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Tatuagens. Das borboletas às constelações e datas: as novas tendências

Carolina Batista, tatuadora profissional, revela-nos qual a razão que a fez escolher viver desta arte, quais são as novas tendências de desenhos e que mudanças existiram nos últimos anos na forma de ver a profissão.

Foto: DR
13 de abril de 2023 Rita Silva Avelar

Tem um estúdio em São Domingos de Rana, arredores de Lisboa, que é o seu refúgio e onde tatua, rodeada pelo seus dois cães e pelas suas plantas, num ambiente de plena harmonia e tranquilidade. Aos 30 anos, Carolina Batista é uma das tatuadoras da nova geração que prefere tatuar numa espécie de ritual: todas as tatuagens são importantes, da mais pequena à mais elaborada, e todas devem ter o seu tempo. O ato de tatuar passou, portanto, a ser um momento de pampering. Alia a paixão da fotografia à moda - cria ilustrações em t-shirts e casacos, que pinta à mão -, mas a sua paixão é mesmo tatuar. Conversamos com ela no seu estúdio.

Como começaste a tatuar e porque te apaixonaste pela tatuagem?

Desde sempre que fui muito apaixonada por tatuagens. Fiz a minha primeira aos 18 anos às escondidas da minha mãe, desde então ganhei o tal vício de que tanto falam e já tenho cerca de 42 tatuagens no corpo, tudo coisas muito pequenas e delicadas. Penso que sempre adorei, porque acho lindo de morrer termos arte marcada no nosso corpo principalmente porque muitas vezes contam as nossas histórias de vida. Comecei a tatuar por causa de uma brincadeira com um amigo meu e ganhei o bichinho à séria, o que me fez querer tornar tatuar em algo que estivesse presente no meu dia a dia. 

As tatuagens de Carolina destacam-se pela simplicidade e delicadeza.
As tatuagens de Carolina destacam-se pela simplicidade e delicadeza. Foto: Carolina Batista

Qual foi a primeira que fizeste e em que contexto?

Eu licenciei-me em fotografia e após acabar a licenciatura comecei a pintar casacos, onde cheguei a trabalhar com várias marcas conhecidas mas a verdade é que sentia que fotografar e pintar era algo que não me enchia as medidas. Um dia um amigo meu que é tatuador disse que como eu sabia desenhar, que provavelmente iria ser boa a tatuar! Então, por brincadeira ofereceu-se para eu experimentar nele. Eu estava completamente assustada, pela responsabilidade que é, mas a verdade é que correu super bem e senti que era algo a que queria mesmo dedicar-me. Fiz-lhe um coração meio tosco, que tinha uns olhos que deitavam umas lágrimas. Não ficou de todo perfeito, mas fiquei muito feliz com o resultado - para primeira vez. 

És uma "filha" dos anos 90, o que mudou dessa altura até agora na maneira de tatuar?

Penso que o que mudou principalmente foi não só a grossura da linha com que se tatuava como os desenhos em si. Antigamente eram tatuagens mais pesadas, escuras, muito grossas com muita informação e hoje em dia já temos cada vez mais tatuadores que se dedicam à linha fina, a sombras bem mais delicadas e sem dúvida a tatuagens mais discretas. 

Um dos cães da tatuadora, que está sempre no estúdio.
Um dos cães da tatuadora, que está sempre no estúdio. Foto: Carolina Batista

Já não se tatua como uma tinta qualquer, certo? A tua é vegan. Que cuidados existem nesse domínio?

Hoje em dia já quase todas as tintas são vegan, penso que todas as marcas começam a ter cada vez mais esse cuidado e preocupação. Não só pela questão dos animais, mas também pelo planeta. Eu não uso apenas tinta vegan, todos os produtos restantes usados no momento para tatuar também o são. Desde o sabão líquido com que limpo a tatuagem, ao creme que utilizo no final. O plástico que uso para proteger a máquina é biodegradável, tento mesmo trazer para o meu trabalho aquilo que defendo e acredito no dia a dia e recomendo sempre formas naturais as pessoas para tratarem as suas tatuagens. Recomendo sabonete de glicerina para limpeza e o óleo de coco, que a meu ver é o melhor para cicatrizar e hidratar. 

No estúdio, The Wild Gypsy, Carolina utiliza tintas vegan e materiais biodegradáveis.
No estúdio, The Wild Gypsy, Carolina utiliza tintas vegan e materiais biodegradáveis.

Que tabus se quebraram já sobre as tatuagens?
A tua especialidade, por assim dizer, é a linha fina, como dizes. O que exige esta técnica?

Cada vez mais acredito que esse tabu está associado a coisas negativas, e que está a ser quebrado. Antigamente ouviamos muitas histórias de pessoas que não conseguiam trabalho por causa de terem tatuagens, hoje em dia farto-me de tatuar enfermeiros, médicos, advogados e felizmente existe cada vez menos julgamento. 

Linha fina é dos trabalhos mais difíceis que se pode pedir a um tatuador, senão o mais difícil. Quando se pede linha fina e um desenho "simples" como pouco detalhe, como um triângulo, um coração ou por exemplo um círculo, por ser algo tão simples não existe manobra de erro. Ao contrário de um desenho elaborado, no qual pode haver oportunidade de acertar porque tem vários detalhes e não se irá notar tanto, numa tatuagem simples basta fazer o mínimo erro, mínima linha ao lado e estraga-se a tatuagem toda sendo que é logo bastante visível.

Que desenhos são tendência neste momento?

Neste momento a linha fina está muito na moda e pedem-me muito desenhos simples e delicados. Pedem-me bastantes frases, palavras, animais como borboletas, elefantes, cães, constelações e datas. 

A tatuadora revela que a técnica da tatuagem em linha fina é dos trabalhos mais difíceis nesta arte.
A tatuadora revela que a técnica da tatuagem em linha fina é dos trabalhos mais difíceis nesta arte. Foto: Carolina Batista

Desenhas em exclusivo muitas vezes?

Desenho, sim! O que acontece muitas vezes é as pessoas virem com uma imagem base e no dia da marcação faço várias alterações e torno o desenho mais como a pessoa pede e gosta. Tento sempre dar um toque meu, acho que é importante. 

Qual é a magia de tatuar, para ti?

Para mim a magia de tatuar não passa apenas pelo processo da tatuagem, mas sim por todo o momento e envolvência. Lembro-me que há uns anos, quando ia tatuar, sentia que não era um momento "especial". Chegava lá e era tatuar e ir embora. Os tatuadores mal falavam, não havia conexão. Eu gosto mesmo de conhecer a pessoa que tatuo, conhecer a sua história e muitas vezes também partilho um pouco da minha. Acho que é um momento bonito e único, porque estou a marcar alguém para a vida. Gosto de ter ligação com as minhas clientes e a verdade é que muitas delas acabam por virar amigas, porque felizmente sinto que o meu estúdio acaba por ser um espaço seguro de muita partilha. Já tive pessoas que me marcaram a sério, com histórias de vida mesmo muito difíceis e sinto que tenho crescido muito a nível pessoal com elas. Amo mesmo o que faço e muito por culpa das pessoas que se cruzam no meu caminho. 

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Qual será o futuro desta área? por onde passa?

Penso que terá sempre um futuro, pelo facto de ser mágico marcares o teu corpo com coisas que são especiais para ti. Portanto, acredito mesmo que é algo que vai estar cada vez mais na moda e que qualquer dia já vai ser mais estranho não teres tatuagens do que teres! 

Carolina tem 30 anos.
Carolina tem 30 anos. Foto: Carolina Batista

Qual é a tua tatuagem preferida - tua, mesmo - e história favorita dessa ou de outra?

Eu tenho várias tatuagens que adoro e com muito significado, mas há uma especial. Eu antes mal via um desenho que adorava no Pinterest, era impulsiva e estava na hora a pedir marcação a um tatuador. Houve um específico que é de uma rosa aberta, com três margaridas a sair de lá de dentro que não sei explicar bem porquê mas mexeu muito comigo. Simplesmente adorei e quis tatuar, mas na altura sem qualquer significado. Foi a minha primeira tatuagem visível e a maior que fiz. No dia seguinte quando fui mostrar a minha avó, ela olhou com atenção e disse - "a rosa és tu, as margaridas sou eu, a mãe e o avô. A rosa está aberta porque fomos nós que te ajudámos a florir e a tornares-te nessa bonita flor." A verdade é que eles os três são os pilares mais importantes da minha vida, sem eles não era ninguém e assim em 2 minutos tornou-se a minha tatuagem mais especial. 

Esta é a tatuagem mais especial no seu corpo, que retrata a própria, a mãe e os avós.
Esta é a tatuagem mais especial no seu corpo, que retrata a própria, a mãe e os avós. Foto: Carolina Batista
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