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Betak, o homem por trás do desfile Dior

O desfile primavera/verão 2019 da maison Christian Dior reuniu, sobre a passerelle, moda, dança e magia. Este espetáculo teve, como vem sendo hábito, assinatura da Bureau Betak e do seu fundador Alexandre de Betak. Recuperamos o artigo publicado na Máxima de janeiro de 2018, com entrevista ao criativo a propósito do lançamento do seu livro.
Por Carolina Carvalho, 25.09.2018

Já a entrevista por telefone se aproximava do fim e impunha-se saber que projetos tem, neste momento, Alexandre de Betak (França, 1968), a mente criativa responsável por organizar eventos e exposições memoráveis e por revolucionar os desfiles de moda como os conhecemos hoje. Por isso, à pergunta "O que está a fazer, agora, M. de Betak?", o criativo não resiste à piada fácil e responde, com simpatia e naturalidade: "Neste exato segundo estou numa fila, num aeroporto!" A empresa que fundou em 1990, a Bureau Betak, assina projetos em diferentes partes do mundo e tem escritórios em Paris, em Nova Iorque e em Xangai, o que faz com que viajar frequentemente seja uma parte do trabalho a que Alexandre de Betak está habituado. "Trabalho em todo o lado… Depende do evento e da preparação. [Trabalho] em muitos locais, a toda a hora." A Máxima foi encontrá-lo em Itália, mas já de partida. Do táxi à porta de embarque, o discurso fluido, munido de um à-vontade próprio de quem faz parte integrante do mais exclusivo circuito da moda, há mais de 25 anos, só foi quebrado pelo controlo de segurança do aeroporto. Para trás ficou concretizado mais um projeto da autoria de Betak na área da moda, neste caso com a Fendi, mas estavam em curso importantes eventos para os meses seguintes e, claro, para os desfiles das semanas de moda de janeiro, de fevereiro e de março.

A carteira de clientes da Bureau Betak conta com nomes como Christian Dior, Lacoste, Isabel Marant, Jacquemus, Bottega Veneta, Michael Kors, Helmut Lang, Diane Von Furstenberg (entre muitos outros) no que se refere a montar o desfile de cada estação. É caso para referir que se Alexandre de Betak tivesse a sua própria semana de moda, o calendário seria preenchido. Conta-nos que o primeiro desfile de moda do seu currículo foi para a criadora francesa Sybilla, nos anos 90. O interesse pelo mundo do espetáculo começou pela fotografia, quando ainda era pequeno. "Quando eu era criança comecei a tirar fotografias muito cedo. Acho que sempre me senti atraído e interessado por criar imagens e controlá-las, que é o que se faz numa passerelle. Acho que passei da câmara para a vida tudo o que faço, hoje." Ainda trabalhou em direção de arte, segundo recorda: "Aos 18 anos eu já fazia desfiles de moda. Creio que aos 20 eu já tinha a Bureau Betak. Nunca trabalhei para ninguém. Passei diretamente da fase de tirar fotografias, que foi o modo como conheci muitos performers, para a Bureau Betak." A empresa adquiriu notoriedade quando se instalou em Nova Iorque, em 1993. Foi nessa cidade que, no ano seguinte, lhe foi atribuída a responsabilidade de produzir o primeiro desfile da marca Miu Miu. Hoje, críticos e admiradores chamam a Betak "o Fellini dos desfiles". E o que é que o próprio considera ter em comum com o realizador italiano? "Acho que o espírito livre." São muitas as marcas que recorrem à Bureau Betak para realizar os desfiles de moda (sejam de mulher, de homem, de Couture ou, até, de acessórios). O produtor explica que alguns dos eventos que realiza demoram anos a ser preparados e, por isso, estão em curso projetos para 2019 e 2020. Tem uma equipa de cerca de sessenta pessoas espalhadas pelo mundo, a que se acrescentam as equipas necessárias para a preparação de um desfile que o próprio enumera relacionadas com a preparação de "cabelo, de maquilhagem, de iluminação, de adereços, de construção, de som". Num desfile, há centenas de pessoas a trabalhar nele. Nos bastidores de um desfile normal, rapidamente se atinge um total de 200 pessoas. Conta-nos que um desfile pode ser preparado com três meses de antecedência, apesar de as primeiras decisões serem tomadas um ano antes, e que os designers têm um importante papel na discussão sobre "o que mostrar, onde, como e quando". A criatividade de Betak parece não ter limites: montar um pavilhão espelhado em plena Praça Vermelha, em Moscovo; encher salas com flores para servir de cenário às criações Christian Dior; criar estruturas que desafiam a ilusão de ótica no pátio do Museu do Louvre; transformar a fachada do Centre Georges Pompidou numa passerelle; ou fazer nascer uma sala de desfiles à beira-mar, no Mónaco. Alexandre de Betak já concretizou todas estas ideias (e muitas outras) e faz-nos crer que para ele não há impossíveis. "Eu espero que não!", responde. Quando os convidados entram nas salas de desfile e as portas se fecham, começa então o espetáculo e a magia de Betak deslumbra. Considera como suas assinaturas "a coreografia, o mood das modelos, o modo muito pessoal como uso a luz". Assim como o uso em grandes quantidades de alguns elementos, como, por exemplo, montes de flores ou luzes fluorescentes. Tudo está sob o seu controlo e tudo é essencial para fazer de cada desfile um momento único em que as criações de moda são as protagonistas. Alexandre de Betak foi, aliás, o precursordos desfiles de Victoria’s Secret. Embora já não esteja ligado ao projeto e o seu último desfile para a marca tenha sido realizado há cerca de dez anos, assume os créditos de ter sido ele a começar os desfiles da marca que acontecem na atualidade.

Viver num mundo de espetáculo não o assusta, nem o deslumbra. Afirma que estando a trabalhar, ou não, está sempre a inspirar-se, a pesquisar, a absorver. As viagens e os conteúdos culturais, como as exposições ou os livros, preenchem grande parte do seu tempo, mas para os momentos em que não está ocupado profissionalmente faz questão de estar com os filhos e de desfrutar a casa que tem em Espanha. No final de 2014, casou com a influencer e blogger de viagens Sofia Sanchez Barrenechea, na Patagónia, num verdadeiro evento de três dias pensado ao pormenor. Por tudo isto, também lhe é fácil explicar quais as melhores partes do seu trabalho (e diz que há muitas), mas destaca a diversidade de pessoas talentosas com quem trabalha. "Viajo muito e tenho oportunidade de conhecer muitos locais. E, finalmente, a adrenalina. Os desfiles são muito curtos, temos muito pouco tempo para os ensaiar e a quantidade de adrenalina é gigante… Mais do que em muitos outros trabalhos criativos em que há mais tempo de preparação." O facto de um desfile ter uma duração efémera não impede o mesmo de ser uma experiência memorável. Esta é uma das razões que levou este criativo a lançar o livro Betak: Fashion Show Revolution, da editora Phaidon. A obra, que o próprio Betak assina, convida-nos a entrar no seu universo através de fotografias de bastidores dos desfiles organizadas em quatro grandes temas (In Situ, The Set, Light e Performance). Outra razão é a celebração do facto de, recentemente, a Bureau Betak ter realizado o seu milésimo desfile. Mas o motivo mais importante, segundo o autor, é o facto de estarmos perante uma nova revolução nos desfiles de moda. "Acho que quando comecei, há mais de 25 anos, participei na primeira revolução nos desfiles de moda que consistiu em torná-los ‘mediagénicos’, primeiro, e ‘webgénicos’, depois. Foi isso que tentei alcançar quando entrei. Agora, acho que está a começar uma segunda revolução que está relacionada com conteúdo digital ? não estritamente, mas maioritariamente." Alexandre de Betak tem uma ideia do presente e do futuro do seu trabalho, bem como do universo da moda, muito bem definida ou não fosse ele um ator de destaque neste enredo complexo em que a tradição e a tecnologia ainda procuram uma forma harmoniosa de conviver. "Penso que o sistema [de semana da moda] está a acabar. O facto de só a imprensa ver o desfile antes do público obviamente acabou. A tecnologia está a tornar a revolução possível e permite ao grande público conhecer tudo muito bem, imediatamente, e sem ter de esperar pela imprensa. Também a imprensa está a mudar e a tornar-se mais digital. Tudo isso está a começar a fazer grandes mudanças que não farão o desfile de moda acabar, mas que dão ao desfile, como meio de comunicação, mais liberdade para se reinventar. E está a ajudar as casas de moda a serem mais criativas para o desfile se tornar um conteúdo mais digital." A importância da pegada digital na Moda, que Betak sublinha, já é inquestionável. Parcerias com plataformas digitais, criação de conteúdos exclusivos para as mesmas e a ascensão de personalidades que são referências da blogosfera e do Instagram são exemplos sólidos de como as marcas de Moda pensam a sua estratégia, bem como a sua identidade, no universo digital. Os desfiles de moda são hoje uma experiência para, mais do que viver, partilhar. Embora as portas das salas de desfile estejam fechadas, abrem-se as janelas das redes sociais e aquele evento viaja rapidamente pelo mundo. Betak transforma em experiências reais os conceitos e os mundos imaginários que os criadores de moda idealizam e que fazem as delícias de uma elite de seguidores (entre os quais uma esmagadora maioria que tem na tecnologia a sua forma de comunicação natural), mantém vivo o sonho que alimenta as marcas de moda e um equilíbrio muito especial entre arte e comércio. "Ainda não tive o maior [desafio] de todos! Tenho muitos grandes desafios, mas são apenas isso." Não é magia, é Alexandre de Betak. Luzes, câmaras, ação!

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