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O verniz social ou a arte milenar do faz de conta

A maior parte das pessoas esconde-se atrás dos cortinados, é tão português ficar atrás dos cortinados a espreitar para a vida dos outros sem que deixem vislumbrar a sua. É uma herança rural, da ditadura e da igreja, claro, tão sul da Europa. Mas se o pudor é bonito, a honestidade é sexy.

Foto: Pedro Ferreira @ Agosto 2019 / Edição 373
17 de maio de 2022 Patrícia Barnabé

Cada vez gosto mais dos que dizem a verdade. Sobre tudo. As pessoas que não fogem às conversas difíceis, nem às opiniões controversas, as que não se importam de deixar uma mesa de jantar em silêncio se a verdade for mais urgente do que o verniz que (todos) polimos um bocadinho para que os outros gostem de nós. O verniz social é uma capa útil, civilizadora até, mas uma grande maioria aninha-se nele convenientemente, é uma almofada de imobilidade e cobardia.

Assim como o politicamente correcto parece ser um bom apaziguador de almas e, quem sabe, conseguir avanços diplomáticos, também pode ser a maior fonte de banalidade. Não se aprende nada, serve apenas para adiar a inevitabilidade que é o encontro com o outro, e a possível e saudável clivagem, ou encaixe, que são as nossas histórias de vida. É na diferença e no debate que nos sofisticamos. Uma pedra preciosa é tão mais bela quantas mais, e diversas, forem as suas facetas e cintilações.

Apesar do discurso do "ama-te como és", do culto da personalidade e da bandeira linda da diversidade, nunca me senti viver num mundo tão faz de conta como hoje. E não é só culpa do entretenimento e da celebridade, que alimentam os filtros do Instagram e as falsas loiras que julgam influenciar o mundo (vá-se-lá-saber em que direcção), com os seus pout de botox a fazer de conta que é estilo. São os detalhes postiços das nossas vidas: dos casais que julgam parecer felizes quando já seguiam novas vidas; do status que quer parecer natural, mas nota-se que é suado; dos falsos magros, jovens, viajados, inteligentes, é um manancial de mentiras com o rabo de fora. E a maioria que se veste, ou fala como um rebelde, não tem nem uma lasca. Mostra-me a tua vida, dir-te-ei quem és.

Talvez por nunca termos visto, e de forma tão evidente, a vidinha a andar para trás como nesta pandemia, agora parecemos fazer ainda mais de conta de que estamos sempre contentes. Como na noite de passagem de ano. E mesmo depois de termos passado, na maioria dos casos, os dois anos mais desafiantes das nossas vidas, continuamos a acreditar que fazemos os outros acreditar que estamos espectaculares - para acreditarmos nós que sim. Porque não aceitar que não? Nunca foi tão difícil encontrar um ombro para nos queixarmos, quando se esperava o contrário: estamos todos mais perto do chão, mesmo que alguns olhem para as estrelas, como diz o maravilhoso Oscar Wilde. 

Algumas pessoas são especialistas em faz de conta social, as mais talentosas até dão espectáculo. Normalmente, são só querem agradar, e são mais amadas por aquilo que parecem, do que por aquilo que são (muito menos pelo o que dão). Sabemos que a exigência nunca está na maioria, mas há quem se alimente da maioria para subir um degrau ou encontrar um amor-próprio que não lhe é, lá está, natural. É a procura infantil do aplauso e da unanimidade. Que aborrecido. E nunca esperem que estas pessoas vos levantem do chão ou vos levem de férias se estiverem sozinhos. Tudo é acerca delas e não há almoços grátis. 

Se repararem, estas são as mesmas pessoas que nunca falam da sua intimidade, está sempre tudo bem: os namorados são óptimos, os filhos inteligentes e saudáveis, o trabalho impecável. Só que não. As conversas adoram os espertos mais do que os inteligentes porque são mais divertidos e mais fáceis de perceber. Está sempre tudo bem. Tomamos comprimidos para dormir, passamos fome para emagrecer, sofremos de ansiedade crónica e de insónia constante, perseguimos amores impossíveis e coisas que nunca teremos, mas está tudo bem. Desde que pareça tudo bem.

Vivemos a grande era da cobardia, do ghosting, as pessoas desaparecem sem se despedirem. E já ninguém pede desculpa. Falta-nos humanidade porque nos falta humildade. Existem poucas coisas tão desarmartes, apaixonantes e atraentes do que a sinceridade. A sinceridade dá tusa. Porque é não ter medo da própria fragilidade. Por isso, prefiro uma pessoa de neura do que a que está sempre bem, porque ninguém está sempre bem. E nota-se. Ninguém está sempre a rir, nem concorda sempre, é mentira. Um coisa é ser-se risonho, outra é ser-se sonso. A verdade não parece ser popular, também por isso é a coisa mais bela do mundo.

A maioria de nós passa a vida a fazer de conta que é qualquer coisa que gostava de ser. E a esgueirar-se para o rebanho da maioria. Por isso, repito, sempre amei a autenticidade e a frontalidade. É preciso tomates para dizer a verdade. Mas acredito que seja um exercício de partilha difícil. Se falássemos mais sobre o que sentimos, isto estava muito melhor. Se falássemos mais das nossas fragilidades, elas doíam menos, seriam normalizadas até à insignificância de tudo o que tem remédio (e o que não tem também). Passamos todos pelas mesmas coisas. 

Hoje dou por mim a limpar mensagens que nunca chego a enviar porque não vale a pena. Mais do que aprender a viver entre a maioria, percebi que esta não gosta de saber a opinião dos outros. Mesmo que seja mais abalizada, mesmo que tenha razão. A maioria não gosta de ser incomodada no seu entendimento do mundo. Alguns de nós, pelo contrário, adoram pensar em conjunto, que façam as perguntas que fazem pensar e repensar, todos juntos, para fazer melhor a seguir. Esses incómodos são os primeiros a ser despedidos e os últimos a serem escolhidos no trabalho ou no amor, mas vou contar-vos um segredo: são os melhores. Agora sim, a nossa verdade, como a nossa nudez, não é merecida por todos. 

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