O nosso website armazena cookies no seu equipamento que são utilizados para assegurar funcionalidades que lhe permitem uma melhor experiência de navegação e utilização. Ao prosseguir com a navegação está a consentir a sua utilização. Para saber mais sobre cookies ou para os desativar consulte a Politica de Cookies Medialivre

Máxima

Beleza / Wellness

“Homem não chora": 7 razões pelas quais os homens fogem da terapia

"Tenho uma consulta às cinco", mas não é de psicologia, com certeza. Deixamos os motivos pelos quais deviam fazer terapia para outro (muito extenso e quiçá interminável) artigo.

Os Sopranos
Os Sopranos Foto: IMDB
07 de maio de 2026 às 09:56 Patrícia Domingues

Há frases recorrentes deixadas por mulheres nas caixas de comentários das redes sociais que se transformaram, silenciosamente, nas minhas punchlines favoritas. Entre as mais citadas estão “nem todos, mas sempre um homem” e “os homens fazem tudo, menos ir à terapia”. Têm humor porque tocam numa verdade desconfortável - embora, no quotidiano, essa leveza se dissipe facilmente.

As mulheres vão à terapia. Os homens… bem, muitas vezes, os homens vão à terapia delas. A investigação tem vindo a mostrar, de forma consistente, que os homens recorrem menos a apoio psicológico - não por mera “falta de vontade”, mas por um emaranhado de fatores culturais e estruturais (onde se inclui o custo, claro). Num artigo já clássico, Mark E. Addis e James R. Mahalik (2003) defendem que certas normas tradicionais de masculinidade, como a autossuficiência, o controlo emocional e a ideia de invulnerabilidade, entram frequentemente em tensão direta com o ato de pedir ajuda. 

Revisões sistemáticas, como a de Zac E. Seidler (2016), acrescentam uma camada adicional: para muitos homens, procurar terapia pode ser vivido menos como um gesto de cuidado e mais como uma ameaça subtil à identidade e à autonomia. Os dados globais da Organização Mundial da Saúde lembram o que está em jogo: os homens apresentam taxas de suicídio significativamente mais elevadas em várias regiões do mundo, sublinhando a urgência de compreender estas dinâmicas e de repensar as formas de intervenção em saúde mental.

Como observa a Dra. Catarina Lucas, psicóloga e diretora dos Centros Catarina Lucas, há um padrão que se repete: “os homens sofrem, mas não falam. E quando falam… já estão no limite”. A especialista identifica vários motivos para esta evasão da terapia - entre eles, o peso da socialização masculina, o medo da vulnerabilidade e a dificuldade em reconhecer o sofrimento emocional como algo legítimo e tratável.

1. “Homem não chora”

Desde cedo, muitos homens aprendem que sentir é fraqueza. Frases como “engole o choro” ou “tens de ser forte” moldam a forma como lidam com emoções. O resultado? Adultos que não sabem nomear o que sentem nem falar sobre isso. Isso cria uma desconexão emocional que não desaparece sozinha na vida adulta. Sem vocabulário emocional, torna-se difícil até identificar ansiedade ou depressão.

2. A ideia de que pedir ajuda é fraqueza

Muitos homens associam terapia a falhar. Há uma crença silenciosa: “se eu precisar de ajuda, é porque não consigo sozinho”. E isso entra em conflito direto com o ideal de autossuficiência masculina. Na prática, isto leva a atrasar o pedido de ajuda até a situação se agravar. Pedir apoio é visto como dependência, quando na verdade é uma competência emocional.

3. Falta de literacia emocional

Muitos homens não evitam a terapia por resistência, mas por não saberem o que dizer. Se nunca foram ensinados a olhar para dentro, sentar numa sala e falar de emoções pode parecer… estranho. Isto faz com que muitas sessões iniciais sejam silenciosas ou pouco produtivas. Aprender a identificar emoções é um processo, não um “dom natural”.

4. Só vão quando já estão no limite

Um padrão muito comum: homens procuram ajuda apenas quando algo colapsa relação, trabalho, saúde mental. Antes disso, vão aguentando sinais de stress, irritabilidade ou exaustão. Quando finalmente chegam à terapia, já existe um nível elevado de sofrimento acumulado. Isso torna o processo mais longo e mais exigente emocionalmente.

5. Estigma social (o que os outros vão pensar?)

Ainda existe julgamento explícito ou subtil. A saúde mental masculina continua rodeada de tabus, e muitos homens evitam terapia para não serem vistos como “fracos” ou “problemáticos”. Este medo de julgamento pode vir de amigos, família ou contexto profissional. Mesmo quando ninguém critica diretamente, a antecipação da crítica já influencia a decisão.

6. Preferem agir em vez de falar

Alguns homens sentem que falar “não resolve nada”. Há uma tendência para lidar com emoções através da ação (trabalho, exercício, distração), em vez da verbalização. Isso pode ajudar a curto prazo, mas não processa a causa emocional. A terapia pode ser vista como “passiva”, quando na verdade é um trabalho ativo de reflexão.

7. “Eu aguento sozinho”

Autossuficiência levada ao extremo. Muitos homens acreditam que devem lidar com tudo sozinhos, até deixarem de conseguir. Mas os números contam outra história: homens têm maior taxa de suicídio e mais dificuldades em procurar ajuda. Este padrão de resistência pode atrasar intervenções importantes.

"Faz-te homem" (psicologia invertida?) e marca consulta: sugestões para superar estes motivos

Reformular o que significa “ser forte” é um dos primeiros passos. Como sublinha a psicóloga, força emocional não é aguentar tudo em silêncio, mas “reconhecer limites e agir antes de chegar ao colapso”. Essa inversão abre espaço para uma nova forma de estar consigo próprio.

Também a ideia de “estar preparado” para a terapia merece ser desconstruída. Não é necessário ter discurso, nem clareza total. Muitas vezes, começar por dizer “nem sei por onde começar” é já, em si, um movimento terapêutico. Outro ponto essencial passa por deixar de olhar para a terapia como último recurso. Procurar apoio mais cedo não é sinal de falha, mas de prevenção. E, nesse sentido, pode ser precisamente o que evita o agravamento do sofrimento.

Por fim, há um trabalho silencioso, mas fundamental: aprender a nomear o que se sente. Stress, irritação, ansiedade - palavras simples que ajudam a criar alguma ordem no que, por dentro, pode parecer caótico. “A literacia emocional constrói-se”, como lembra a Dra. Catarina Lucas, e não exige perfeição, apenas disponibilidade.

As Mais Lidas