Nos Óscares, menos foi mais. Por que Hollywood está obcecado pela magreza - e há como mudar?
Esta última temporada de entregas de prémios parece ter seguido um padrão estético. Não falamos de color block ou rendas, mas de silhuetas esguias que dominaram o red carpet e os nossos pensamentos: afinal, quem define o que é desejável no cinema e por que quase sempre passa por corpos magros?
Ainda me lembro de uma era em que parecia que íamos, finalmente, respirar de alívio. A Victoria’s Secret estava suspensa, a Fenty era a marca mais cool do momento, as modelos plus size reivindicavam o seu espaço e eu voltei a comer pão. Juro que não sonhei: as curvas eram celebradas, as Kardashians aumentavam cada vez mais as suas silhuetas e cada campanha - do fast fashion ao luxo - anunciava uma nova imagem de aceitação nesta corrida de peso.
E depois… não sei bem o que aconteceu. Ou melhor, sei. Os anos 2000 voltaram a ser tendência e *aviso de gatilho* não se ficaram apenas pelos ténis com salto. As cinturas desceram, as críticas aumentaram e regressou aquele à-vontade de apontar o dedo que, sejamos honestos, envelheceu mal. Pior do que repescar uma tendência, só remixá-la. A máquina do tempo da moda juntou-se à da ciência e dois fenómenos convergentes começaram a criar um novo padrão estético, não só na passerelle, mas na maior tela da vida perfeita: Hollywood.
Falar sobre corpos é delicado - ninguém deve ser alvo de julgamento pela forma como a sua aparência muda. Mas quando tantas figuras públicas aparentam emagrecimento simultâneo, e isso domina as conversas mais do que os próprios prémios, talvez valha a pena debruçar-nos sobre o assunto. Mesmo mulheres já consideradas magras enfrentam pressão para se tornarem ainda mais esguias, reduzindo o espaço para outros tipos de corpo que, até há pouco tempo, começavam a conquistar alguma representação nas passadeiras vermelhas.
As previsões acertaram: voltámos mesmo a 2016?
Nesta temporada de prémios, houve uma mudança impossível de ignorar, até para os mais distraídos: galerias repletas de corpos que encolheram. Falamos de transformações particularmente visíveis por se tratarem de pessoas famosas, cujos rostos e corpos são documentados ao longo de anos e anos. Depois de uma década de discursos sobre body positivity, o padrão dominante volta a ser um corpo que ocupa o mínimo de espaço possível. 2026 começa a parecer um déjà vu.
Durante muito tempo, Hollywood operou com um ideal de beleza que, apesar de inatingível, era coerente: saudável, radiante, simétrico e magro. Não necessariamente esquelético. Como escreve Brigid Delaney no The Guardian, “antes, as pessoas podiam olhar para as celebridades e sentir-se inadequadas por não parecerem tão bem, mas agora parece que uma parte significativa do público olha e sente algo mais próximo da preocupação, ou até alienação.” Basta percorrer as caixas de comentários nas redes sociais: “parece doente”, “estava melhor antes”, “isto é triste”. O exemplo mais insólito foi o de Jim Carrey, cuja aparência nos prémios César de 2026 gerou teorias de que teria sido substituído por um sósia. Não foi - mas o facto de a dúvida ter parecido plausível diz mais do que qualquer explicação.
Entre os principais catalisadores desta transformação estão os medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, associados a perdas de peso rápidas e significativas. Daí nasceu até o termo “Ozempic face”, usado para descrever rostos que perdem volume e aparentam um envelhecimento súbito (ou cabeças demasiado grandes para o corpo). A isto junta-se a popularização acelerada de procedimentos estéticos: preenchimentos, liftings, aumentos labiais, botox, rinoplastias. O resultado é um novo padrão visual - simultaneamente magro e intervencionado - que pode parecer artificial. Rostos esculpidos, corpos reduzidos, uma estética quase uncanny. O efeito geral é inquietante, como se os humanos estivessem a ser substituídos por versões mais controladas, mais “perfeitas”, mais... IA?
Para o cinema, esta transformação levanta um problema essencial: os atores devem, de alguma forma, refletir a vida. Precisam de parecer pessoas reais - ou, pelo menos, versões reconhecíveis de nós mesmos (possivelmente mais giras, claro). Como observou Angelica Jade Bastién, na Vulture: “Sim, Hollywood está numa crise financeira motivada por uma série de problemas complexos … Mas Hollywood também está numa crise artística. Muitos filmes falham em envolver-se de forma significativa com as preocupações, prazeres e contradições da humanidade moderna. Entretanto, as estrelas de cinema alteraram os seus rostos e corpos para uma semelhança surpreendente que se aproxima dos marcadores de beleza mais fascistas (magreza extrema, brancura, ausência de sinais da passagem do tempo).”
Uma dinâmica que mantém as pessoas, sobretudo mulheres, focadas no corpo, inseguras e mais vulneráveis ao julgamento. Este fenómeno tem sido descrito como uma forma de “fascismo corporal”: uma lógica cultural que define quais corpos são dignos de visibilidade e quais devem ser corrigidos ou ocultados. Um sistema paradoxal, onde o ideal é exigido, mas os meios para o atingir são igualmente criticados. Cirurgias, dietas, tratamentos - tudo é simultaneamente incentivado e condenado. O resultado é um ciclo de insatisfação permanente. Como escreveu Susan Bordo em Unbearable Weight (1993), “o corpo é um local direto de controlo social”. Roxane Gay reforça, em Hunger (2017): “somos ensinados a odiar os nossos corpos”. E, como alerta Bell Hooks em Feminism Is for Everybody (2000), sem uma transformação profunda na indústria da beleza e da moda, não aprenderemos verdadeiramente a amar o corpo como ele é.
"Nem parece ela!" vs "Será que devia fazer um facelift?"
Nada disto é verdadeiramente novo. Nem a imposição de padrões de magreza, nem o debate em torno deles. Nos anos 2000, a estética “heroin chic” dominava desfiles e capas de revista; hoje, observa-se o ressurgimento do mesmo “thin ideal”, amplificado pelas redes sociais e pela velocidade da cultura digital. Estudos em psicologia social continuam a apontar para os efeitos dessa exposição: aumento da insatisfação corporal, ansiedade estética e comportamentos alimentares restritivos, especialmente entre mulheres mais jovens. Como alerta a psicóloga Catarina Lucas, em entrevista à Máxima, “muitos jovens passam a sentir que nunca correspondem ao ideal apresentado. Isso pode provocar ansiedade em relação à aparência e maior pressão para mudar o corpo. Em alguns casos, pode também influenciar comportamentos alimentares pouco saudáveis”.
A especialista sublinha ainda o papel dos media: “Ao mostrar maior diversidade de corpos, idades e estilos, ajudam a tornar esses padrões mais realistas. Isso contribui para uma representação mais próxima da realidade e pode reduzir a pressão estética sentida por muitas pessoas", refere à Máxima, salientando a importância de desenvolver um olhar crítico sobre as imagens que consumimos, lembrando que muitas são editadas ou produzidas. "Também ajuda diversificar os conteúdos que seguimos nas redes sociais. Valorizar qualidades pessoais para além da aparência é essencial."
A verdade é que nos últimos anos, a atenção ao corpo das celebridades em eventos como os Óscares, os Globos de Ouro ou os SAG Awards intensificou-se. Como em quase tudo desde que estamos cronicamente online, cada look é analisado ao detalhe - não apenas pelo design, mas pelo corpo que o sustenta. A magreza extrema tornou-se um tema recorrente nas redes sociais e na imprensa internacional, alimentando debates sobre saúde, estética e responsabilidade cultural. A cobertura dos Óscares de 2026, por exemplo, destacou a predominância de silhuetas extremamente finas, frequentemente descritas como “gaunt” ou excessivamente angulosas. A reação oscila entre admiração e preocupação. Discussões sobre body positivity, diversidade corporal e responsabilidade mediática ganham espaço, ainda que lentamente. Ao mesmo tempo, conteúdos sobre o que se come num dia e a versão XXS do TikTok - o SkinnyTok - conquistam seguidores à procura de respostas para a sua angústia corporal.
A questão já não é apenas o que se veste, mas o efeito cumulativo de uma representação quase homogénea de corpos extremamente magros como ideal de sucesso e elegância. É impossível não ver estas imagens e perguntar o que se passa de errado com os corpos daquelas atrizes... ou com os nossos. É urgente questionar o que está, afinal, a ser projetado e a quem serve esse ideal. Como escreveu Laura Brodnik, no site australiano feminino Mamamia, "há problemas com o mar de corpos magros que circula nestes eventos - e eles não serão resolvidos simplesmente varrendo-os para debaixo do tapete vermelho”.