelhado. À partida, uma floresta não parece o cenário mais provável para apresentar Alta-Costura - mas bastaram os primeiros looks para percebermos que fazia todo o sentido. As aplicações florais, os bordados inspirados na natureza e os detalhes dos acessórios encaixavam perfeitamente no cenário, como se este tivesse sido desenhado para prolongar a coleção para lá da roupa.
Já a Chanel preferiu um jardim que podia muito bem servir de cenário ao live-action de Alice no País das Maravilhas (2010). Flores gigantes, caules entrelaçados como esculturas e uma sala onde era fácil acreditar que aquele jardim tinha vida própria. Mas esta grandiosidade está longe de ser novidade. Durante anos Karl Lagerfeld transformou o Grand Palais em cenários de filme. Um supermercado, um aeroporto, um centro de lançamento espacial - quem se esquece do icebergue?
Fundada em 1906 e considerada a mais antiga casa de Alta-Costura da Grécia, Celia Kritharioti decidiu fugir ao calor que se sente na capital francesa e fez as modelos desfilar sobre neve. Árvores cobertas de gelo, paredes cristalizadas e uma luz fria que transformava a passerelle num cenário idílico. Ao contrário da exuberância tropical da Dior ou do conto de fadas da Chanel, Kritharioti optou por um cenário mais distante e silencioso. Não havia cor a disputar atenções ou demasiados elementos - só uma paisagem quase imóvel, que se fundia com as peças.
Diz-se muitas vezes que a Alta-Costura vende um conceito. Talvez ainda seja verdade, mas, esta semana, ficou claro que esse conceito já não se expressa apenas através da roupa. Constrói-se à sua volta. E os cenários são a prova de que, hoje, uma coleção começa muito antes do primeiro look entrar em cena.
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