Talentos portugueses estreiam-se na semana de Moda da Copenhaga, guiados por Marques'Almeida: "As áreas criativas são muito segregadas"
O Portugal Fashion dá novo salto na internacionalização da moda nacional e leva-a à fashion week de Copenhaga num showroom-instalação pensado pela talentosa dupla portuguesa de designers.
Criadores portugueses unem esforços na Semana da Moda de Copenhaga
Foto: Anders Elmshøj10 de fevereiro de 2026 às 11:51 Patrícia Barnabé
Enquanto Portugal quase voava pelos ares, a capital dinamarquesa estava abaixo de zero, a sensação de frio batia nos -10, os telhados, passeios e canteiros cobertos de um branco silêncio acolhedor. Janeiro não atrai turistas e Copenhaga estava tranquila e encantadora, como a moda que por lá desfila há apenas duas décadas. Racional e austera, simples e charmosa no detalhe, dispensa grande artifício e aposta tudo na qualidade, conforto e ecologia. Como a sua cultura, tem um pouco de sério e um pouco de infantil, e uma ligação umbilical à Natureza. Por alguma razão, tem sido considerada a melhor cidade para morar, não por ser maior ou mais rica, mas por ser feita para as pessoas. Como na Suécia, até os cemitérios são jardins.
Mesmo sabendo que este outono-inverno 2026 é das estações mais frias de que há memória, o Portugal Fashion quis estrear os designers de moda portugueses na Escandinávia: “Fazemos uma análise constante dos mercados, procuramos os que podem ter mais impacto para a estratégia internacional dos designers nacionais, e a fashion weekde Copenhaga começou a afirmar-se, em particular”, diz-nos Mónica Neto, diretora do Portugal Fashion. “Quando desenhámos esta nova estratégia 2023-26, a sustentabilidade era um dos pilares a ativar”, acrescenta, por isso este foi também foi o momento e o lugar, para lançar, sem pompa, mas com circunstância, o True Fashion Manifestoque será subscrito por parceiros, patrocinadores e marcas, “com toda a responsabilidade que têm para além das colecções”, diz. “Baliza um conjunto de coisas que os nossos criadores já fazem bem (e, no mais difícil, ajudamos no que precisarem, porque há muitos desafios, como sabemos), para que todos estejamos envolvidos num plano de acção e de eventos, de práticas sustentáveis e de impacto ambiental reduzido, assim como de inclusão e responsabilidade social, identidade e preservação do património”.
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Showroom de criadores portugueses na semana de moda de Copenhaga
Foto: Anders Elmshøj
E se parecemos estar a falar do futuro, é porque, se calhar, até estamos. Não se duvide que é desta grandeza que vem a crescente importância da semana de moda de Copenhaga, que galga espaço nas plataformas de desfiles e nos best of de streetstyle: as novas gerações já não querem saber apenas de sedução e bling e viver num mundo desumano à beira do precipício. Mais conscientes, sabem que não existe um planeta B. Por isso, chamar a dupla Marques'Almeida a imaginar este Portugal Fashion & Arts Inside the Studios em Copenhaga foi a cereja no topo do bolo nesta espécie de “teste de mercado”: “As suas propostas são o oposto ao fast fashion, são produção de proximidade e de atelier, eles preservam a identidade e o saber fazer como um verdadeiro legado de moda” e “têm uma ligação a Londres, à comunidade e aos valores da sustentabilidade junto da indústria têxtil nacional”.
A viver em Portugal, inesperadamente, desde a pandemia, onde foram ficando com as filhas pequenas, a dupla Marques'Almeida junta às suas colecções coloridas, com um espírito jovem de comunidade, festa e rua, e o acompanhamento de novos talentos. Esta grandeza sempre palpitou nas colecções dos Marques'Almeida que, recordemos, levantaram voo em 2015 quando eram finalistas na famosa Central Saint Martins de Londres e arrebataram o prémio LVMH Young Designers, passando à frente, sublinhe-se, de Jacquemus, Off- White ou Coperni. Imperdíveis na semana de moda de Londres, agora ajudam o Portugal Fashion na plataforma de novos criadores. “Estamos a dar o passo a seguir ao Bloom, que é até mais interessante para nós, é um trabalho com designers logo após se graduarem, numa fase de estrutura e de crescimento de marca e isso tem-nos feito olhar, como costumam dizer, para o ecossistema da moda em Portugal, perceber o que está a acontecer, que marcas estão a aparecer”, explica Marta Marques sentada connosco no hall de entrada. “Começámos a dar aulas e a estar mais atentos.”
Inserido no calendário oficial da Copenhagen Fashion Week, o showroom de criadores portugueses foi pensado como uma instalação de arte que tem por detrás a sustentabilidade, ambiental e social, e a vontade de juntar esforços e cruzar artes. Inaugurou dia 29 de janeiro, entre as 18:00 e as 21:00, no Introoutro, um segundo andar no coração da Vimmelskaftet, a rua das lojas da globalização, onde há vida sem pressa nem multidões. E convidou a imprensa e a indústria a espreitarem os bastidores da moda portuguesa, recriando a atmosfera de um atelier, na sua desarrumação criativa de materiais, ferramentas, mood boards e objetos pessoais.
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Foto: Anders Elmshøj1 de 2 /Portugal Fashion em Copenhaga com criadores Marques'Almeida
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Foto: Anders Elmshøj2 de 2 /Portugal Fashion promove criadores nacionais na semana da moda de Copenhaga
À chegada, sobressaem logo as peças sóbrias e bem cortadas da dupla Ernest W. Baker, um ramo de rosas escarlate e uma escolha de imagens dos seus modelos pré-desfile usadas nos bastidores pelos dressers. Logo a seguir, um delicioso vestido longo dos Marques'Almeida, em amarelo canário, com um grande laço, e um blusão em denim, ambos muitos cobiçados, e um moodboard de imagens que os inspiram, como casacos militares e modelos grunge, a pedaços de materiais. Segue-se a mesa de trabalho de Veehana, uma marca de malhas do Porto, baseada também em Berlim, com peças artesanais pensadas na reciclagem criativa e reutilização de excedentes. Muito delicadas, estavam penduradas numa máquina de tricotar, enquanto imagens de moda mostram como parecem pousar no corpo de quem as veste. “É o seu espaço, exatamente, como trabalha em Valongo, na mesa que um arquiteto desenhou para ele”, sobre a qual se vê ainda “um pratinho com anéis e um potezinho com coisas, o universo dele...”, descreve Marta. No ponto oposto, está a interpretação futurista, gráfica e livre da couture deArieiv para Losiento uma dupla que vem da escola Marques'Almeida e desenha peças street que cruzam com a alfaiataria, o corsetinge os drapeados. “Muitas vezes, um vestido resulta de um rolo de tecido que ele [o João] enrola à volta de um mono”.
Sobre a grande mesa prateada de e.p.atel’ye está a caixa do seu projeto de final de curso, imagens arty, um par de botas cintilantes, desenhos e estudos vários e uma lata de spray que representa esta jovem marca experimental, de peças versáteis que “repensam forma e função através da desconstrução, da intuição e da exploração de materiais”, lemos. Tocar nelas é uma experiência sensorial: camisas abraçadas pelos botões, jerseys esticados com grampos e peças em mousse, esfarrapadas, inventivas. “O Enzo [Perez, que ganhou o Bloom] foi nosso aluno na ESAD, está mesmo no início e tem um potencial incrível. Está aqui a sua estética absolutamente impecável, qualquer coisa que faz é linda.” E vemos ainda o canto onde Maria Carlos Baptista imagina as suas peças arquitectónicas, por um lado, e vaporosas como os vestidos em seda, onde apetece dançar, que veste à cantora Carminho. Sobre a sua mesa de trabalho estão materiais, um caderno, alfinetes e clips, a tesoura, o carimbo da sua marca e fotografias da sua elegância limpa. “'Querem que vos envie o quê, a minha fita métrica? Os meus panos?' 'Sim é isso! E os frasquinhos com os botões!'”, recorda a rir, Marta Marques. Ao lado, está a Lage, e a sua joalharia orgânica que tão bem rima com a sua estética minimal e poética.
Foto: Anders Elmshøj1 de 3 /Portugal Fashion apresenta criadores nacionais em Copenhaga com showroom de Marques'Almeida
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Foto: Anders Elmshøj2 de 3 /Portugal Fashion em Copenhaga com showroom de Marques'Almeida
Foto: Anders Elmshøj3 de 3 /Mostra da moda portuguesa na semana da moda de Copenhaga, com curadoria de Marques'Almeida
“Os Ernest vieram agora do desfile de Paris e os Marques'Almeida são os Marques'Almeida, as nossas duas marcas mais internacionais”, comenta André de Atayde, diretor de comunicação do Portugal Fashion. “Como estão com os novos talentos, achámos que seria interessante transformar o espaço numa espécie de estúdio de artista”. Mal este projeto do Portugal Fashion foi comunicado na página oficial da semana de moda de Copenhaga, André conta que choveram muitos e-mails curiosos. “E a ideia era ser moda, mas poderiam ser outras coisas, deixámos o Paulo e a Marta fluírem nas suas ideias numa espécie de open-house, uma janela que se deixa aberta”. Assim, no meio da moda conhecemos ainda a ceramistaEva Lé, o barro na sua roda de oleiro, as ferramentas e as suas peças que parecem saídas da Natureza ou de uma fábula qualquer, a lembrar Bela Silva. “Ela apareceu num casting, ou alguém recomendou, e fez os nossos desfiles, no Porto, conhecemo-la assim. E depois é o que acontece nas nossas communities é que ficamos todos amigos, e como tem uma marca de cerâmica incrível, lembramo-nos logo”, situa Marta Marques. À entrada, também se alinham garrafas d’Aquela Kombucha , como soldadinhos de chumbo sobre o gelo, outras estavam para lá da janela, enterradas na neve, “o nosso frigorífico natural”, explica um dinamarquês. Era preciso catering e “em vez de irmos para uma coisa tradicional, fomos buscar a Maria Lima, que foi nossa estagiária, em Londres, há muitos anos, e veio para oPorto e criou esta marca com imenso sucesso”, fermentada naturalmente como uma alternativa sustentável às bebidas produzidas em massa. Para a comida, falaram com “a Catarina e a Rita da Rasa Porto, um cafezinho muito pequenino à beira do Sá da Bandeira”, com pastelaria artesanal, pratos sazonais e uma atmosfera criativa e local. “Elas são super talentosas e estão a começar”, acrescenta Marta. “Para nós foi super importante trazer para aqui o universo de trabalho destas pessoas emergentes que estão a fazer coisas excitantes."
Foto: Anders Elmshøj1 de 4 /Marques'Almeida apresenta moda portuguesa na fashion week de Copenhaga
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Foto: Anders Elmshøj2 de 4 /Portugal Fashion apresenta criadores nacionais na Semana da Moda de Copenhaga
Foto: Anders Elmshøj3 de 4 /Criadores portugueses em Copenhaga apresentam showroom com peças de roupa únicas
Foto: Anders Elmshøj4 de 4 /Marques'Almeida levam a moda portuguesa à fashion week de Copenhaga
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Em frente a cada mesa de trabalho, passam vídeos que acompanham a vivência de cada artista, “para uma qualidade imersiva”, acrescenta Paulo Almeida. “Para além dos objetos em si, era importante termos os sons, para sentir, para podermos experienciar com todos os sentidos.” Mais uma vez, foi um jovem Roberto a fazer os registos de cada artista. Se nos Ernest vemos um video da costureira experiente a enfiar a linha na agulha ou a tricotar com os óculos na ponta do nariz, observamos os Marques'Almeida em provas no atelier ou nos seus alegres bastidores dos desfiles. Assim como vemos os Ariiev para lo Siento experimentam acessórios nos manequins, o e.p.atel'ye nos seus desenhos e cadernos de inspiração, ou a vestir as suas peças, Maria Carlos a trabalhar no manequim ou na máquina de costura.
Esta ideia de comunidade é o que nos pode salvar num mundo cada vez mais tecnológico e individualista. O desfile dos 10 anos de Marques'Almeida, no matadouro da Campanhã, foi feito em colaboração com outros artistas: “Percebemos que havia um ecossistema de criativos no leste do Porto, quando nós vínhamos dessa filosofia de east London e de comunidade”, diz Marta. E refere um espaço “espetacular” de trabalho na Pinto Bessa, “que está sempre a rodar artistas, designers”, que conheceram levados pela sua irmã mais nova, e foram ver que designers estavam a sair das escolas. “Fizemos um desfile 'cooperativo', com cinco ou seis pessoas, fomos ver como trabalhavam, em casa, na cave dos pais, numa garagem com outros artistas, há gente a fazer coisas incríveis e que não têm grande plataforma. Por isso, quando decidimos fazer isto, pensámos em fazer o óbvio, mas eu e o Paulo estamos virados para dar voz ao que é emergente, que está mesmo a começar. E podíamos ter trazido 50 pessoas, mas trouxemos as marcas de moda com quem estamos a trabalhar”.
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Aquele desfile abriu com uma frase que avisa: “The only way to fight control are small units of community where people agree enough on how to live and share their resources”, relembra-nos Marta no seu inglês pristino. “O que estamos a tentar fazer, nesta segunda fase da nossa carreira, é virarmo-nos para a comunidade e partilhar recursos, que não é uma coisa que encontrássemos muito em Portugal. As áreas criativas são muito segregadas e as pessoas têm sempre muito medo em partilhar. Mas se partilharmos, todos beneficiamos. Eu sinto que na geração dos nossos professores e mentores não era assim, havia um espírito de comunidade, estou a lembrar-me da Alexandra Moura ou do Luís Buchinho. Estamos a ir ao olho para ver quem juntamos para serem as pessoas que vão fomentar esse tipo de atitude. Estes miúdos têm passado algum tempo juntos e criaram uma ligação muito saudável. Esperamos que sejam uma alavanca. Nós vimos da escola de Londres onde havia uma frente unida, todos british designers (sendo que nenhum de nós era british, essa é a maravilha de Londres), todos unidos - quisémos trazer um pouco disso para aqui”.
Foto: Anders Elmshøj1 de 2 /Moda portuguesa em Copenhaga com Marques'Almeida
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Foto: Anders Elmshøj2 de 2 /Portugal Fashion marca presença na Semana da Moda de Copenhaga com Marques'Almeida
“Era uma competição saudável!”, completa Paulo, “e a verdade é que a competição eleva, obriga-nos a esforçarmo-nos. A ideia desta exposição é essa mesmo: porque é que as meninas da Rasa não podem ser influenciadas por moda e isso influenciar o seu empratamento? Porque é que as pessoas de moda não podem pensar num prato e na forma como ele é apresentado?” E remata: “A verdade é que as novas gerações comunicam muito através de um ecrã e perdem a relação física e próxima. Por muito que comuniquem, nunca há uma proximidade corporal. Temos andado a arrastar estes meninos para situações que os levam a conviver e pelo o que me lembro, da nossa experiência, é sempre muito enriquecedor cruzarmo-nos com pessoas. E eles têm um trabalho de excelência, todos têm a aprender só a ver o trabalho dos outros.” E Copenhaga é a cidade certa: “Eles conseguiram uma linguagem muito específica, só deles, que não existia noutras cidades. Enquanto Londres é muito facilmente vista como trashy e punk, sempre mais extrema, Paris é aquele nível de excelência, Itália é sempre bon vivant, aqui conseguiram acertar com uma que é interessante e diferente, mas é casual e easy, para descomplicar”, tudo o que precisamos agora.