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Sintomas e preocupações. Como combater a nova variante da Covid-19 segundo um médico

Ricardo Mexia, médico de saúde pública e epidemiologista, explica quais os aspectos mais preocupantes em relação às novas mutações do vírus, e como Portugal está a sofrer com o seu aparecimento. Saiba também a que sintomas estar atento/a.

Foto: Polina Tankilevitch / Pexels
13 de janeiro de 2021 | Rita Silva Avelar

No final do ano passado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) admitiu estar a estudar variantes do novo coronavírus encontradas na Grã-Bretanha e na África do Sul. Numa conferência que aconteceu em dezembro do ano passado, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que a associação sempre trabalhou com cientistas para compreender como estas alterações genéticas afetam a forma como o vírus se comporta. "Os vírus mudam com o tempo; isso é natural e esperado. Quanto mais permitirmos a sua propagação, mais oportunidades têm de mudar" explicou, na altura, reforçando também a importância dos Governos tomarem medidas preventivas neste sentido.

Em Portugal, assistimos nos últimos dias a números de infectados elevados, que chegam aos 10 mil casos, e as mortes que ultrapassam uma centena, diariamente. Ricardo Mexia, médico de saúde pública e epidemiologista, explica que a comunidade médica está atenta às mutações desde o início do aparecimento do novo coronavírus. "Desde o início que foi importante nós acompanharmos a evolução da situação e em particular aquilo que diz respeito às novas mutações. Isto porque elas podem ter múltiplos impactos: podem ter impactos na severidade da doença e na transmissibilidade da doença, e portanto eu diria que estas são as duas características que mais nos preocupam."

Quanto à nova mutação identificada como proveniente da Grã-Bertanha, o médico não esconde que é um alerta a não descurar. "Até ver, as características que tem da mutação que teremos importado do Reino Unido apontam no sentido de ser mais transmissível. Provavelmente, o aumento da transmissibilidade é até uma situação mais preocupante do que o aumento da severidade. Porquê? Porque se nós tivermos um aumento muito importante do número de casos, mesmo que mantenhamos aquilo que é a severidade, com o aumento do volume teremos muito mais mortalidade, que é o que estamos a assistir agora. Quanto temos estes dez mil casos – sabemos que a letalidade andará em torno do 1 ou 2%, e portanto, uma parte desses casos terá infelizmente um desfecho negativo" explica.

De acordo com o Centro de Prevenção de Controlo e Doenças (CDC), nos Estados Unidos, há pelo menos quatro sintomas a que devemos estar atentos, em relação à nova variante que teve origem no Reino Unido e já se propagou pelo mundo: falta de ar ou dificuldade em respirar, dor persistente no peito, fadiga extrema acompanhada de sonolência e – este é novo a somar aos que já conhecíamos – confusão. Outros sintomas de covid-19, não esqueçamos, incluem tosse seca, febre, dores musculares, diarreia, perda do olfacto e do paladar, dores de cabeça e de garganta, conjuntivite ou irritações cutâneas.

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Este médico e epidemiologista, que publicamente tem sublinhado a importância de se tomarem mais medidas além do confinamento, reforça as suas preocupações em relação ao fator transmissibilidade. "Em relação a esta estirpe que estamos agora a observar, até ver a evidência vai no sentido de ela ser efectivamente mais transmissível, ter maior capacidade de se disseminar, e isso gera-nos naturalmente uma maior preocupação". E reforça: "a percepção que tivemos desde uma fase inicial, no que diz respeito à transmissibilidade, teve a ver com a circunstância de aparentemente haver uma maior capacidade do vírus se ligar às células. Entretanto, já constatando aquilo que acontece do ponto de vista comunitário, aparenta de facto haver uma maior transmissibilidade da doença, o que pode também justificar uma parte deste aumento de casos a que assistimos, quer no Reino Unido quer também cá em Portugal."

Quando questionado sobre se estes dados serão em breve públicos, menciona o papel da genotipagem [processo que determina diferenças na composição genética de um indivíduo], feita em todos os vírus e, neste caso, uma das missões incansáveis do Instituto Ricardo Jorge. "O próprio Instituto Ricardo Jorge, que faz a genotipagem de algumas das amostras de vírus, tem isso disponível com absoluta transparência até num projeto internacional. É possível ver, das estirpes que foram genotipadas, qual é a ligação que elas têm, se têm alguma mutação e isso é algo que está a ser acompanhado desde o início." Mas também aqui há obstáculos, ou aspectos que tornam a análise mais morosa. "A grande questão que se coloca é que [este processo] é uma técnica bastante diferenciada, morosa e também implica alguns recursos, portanto não o faremos para todas as amostras, mas faremos seguramente para números suficientemente robustos para poder acompanhar a evolução da situação", conclui.

 

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