Celebridades

Recordar Jacques de Bascher, o homem que apaixonou Karl Lagerfeld

Arrogante, sedutor, culto, provocador, irresistível. Jacques de Bascher viveu de acordo com as regras de um mundo paralelo, sem moral. “Tudo o que se diz na noite jamais verá a luz do dia”, afirmou mais do que uma vez. Foi o grande amor de Karl Lagerfeld e a paixão mais impetuosa de Yves Saint Laurent. Hoje assinalam-se os 30 anos da sua morte.
Por Maria Wallis, 03.09.2019

Paris, 1971: "Estás a ver aquele homem? É um couturier sueco. Vai ser um dos maiores designers dos próximos anos, e também o meu petit ami." Apesar do engano quanto à nacionalidade, a profecia de Jacques de Bascher (Saigão, Vietname, 1951-Garches, França, 1989) feita em pleno Club Sept ao amigo Philippe Heurtault viria a confirmar-se: Karl Lagerfeld, o alemão de quem falava, acabou por se tornar um dos grandes nomes da moda e juntos acabaram por viver uma das mais sublimes e invulgares histórias de amor de que há memória. Conheceram-se pouco tempo depois noutro templo da noite parisiense, o Le Nuage, onde conversaram até de manhã. É aí que começa uma relação de quase 18 anos, da qual se sussurrou na capital francesa. Até agora. Marie Ottavi, jornalista do Libération, decidiu escrever um livro sobre Jacques de Bascher, que o mundo conhece como o "anjo negro" dos biopics de Yves Saint Laurent. "Il n’était pas comme tout le monde", dirá, a respeito de Jacques, o director criativo da Chanel que, pela primeira vez, aceitou falar sobre o assunto. "Karl Lagerfeld sempre se recusou a escrever as suas memórias e sinto que, de alguma forma, teria vontade de abrir um pouco o seu coração, revelar uma parte da sua intimidade para restabelecer verdades, fechar capítulos", esclarece-nos a autora de Jacques de Bascher – Dandy de l’ombre (Séguier). E justifica: "Talvez porque era o momento certo. Mas também porque defendi o meu tema, explicando que não queria ‘reabilitar’ Jacques de Bascher. Não tinha essa pretensão. Nem queria caricaturá-lo. Queria falar sobre o tema, porque ele diz muito sobre uma época." A época foi a inigualável Paris dos anos 70 e 80 por onde passaram algumas das mais brilhantes personagens da segunda metade do século XX, como Andy Warhol, David Hockney, Grace Jones ou Francis Bacon, todos companheiros fiéis de Jacques e componentes vitais dessa religião que troca o dia pela noite. 

Impecavelmente vestido, olhos verde-água de uma melancolia enganadora, sorriso entre a malícia e a arrogância, o cigarro como adereço principal. Jacques de Bascher respirava nonchalance. O seu estilo era o de uma estrela de cinema dos anos 30, vestia como um dandy do século XIX. "Foi o francês mais chique que já conheci. Jacques de Bascher, jovem, era o diabo com uma cara de Garbo. […] Vestia-se como ninguém, estava à frente do seu tempo. Era a pessoa que me divertia mais. Era o meu oposto. Era impossível, era odioso. Era perfeito", relembra Karl Lagerfeld. Inconstante, charmoso, inteligente, dominador, belo. Jacques de Bascher seduziu homens e mulheres, viveu para lá da normalidade, das conveniências e das convenções. Apreciador do virtuosismo de Visconti, da angústia de Proust, do decadentismo de Huysmans, seria a personificação perfeita de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Culto, profundamente curioso (interessava-se, da mesma forma, por Star Wars e pelos filmes de Eisenstein), deixará para a História pouco mais do que os retratos, as festas (é ele que organiza, em 1977, Moratoire Noir(e), a celebração mais escandalosa da cultura S&M de que Paris tem memória), os excessos. Seria ele a realizar para a Fendi o primeiro fashion film, em 1977, a propósito da primeira colecção de Pronto-a-Vestir da casa italiana. Histoire d’Eau foi gravado em Roma e tem um intricado argumento que leva a noção de brand identity a níveis pouco habituais para a altura. "Gostava de fazer as coisas antes de toda a gente para as poder contar", assinala um amigo no livro de Ottavi. "Jaques conseguiria vender riscas a uma zebra", aponta outro. Mas de onde surgiu este homem atraído pelo abismo, que decidiu, a certa altura, chamar-se Jacques de Bascher de Beaumarchais. Acrescentou o último apelido em honra a um feudo da família ou ao escritor com o mesmo nome?

Saigão, 1951: Jacques nasce a 8 de Julho. O pai, Antony, é por essa altura governador de uma província no Vietname. Em 1955 regressa a França com a família, onde tem uma infância feliz passada entre um apartamento em Paris e o castelo de la Berrière, pertencente à família, perto de Nantes. Dos irmãos, Xavier, Gonzalve, Elisabeth e Anne, apenas o primeiro, por ser mais novo, partilha com ele as descobertas próprias da idade. A mãe, Arnelle, incute-lhe, desde cedo, a ideia de que tudo é possível. Assim será. Presta o serviço militar a bordo do Orage, ao largo do Taiti, e nem aí passa despercebido: na mala transporta, entre outras coisas, um frasco de perfume Moustache, de Rochas, vários livros e Michka, o urso de peluche que o vai acompanhar até ao fim da vida. Durante esses sete meses, é responsável pela emissão de um programa de rádio (onde, além das notícias da pátria, partilha novidades literárias e musicais), passa uma temporada na prisão devido a acusações de assédio sexual e conduta imprópria e faz novas amizades, como a de Philippe Heurtault. No regresso a França, o pai arranja-lhe emprego no Ministério do Mar. Quer ver o filho assentar, construir uma carreira. Mas os seus dias são passados no Café de Flore, à procura de um outro mundo. A sua essência é a de um flâneur: "Paris não conhece sábados à noite. O espírito da dança espalhou-se por toda a parte. Sai-se de casa assim que a noite cai sem nos preocuparmos com o amanhã", escreve Marie Ottavi a propósito desse tempo perdido. Jacques acaba por se despedir, torna-se comissário de bordo da Air France, mas depois de conhecer Karl Lagerfeld, deixa de trabalhar. Definitivamente. 

O designer, 20 anos mais velho, oferece-lhe um apartamento, um carro, uma mesada. Sob todos os pontos de vista, é uma relação atípica: "Amei infinitamente esse homem, mas não tive nenhum contacto físico com ele", sublinha o alemão. A vida recatada de Lagerfeld contrasta com os excessos de Jacques: muitas drogas, muito álcool, muito sexo. Vivem juntos, separadamente. É um acordo que funciona para os dois. "Nunca morei debaixo do mesmo tecto que outra pessoa. É um atentado à liberdade. Tenho uma vida estranha, com horários inventados por mim", sublinha Karl. É uma relação de amor, mas não exclusiva – isso "é para os burgueses", sugere Ottavi. Ficarão conhecidos como Kaiser e Jako. Enquanto um se levanta para trabalhar, o outro chega a casa para os after-hours mais cobiçados da Cidade Luz. "Quero dizer uma coisa que vai parecer amoral, mas tinha uma espécie de admiração pelos seus vícios, pois era incapaz de o seguir. O meu instinto mais desenvolvido é provavelmente o da conservação. É por isso que, face a Jacques, muitas vezes me interrogava: ‘Como é possível alguém agir assim?’ Era para mim incompreensível." Desabafa, quase 30 anos depois, Karl Lagerfeld. "Sou uma espécie de voyeur. Admiro as pessoas que sabem como se destruir e ir até ao fim. […] De uma certa forma, isso requer mais coragem do que os egoístas como eu que apenas se querem preservar." Apesar de impróprio, Jacques era adorado por (quase) todos. Era espontâneo, sincero, único. Junta o melhor da banalidade do quotidiano com a erudição dos intelectuais. Não foi preciso muito para que Yves Saint Laurent, o génio cada vez mais afundado em vícios, se apaixonasse perdidamente por esta figura peculiar. O affair durou três anos e abalou a longa relação que o criador tinha com Pierre Bergé.  Mas se Jacques nunca equacionou deixar Karl Lagerfeld, Yves entrou numa espiral autodestrutiva e de negação. "Podes fazer comigo o que quiseres", suplicou-lhe, mais do que uma vez. Foi a intervenção abrupta de Bergé que terminou com o caso. O empresário, recentemente falecido, recusou-se a prestar declarações para o livro de Marie Ottavi, mas o romance de Yves e Jacques mudou, para sempre, a dinâmica da sua longa relação com o criador francês. Bergé nunca lhe perdoou ter-se apaixonado por aquele que considerava ser "um sedutor de opereta efeminado". Com tantas nuances, será que a história de Jacques e Karl teria espaço nos dias de hoje? Na opinião da escritora: "Não sei se poderia acontecer, hoje. Na época, tínhamos tanto julgamento como actualmente, mas era tão difícil assumir e ser aceite como gay, criativo ou ocioso, que isso pode ter sido o que tornou possível a história durar. A estreita mentalidade da sociedade pode ter permitido que o casal ficasse unido, apesar de todas as suas diferenças. Karl Lagerfeld é uma pessoa incrível, no sentido em que pode ser muito duro, corrosivo, mas, ao mesmo tempo, ele não julga. Ele observa os decadentes que giram no seu mundo até caírem, como Jacques – que definiu a decadência como uma queda." No início da década de 1980, surgem os primeiros casos de SIDA. Já não se dança com a inocência de antigamente, mas Jacques continua o seu circuito infinito pelos vícios da noite, dos lugares mais recônditos de Paris às piores caves de Nova Iorque. Em 1984, depois de confrontado com a morte de Michel Foucault, acaba por se submeter a um teste. Ninguém sabe exactamente como foi contaminado. "Sempre aceitei Jacques tal como ele era, desde o princípio. Não precisava explicar que estava doente, isso via-se", recorda Karl Lagerfeld. O alemão pôs ao seu dispor os melhores cuidados médicos. Foi uma luta inglória de cinco anos, em que Jacques emagreceu para lá da decência humana. Perdeu a luz que fazia dele um ser além do mundo. A elegância, essa, permaneceu até ao fim. "Não fiques triste se eu morrer. Mesmo se viveres até aos 100 anos, não conhecerás nem metade das coisas que eu vivi. Tive uma bela vida, intensa. Portanto, é como se tivesse vivido até aos 80 anos", disse ao irmão, Xavier, três meses antes de falecer. Na Primavera de 1989, a sua condição piora. "Se ganhares três quilos antes do fim do mês, ofereço-te um Aston Martin", sugere-lhe Karl Lagerfeld. O carro nunca chegou. Jacques acabou por morrer a 3 de Setembro, aos 38 anos, rodeado pelo kaiser, a mãe e a amiga Diane de Beauvau-Craon. Demasiado jovem ou, pelo contrário, eternamente jovem? Marie Ottavi é peremptória: "O envelhecimento é bom para os grandes sábios. Não para aqueles que optaram por viver de costas para o decoro, para provocar."

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