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O tempo é relativo, excepto para as rugas

"Tivesse eu dinheiro suficiente e a certeza de que voltaria a ficar como antes, sem correr o risco de correr mal e de tornar a cara um bolo com excesso de fermento, ia a uma clínica fazer uso das borrachinhas do tempo e apagava-as."

Jane Fonda em Las Vegas, EUA, 1978
Jane Fonda em Las Vegas, EUA, 1978 Foto: Getty Images
02 de março de 2021 | Cláudia Lucas Chéu

Pestanejei e passou um ano. De Março a Março foi um relâmpago de dormência. Os dias no calendário riram-se de mim: «Deves pensar que mandas.» Não mando, claro, em nada. Muito menos nas rugas que me aparecem na cara, umas novas, outras mais acentuadas, quando me olho de manhã ao espelho.

À noite nem reparo, não tenho vagar nem energia para ficar a ver-me, e a luz artificial encobre bem as linhas que estão cada vez mais marcadas. Ninguém as convidou e não param de aparecer. Fossem gente e chamava-lhes
«estas putas», mas é estúpido demais querer personificar os sintomas do envelhecimento da pele. Tenho umas novas e fininhas junto aos olhos, e outras antigas, mas agora mais cavas, entre as sobrancelhas. São cada vez mais visíveis – registo das minhas preocupações ou dos factos que considero intrigantes. Detesto-as. Não posso dizer que ache que me valorizem; envelhecem-me, não gosto. Dizem que não devemos apagá-las, mas não concordo. Tivesse eu dinheiro suficiente e a certeza de que voltaria a ficar como antes, sem correr o risco de correr mal e de tornar a cara um bolo com excesso de fermento, ia a uma clínica fazer uso das borrachinhas do tempo e apagava-as. «Mas queres apagar as marcas do tempo?», pergunta a brigada reaccionária de buço. E eu respondo que se o tempo é relativo em tudo o resto, por que raio não podemos aplicar este conceito ao aparecimento das rugas? Estou a ser fútil, paciência. Preocupar-me com as minhas rugas, quando há uma pandemia que dura há mais de um ano, pode parecer frívolo, mas a verdade é somos todos mesquinhos e autocentrados. Não vale a pena fingirem que não são.  Se calhar, devia ter estudado mais para ser profunda. Devia ter aproveitado e lido durante o confinamento os clássicos russos que me faltam ler, em vez de fazer todos os dias os vídeos de ginástica da Elle Macpherson. Mas ainda assim, a ginástica também não serve, não me tira as rugas; e os russos não me fazem esquecê-las definitivamente nem mudar de ideias sobre o que penso delas, diga-se de passagem.

O tempo não é nada relativo no que toca ao envelhecimento. Por exemplo, passou rápido, a correr, a torcer-nos as feições e a azedar-nos, por cansaço, o ânimo. E devagar, lento, lento, como um amante que tivemos de encarar durante o último ano, saturados entre quatro paredes. «O culpado é o sol», diziam-me antes, quando queriam arranjar um bode expiatório, não para as rugas causadas pelo sol, mas para os meus comportamentos. E eu que nem sequer gosto de ficar ao sol. Da praia e das piscinas só se aproveita a água, seja com cloro ou carregada de sal. Olho para o candeeiro junto ao computador, a luz que apanhei praticamente todo o ano, e acho-o inocente. Coitado. A culpa não é da luz, é do tempo. Esse cabrão implacável — e aqui uso a personificação e o insulto, ele aguenta —, esse arquitecto exímio das rugas. Pestanejei e passou um ano, talvez o melhor seja agitar o menos possível as pálpebras.

*A cronista escreve de acordo com o Acordo Ortográfico de 1990.

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