Toda a gente à minha volta faz botox. Estou a resistir ou apenas a adiar?
Ah, envelhecer: prova inequívoca de que estamos vivos, idealmente saudáveis, e de que continuamos a dominar esta coisa que é existir. Mas será que a forma como envelhecemos é mesmo uma escolha pessoal e intransmissível?
Ao contrário do que se possa pensar, trabalhar numa área criativa dá-nos uma obsessão de encontrar beleza em características que a sociedade tende a considerar, digamos, feias. Apresentem-nos um diastema, um nariz anguloso, uma cicatriz: ai, sim, por favor. Que linda, musa, deusa. E perguntem-nos: conseguimos fazer o mesmo com rugas? Finas, profundas, transversais, barely-there — sim. Conseguimos. Desde que não seja na nossa cara.
Aliás, desde que comecei a pensar e pesquisar sobre este tema, descobri uma média de 72645282 novas rugas. O que significa que, no que toca ao assunto do momento, já vou tarde. Também descobri que há palavras novas no nosso vocabulário, como “prejuvenescimento” ou toxina botulínica tipo A mas, tal como as soluções rápidas e visíveis que ela nos promete, vou chamar-lhe só botox.
Antes de mais, os factos. Tudo acontece por uma razão, menos as rugas, que acontecem por duas: primeiro, a verdade universal “água mole em pedra dura”, ou seja, o movimento repetido e constante dos nossos músculos desenha linhas na pele que os protege; segundo, à medida que envelhecemos e nos expomos constantemente a coisas maravilhosas como o sol e a vida, o afinamento da derme torna a pele mais susceptível a rugas. Ao paralisar temporariamente os músculos do rosto, o botox atua na primeira causa como o protetor solar, não fumar e ter uma rotina saudável de skincare entram na segunda.
Mais factos que já conhecemos? Sim: a aplicação de botox preventivo, baby-botox e outros termos fofinhos criados por departamentos de marketing sobre-estimulados, está a subir radicalmente entre os mais jovens. Mesmo jovens. Não existindo dados estatísticos para Portugal (sabendo nós que as únicas coisas que nos distinguem deste mundo ocidental globalizado são a chanfana e o baixo poder de compra), olhemos para o lado: no Reino Unido, são aplicadas cerca de 900 mil injeções de botox por ano, e a faixa etária entre os 18 e os 34 anos ascende a quase um quarto dos clientes. A normalização dos procedimentos estéticos não invasivos galgou as nossas tias e a ditadura de Hollywood para se instalar não apenas em nós, mas nas nossas irmãs mais novas. Também sabemos a influência que as redes sociais têm na nossa autoimagem e, não nos alongando demasiado, relembramos que Dana Berkowitz, autora de Botox Nation: Changing The Face of America, explicou à NPR que o aumento no consumo de botox desde a pandemia se deve ao isolamento social e à mudança de hábitos nos jovens (mais vezes confrontados consigo mesmos em aulas ou reuniões digitais, mais viciados no consumo de conteúdo no TikTok).
A eficácia do botox preventivo é apregoada por um sem-fim de profissionais, de consumidores e, claro, por nós, que analisamos os resultados no rosto dos outros ao milímetro, ao mesmo tempo que perguntamos o nome da clínica e do médico e adicionamos aos “guardados” no Instagram. Também há vários especialistas (apontemos o Dr. Afshin Mosahebi, professor de cirurgia plástica na University College London, em 2024, no The Guardian, e Ashton Collins, diretora da Save Face, em 2025, na BBC) que advertem que o nosso corpo ganha resistência às toxinas. Ou seja, a quantidade de botox injetado tem de aumentar ao longo do tempo, e o espaço entre injeções tem de diminuir, para que consigamos os mesmos resultados.
Este texto levou-me a ter conversas extremamente interessantes, e algumas inéditas, com amigas. Puxei o assunto com aquelas que ainda não tinham feito botox e, para minha surpresa (ou não), a resposta foi transversal “ainda não, mas estou a pensar nisso”. Por muito que vários aspetos na sociedade nos levem a pensar que vivemos num abismo civilizacional (hey, looksmaxxing), não podemos negar que avançámos seriamente enquanto sororidade. Quando alguma amiga nos conta que pôs botox, ou que é algo que está nos seus planos a curto-prazo, a reação imediata não é (ao contrário dos tempos antigos, ou seja, cinco anos) julgamento, mas curiosidade ou apoio ou celebração. Porque é normal. E não é apenas normal pelo que falo acima: é normal porque cada mulher conquistou a agência do seu corpo. É normal porque é só mais um item na sua rotina (três litros de água, cycling, protetor solar, skincare, matcha) e porque sabemos plenamente que aumenta a sua autoestima. É normal porque encaixa na narrativa de tentarmos ser a melhor versão de nós próprias. É difícil contrariar algo que contribui para a nossa saúde mental, não é?
Uma das amigas disse-me que é preciso fazer um processo de autoanálise para que a aplicação de botox não venha de um sítio de demasiada insegurança. “Por muito confiante que se seja, envelhecer é desafiante. Uma ajuda ou um pequeno detalhe que nos faça sentir bem, pode até ajudar a levar o envelhecimento a um sítio mais saudável.” Mas este processo implica ponderação, autoconhecimento e, talvez, uns quantos anos de terapia. Nesses casos, e banalizando tremendamente para efeitos dramáticos, é como usar batom vermelho em dias em que nos sentimos um autêntico lodo: um microajuste que faz toda a diferença para a postura com que saímos de casa.
Só que o botox não custa o mesmo que um batom vermelho. Outra amiga enfatiza que este tipo de procedimentos, ainda que cada vez mais acessíveis, “são permitidos a um certo nível económico, ou a alguém que faça compromissos para poder pagá-los, e a questão é que, no final, o ‘estar bem e cuidar de si’ passa a ser uma atividade de elitismo”.
O privilégio e a aceitação dos padrões sociais são os dois temas que não consegui ainda diluir. Numa troca de ideias bastante profunda com uma terceira amiga, esta apontava-me que a beleza é usada pela sociedade para medir o nosso valor (tem razão, há, inclusive, um estudo que revela que se os trabalhadores de um hospital acharem um recém-nascido bonito, este é mais vezes pegado ao colo que os outros). Mas a beleza ainda é para nós, ao contrário do que tentamos apregoar aos outros, ser jovem? A mesma amiga dizia que, por causa de quem segue no TikTok ou de séries que idolatra, construiu um ideal de beleza em que as mulheres não têm expressão. Não se riem, não se emocionam. E, claro, não têm rugas. Vamos mesmo continuar a compactuar com isto? A propagar estes ideais? Não nos cabe também a nós mostrar a mulheres mais jovens o quão bonitas somos cheias de marcas e linhas de riso e sinais claros de preocupação? O que é que estamos a dizer às novas gerações ao congelar-nos no tempo? Escrevemos tantas vezes que muitas mulheres andaram para que nós pudéssemos correr, e escusamo-nos da responsabilidade de correr para que as mais novas possam voar?
Dito isto: se me oferecessem uma injeção de botox, eu recusaria? Escolher como envelhecemos sempre foi um privilégio e, se a minha situação financeira me permite alguns luxos, o botox (não apenas pelo preço, mas pelo investimento continuado ao longo do tempo) ultrapassa o que posso pagar. O que me leva a interrogar até que ponto uso a minha moralidade para mascarar uma fragilidade financeira. Serei tão moralmente superior quando envelhecer mais depressa do que as minhas amigas? Já era difícil comparar-me a estrelas distantes que idolatro - quão complicado vai ser olhar para as fotografias em que estou 24 anos mais velha que as mulheres da minha idade ao meu lado?
Há uma linha que separa a aceitação e a negação, e eu ainda não decidi se vou preenchê-la.
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