Como deixei de fumar 10 anos depois (juro, se eu consegui qualquer um consegue)
It was the best of times, it was the worst of times.
Era eu e o meu IQOS contra o mundo. A primeira coisa pela manhã. A última antes de ir dormir. Nos momentos de extremo stress e nos de extrema alegria. Com um copo a mais, com um copo a menos. Aquele “perfeito” depois de um mergulho no mar, o “necessário” após um almoço mais pesado, o “entretenimento” enquanto esperava pelo Uber, a “companhia” quando a ansiedade social aparecia. Mas também era “obrigação”, quando não me deixava sossegada ao perceber que o maço estava abaixo de meio. “Entrave”, nas pausas extra entre as minhas aulas de cycling. “Mau aspeto”, naquele tom acinzentado que competia com a minha rotina perfeita de skincare. Um “buraco” financeiro no Excel das contas mensais. Um ato diário de “ódio” numa jornada que eu jurava ser de amor-próprio. Depois de mais de uma década juntas, tinha chegado a altura de terminar a minha relação mais longa - e também a mais tóxica. Mas como? Quem seria eu sem o meu plus one de todas as festas? Seria menos divertida? Menos enigmática?
A preparação
Decidi deixar de fumar em dezembro de 2024. A ideia era fazê-lo em conjunto com uma colega de trabalho, mas… ela cumpriu a resolução e eu fui adiando até me sentir pronta (o que levou nove meses, com ela a cobrar-me a promessa falhada a cada “bom dia” e café no escritório). Bom, cada um leva o seu tempo. Depois de partilhar a minha vontade com a minha psicóloga, ela aconselhou-me a prestar atenção aos cigarros que já me “sabiam mal” - e até deixá-los a meio, caso esse pensamento surgisse. Outra sugestão foi ir repetindo a minha intenção de deixar de fumar, com foco no querer e não no ter de.
Com o passar dos meses, a semente foi criando raiz e, no mês do meu aniversário, decidi - finalmente, Mariana! - passar à ação. O TikTok (uma das minhas grandes descobertas do ano) ajudou-me a encontrar testemunhos que apontavam para uma fórmula “infalível” para largar o hábito. O trauma de tentativas passadas - quase responsáveis por divórcios - deixava-me receosa do monstro interior que poderia despertar. Mas descobrir que existia medicação capaz de atenuar os efeitos deu-me coragem para o passo final: marcar uma consulta de cessação tabágica. Numa breve avaliação telefónica, ficou claro que o meu nível de adição era elevado, mas o da minha vontade de parar ainda maior. Marcámos o Dia D (de dramático, na minha perspetiva) para a quarta-feira seguinte - “um dia meh”, como descreveu a médica, e eu gostei. Comecei a tomar a medicação uma semana antes. Com os comprimidos, senti-me menos sozinha. Mesmo que tenha sido tudo placebo, foi exatamente o que precisava para decidir.
O dia antes
Também conhecido como os piores preliminares da história. Pior do que deixar de fumar foram todos os cenários criados pela minha cabeça nas 24 horas anteriores (tenho muita imaginação). Como iria acordar e não pegar num cigarro logo de manhã? Como iria trabalhar? Como iria, literalmente, sobreviver? Entra Allen Carr - o único homem que permito que me diga o que fazer e o que não fazer. Fumador compulsivo durante 33 anos, chegou a fumar 100 cigarros por dia (pior do que eu, sim!!!). Aos 48 anos, a 15 de julho de 1983, deixou de fumar de um dia para o outro e, até à sua morte, aos 71, nunca mais teve vontade de pegar num cigarro. A sua motivação está explicada no bestseller Easyway — O Método Fácil para Deixar de Fumar, uma espécie de bíblia para ex-fumadores. Nas suas páginas, enquanto nos “autoriza” a fumar cigarro atrás de cigarro, Carr explica tudo aquilo que aparentemente já sabemos… mas de forma quase hipnotizante. As palavras entram. Muito mais do que os “por favor deixa de fumar” da minha mãe. Depois de cinco horas a interiorizar cada mantra do livro, deitei-me com a expressão mais estranha possível na véspera de deixar de fumar: um sorriso.
Os primeiros dias
Esta fase pedia uma coisa: manter-me ocupada. Muito ocupada. Quando não estava ocupada, estava a chorar, a gritar com o meu namorado no estacionamento do IKEA ou a ter pesadelos completamente sem sentido (um dos efeitos secundários mais falados da medicação). Também me podiam encontrar a comer desenfreadamente ou a fazer scroll compulsivo na Vinted (“vou poupar imenso dinheiro, estas botas são praticamente grátis, eu mereço”), sempre com pausas estratégicas para repetir a frase de Carr que me trouxe até aqui: “deixar de fumar não é um sacrifício, é uma libertação”. O método de Carr defende que os fumadores não são viciados em nicotina, mas na ilusão de que fumar proporciona prazer ou apoio.
O primeiro passo é entender isso. O segundo é perceber que nada do que realmente me dá prazer está ligado ao tabaco. O meu cão recém-adotado (aka amor da minha vida). O Mescal Sour do Vago. O meu vibrador. Tudo isso continuava a dar-me felicidade, na mesma medida. Fui percebendo que não sacrifiquei nada ao deixar de fumar. Pelo contrário: ganhei saúde, energia, dinheiro e liberdade.
Três meses depois
Sendo 100% honesta, continuo a ter vontade de fumar. Não sempre, mas com alguma regularidade - embora já existam dias inteiros em que nem me lembro do tabaco. Chegar ao final do ano com este objetivo cumprido é, sem dúvida, uma das maiores palmadinhas nas costas que já dei a mim mesma. Hoje não me apresento como “ex-fumadora”. Apresento-me como alguém que deixou de precisar de um objeto para legitimar pausas, conversas ou versões supostamente mais interessantes de si própria. Continuo a ser intensa, ansiosa, sociável, caótica, só que agora respiro melhor, tenho a pele menos cansada e um Excel muito mais simpático.
Troquei o cigarro por tempo - mental, financeiro, emocional. Tempo que já não desaparece em pausas inventadas nem em desejos emprestados. Tempo que agora é meu. E se há luxo real, não está nas coisas que consumimos, mas nas que deixamos de precisar. O cigarro nunca foi um enigma. Era apenas nevoeiro com um ótimo PR.
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