Celebridades

Anabela Teixeira: "a única coisa que me interessa como atriz é contar histórias"

É uma defensora convicta do poder redentor da Natureza, do regresso à terra e ao essencial, seja no que diz respeito ao lifestytle ou aos afetos. Com o papel de protagonista em Alguém Perdeu, a primeira telenovela da CMTV, Anabela Teixeira alinha os eixos que a mantêm na rota da felicidade.
Por Rita Lúcio Martins, 29.04.2019

As minhas origens

Cresci na Amadora, mas a partir dos quatro anos de idade comecei a passar as férias de verão na terra dos meus avós maternos, na Beira Baixa. E passava também o Natal, que é uma época muito especial na aldeia, cheia de tradições e de rituais em torno da alimentação, mas não só. O meu avô tocava concertina, as minhas tias cantavam e ainda cantam! O meu avô fazia muitas coisas: era resineiro, sapateiro, agricultor, tal como a minha avó era [agricultora], e era festeiro, ou seja, contratavam-no para animar as festas das aldeias das redondezas. Quando eu me interrogo de onde vem esta minha inclinação para as artes, penso sempre nele. Por outro lado, o meu pai, que era filho bastardo, sempre disse que descendíamos da família Cardinali. Lembro-me que montavam um circo mesmo em frente à nossa casa e eu podia ver os trapezistas a ensaiar. Era fantástico para uma criança assistir a esse espetáculo! A Amadora dessa altura era bem diferente da de hoje… Tinha muito de campo com pastores e ovelhas e campos de tulipas que eu adoro! Não era a cidade subúrbio que hoje conhecemos. Foi aí que eu cresci, com os meus pais, que eram ambos enfermeiros, e com dois irmãos, um biológico e um outro que foi adotado, e que são ambos mais novos.

A filosofia verde

Desde pequena que eu me lembro de ouvir a minha avó dizer que a terra é o nosso tesouro. "A terra dá-nos tudo", dizia-me. É uma visão que pode parecer um bocadinho ingénua, admito, mas que, ao mesmo tempo, é uma forma simples de encarar a vida. Ela passou-nos esta mensagem. Hoje há cada vez mais movimentos e pessoas apostados em salvar o planeta, mas em mim [essa vontade] surgiu depois de uma personagem que interpretei na telenovela Rosa Fogo [emitida pela SIC, em 2012]. Essa personagem tinha cancro e o trabalho de preparação levou-me a ler muito sobre o tema, nomeadamente sobre alimentação biológica. Desde então eu deixei de comer carne e alterei muitos hábitos. Acabei por fazer um espetáculo de teatro, um livro e um blogue inspirados por esse processo de mudança que eu encarei sempre de uma forma calma, progressiva e natural. E que continua a acontecer… Em breve, acho que deixarei também de comer peixe. A verdade é que o minimalismo faz cada vez mais sentido. Em Londres, onde eu vivo, existem vários grupos de troca, por exemplo de roupa. E eu que sempre fiz isso com as minhas amigas, acho maravilhoso que haja pessoas a fazerem-no desta forma organizada. Sendo eu filha de enfermeiros, habituei-me a ter este exemplo em casa: o dar, o ajudar o outro. A partilha faz todo o sentido para mim.   

A questão da idade

Eu tenho 45 anos e sinto-me saudável. Mudei a alimentação, pratico muito exercício físico e corro imenso. Eu acho que nunca corri dez quilómetros com tanta facilidade. Sinto-me corajosa! A corrida tem esse poder. Outra coisa que muda com a idade é o reconhecimento. Uma pessoa percebe melhor de onde vêm as coisas e sente-se mais grata. Eu sinto esse profundo agradecimento pelas pessoas que tenho à volta, a aconselharem-me, a orientarem-me, a acompanharem o meu processo. Sinto-me jovem e bonita. E depois tenho um marido que me diz isso todos os dias… Nunca casámos, mas já estamos juntos há 18 anos. É sem dúvida um projeto de vida a dois, com muito amor e com muita cumplicidade. O segredo? É não dar o outro como garantido. Às vezes, as pessoas casam e acham que o outro tem a obrigação de os fazer felizes. Não há obrigações. O que existe é amor e partilha. Mas eu continuo muito apaixonada pelo Fred. É a coisa mais linda da minha vida! Onde ele estiver é onde é a minha casa.

A mudança para Londres

É uma mudança recente, mas eu estou a gostar muito. O meu marido viveu dez anos em Londres, o que facilitou a nossa adaptação. Londres é um mundo de possibilidades. Eu já tinha estado a viver em Madrid, há uns anos. Fiz uma grande viagem à Ásia, aos 23 anos, que mudou literalmente a minha vida. A primeira novela que fiz foi no Brasil e depois fiz outra em África… Isto para dizer que sempre adorei viajar e que sempre que eu trabalho fora sinto-me muito focada, muito concentrada. É engraçado pensar que, agora, como tenho a minha casa lá [em Londres], sinto-me como se estivesse a viajar na minha própria cidade. Mudar de rotina para um trabalho é espetacular para um ator que precisa de se concentrar num novo trabalho ? no caso, neste projeto que é a primeira novela da CMTV [que integra o grupo de media a que a Máxima pertence]. Agora estou em fase de ensaios e vou ter de andar entre cá e lá. Em Londres, vou a audições quase todas as semanas. É um mercado muito competitivo, muito forte, mas espetacular e obriga-me a voltar a aprender. Põe-me a ler os livros que li quando eu tinha 18 anos, a fazer masterclasses, a frequentar workshops, a ir a seminários, a contactar com muitos jovens e a aprender com eles. 

A novela

Ela entrou na nossa casa pouco depois da entrada da televisão em Portugal e fomos formados por ela. É um produto muito realista, muito próximo das pessoas. E isso continua a ser algo contemporâneo e atual. O próprio cinema - e o cinema de autor, inclusivamente - é contaminado pela novela quando nós vemos os novos formatos de documentário-ficção em que não percebemos bem se é realidade ou não, com não-atores a trabalhar em filmes de grandes realizadores… A novela é também isso: a tentativa de fazer realismo-real. Em última análise, a única coisa que me interessa como atriz é ser um veículo para contar histórias. Mais nada (…). É assim desde que eu era pequena. Eu sempre fiz teatro na escola e sempre adorei fazê-lo. Mas a primeira vez que manifestei essa vontade de ser atriz aconteceu quando eu fui ver Annie [o musical na versão portuguesa de Filipe La Féria], com o Nicolau Breyner. Quando terminou eu disse à minha madrinha que queria estar ali, no palco. Eu tinha oito anos.

As minhas terapias

Ser ator é uma profissão de alto risco. Implica muito stress, muito trabalho, muita memória, muito uso do cérebro e do corpo. Eu tenho imensas ferramentas para trabalhar a ansiedade. A meditação, o yoga, as massagens terapêuticas, a Natureza, tudo isso me ajuda. Quando cheguei ao Brasil para fazer a primeira novela, eu era muito jovem e não havia nenhum ator que não fizesse terapia. Diziam-me: "Como é possível? Você vive trabalhando a emoção, chora e ri, como é possível não ter terapeuta?" Eu tenho [uma terapeuta], há muitos anos, tornou-se uma amiga. Recomendo-a a todos os atores. A dança é outra ferramenta importante. Por exemplo, nesta fase eu adorava voltar a dançar kuduro de que tive aulas durante um tempo e depois parei… Não há tempo para tudo. Neste momento, estou completamente apaixonada pela [música] afro-house e pelos ritmos africanos. Ajudam-me a trabalhar a minha intuição como atriz e sinto-os no sangue [a avó materna de Anabela Teixeira é africana…].

O meu percurso

Eu orgulho-me muito de não ter cedido à pressão que senti quando tinha 20 e poucos anos… Nessa altura, havia aquela ideia e aquele preconceito de que quem faz cinema ou teatro não pode fazer telenovela. A verdade é que sempre fiz o que fazia sentido para mim, em determinada altura. Às vezes falhei, mas acho que isso acontece em qualquer profissão. Eu não me arrependo de nada… Caso contrário, não estaria onde estou e estou muito feliz com os desafios que tenho pela frente. Sinto-me cada vez mais perto dos meus sonhos de infância, os sonhos da menina que foi ver o musical da Annie e que ficou encantada com esse trabalho tão completo. No fundo, é só isso que eu quero fazer.

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